Talentos

É O VEREDITO!

Julgue-se.
Eternamente recostados no banco dos réus estamos. Trata-se de ter que ser e agir corretamente para todo o sempre. Mas trata-se de nunca estar apropriado, não o suficiente. A conta não há de fechar. Eis a posição mais democrática: a do réu. A qualquer instante chegará o seu momento. E os doutos julgadores são atrozes. Ah, um deles é você e também sou eu!
Nessa sinuosa realidade de lados opostos em que todos ocupamos ambos os papéis, há uma fina e impiedosa crueldade. Pois que na imagem e semelhança houve um descuido singelo que nos permitiu a onipresença, com a cautela da expressão. Penalizamos e somos penalizados, simultaneamente.
Presuma-se.
O rapaz atravessou o semáforo vermelho. É um leviano! Estava apenas o pobre tentando salvar a mãe de um acidente vascular cerebral, onde os segundos não perdoam, nem ele mesmo o faria, se sobrepusesse à vida da mãe, agora salva, aquele segundo de um objeto de trânsito frio e colorido, cujo objetivo é conciliar. Mas quando a toga é vestida, todos os argumentos deixam sua robustez e todas as explicações são vis. Não tire com esses esclarecimentos o enlevo das prévias concepções conclusivas.
Há que se julgar.
Estava ela sem sutiã: Promíscua, que pouca vergonha!
Estava ele correndo afoito entre os carros: Trava a porta, é ladrão!
Estavam eles reivindicando sua convicção: Idiotas, desocupados!
Estava ela de óculos escuros na sala fechada: Dormiu a preguiçosa!
Estava fedendo: Imundo! Como pode sair à rua assim?
Sentenças limitadas, rasteiras.
Estavam apenas e, respectivamente, a mulher dona de sua história, servindo-se da liberdade de usar o que queira.
O negro, atrás do ônibus que o levaria ao trabalho.
O grupo, defendendo a valorização humana no trabalho.
A moça, disfarçando a marca da violência.
O desempregado, trajando ainda o que lhe vestia quando, no sol escaldante, fazia “bico” para alimentar sua família naquela noite, e, apenas naquela noite.
Assim estamos todos condenados no prefácio. Devorou-se o contraditório e a ampla defesa de uma audiência que sequer deveria existir.
É frescura, arruma uma trouxa de roupa!
Suicidou-se.
Transforme uma sombra em fatos complexamente reais, e, eis a receita de um grande júri popular. Acrescente uma pitada generosa de ocorrências engenhosamente criadas e: 'Parla'! Temos um assombroso acórdão.
Não são apenas eles. Somos. No detalhe, no trânsito, no escritório, com os filhos, com o vizinho, sutilmente, continuadamente...
Repute-se.
O banco do réu é frio, obliterado pelo martelo "da justiça", enérgico e empoderador.
Tolerância, empatia, indulgência, flexibilidade, deveriam, mas não se encaixam nesse tribunal.
A desventura do condenado forrada pela pobreza dos que decretam categoricamente a verdade cômoda.
Sentencie-se.

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Inspiração

É angustiante viver constantemente sob o peso estafante da necessária aquiescência social.
Um desabafo de quem cria seu próprio protocolo.

Sobre a obra

Esta crônica trata de uma crítica à devassidão a que estamos todos expostos, sem escudo ou refúgio.

Sobre o autor

Sou uma fã inveterada da vida e de seus pequenos espetáculos diários.
Um ponto fora da curva.

Autor(a): MARIA CLARA BARRETO CRISPIM ACURSI (Clara Crispim)

APCEF/RO


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