Talentos

Eu Vi

Não vivi dias de fome ou escassez
Mas vi um pequeno garoto fazer
da metade de uma marmita sua única
refeição no dia

Vivi aventuras com toda sorte
de brinquedos e mimos, mas vi uma pequena
guria arrastar uma velha caixa de sapatos com
um barbante amarrado e um sorriso lindo,
mesmo com dentes mal cuidados.

Já reclamei do tédio, já questionei minha
falta de luxo e desrespeitei quem amo por
nunca estar satisfeito com o que tenho.
Mal desconfiava que aquele meu tédio era na
verdade meu luxo.

Vi mães e pais de mãos inchadas, pés deformados
e carteiras vazias, o sino da escola ser
substituído pelo expediente abusivo,
a infância ser esquecida e a criança chamada
de mão de obra.

Ouvi ignorantes com diploma, li as obras
de escritores analfabetos, me surpreendi
ao ver cegos com clara visão e surdos
com bela audição.

Senti a dor do fogo amigo, mas recusei
que me fosse colocada a mordaça ou a venda.
Nem mesmo as inúmeras ameaças seriam
capazes de me calar, pois faço da
verdade meu norte.

Admirei-me bastante quando vi a censura
ser tratada como qualidade, o silêncio
como virtude e a agressão como conquista.

Vi bons argumentos serem desprezados,
clichês enaltecidos, bandeiras de guerra
erguidas com palavras de paz para disfarçar
e líderes desleais com discursos admiráveis.

Eu vi sim, pode acreditar, mas não me surpreendi.
Vi críticos que nunca sofreram acusarem
sofredores de falsidade, mas com isso não me
surpreendi, é comum criticarmos como
especialistas o que conhecemos como leigos.

Mérito algum tenho por conhecer a verdade,
mas me envergonho por não enfrentá-la.
Ela me persegue no espelho e no travesseiro,
com uma indagação constante: O viver é bom,
o ver é inegável e o agir mais do que necessário.

Compartilhe

Inspiração

Eu voltava do trabalho em um dia comum no centro de Belo Horizonte, vi uma criança na rua dizendo ao seu pai que estava com fome, o pai respondeu "Não reclame meu filho, hoje pelo menos você almoçou."

Aquilo mexeu muito comigo e esse texto foi nascendo no meu trajeto de ônibus até minha casa.

Sobre a obra

Não me preocupei muito com padrões, a obra em si é um desabafo que busca instigar as pessoas a valorizarem mais as pequenas coisas e refletirem mais sobre o sofrimento dos nossos semelhantes.

Sobre o autor

Gosto muito de compor músicas e escrever, acho desafiador transformar sua inspiração e reflexão em linhas numa folha de papel.

Autor(a): YURI THIAGO CAMPOS DE MIRANDA ()

APCEF/MG