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GERCINO DOS ANJOS
GERCINO DOS ANJOS
Por Aldous Cavalcanti
Em setembro de 1981 Deus fechou as cortinas do céu que davam para o Nordeste brasileiro.
Manuel das Mercês Santos andava pela terra esperando sua danação.
O tinhoso andava por aquelas bandas do Ceará como um carcará faminto. E o que não lhe faltava era alimento. E enquanto isso, cada alma definhava de fome e de sede.
Tão seco era o ar como a terra, que também estava poeirenta e desgraçada.
Manuel tinha 42 anos e nunca tinha visto um cenário tão feio.
Seus amigos, que já eram raros, migraram em busca de se salvar. Ele e a mulher decidiram, depois de longos dias de brigas e discussões, ficarem sob o malogrado céu em que Deus os tinha botado.
A mulher, Cícera, que não conhecia nada além das porteiras da Fazenda dos Mercês, ficava no batente da porta, mirando o horizonte e imaginando a fúria das águas do mar e a doçura dos lagos, e se perguntava se um dia os veria. Ela tinha 38 anos. Mas ambos, ela e o marido, sentiam os corpos ossudos e secos de velhos à beira da morte.
Certa manhã, Manuel saiu para catar cavaco, o sol já queimava alto e impiedoso sobre a alma das gentes e ele sabia que seu império ainda duraria muito.
¬- Manuel, a bichinha amanheceu ruim. - As lágrimas eram a única coisa que vinham molhando o rosto de Cícera.
O homem que só tinha a menina de filha, engoliu em seco e se persignou. Lembrou de um tempo em que sonhou ter o terreiro cheio de moleques, e da luta que foi para botar, ao menos, Jéssica no mundo.
Teté, a benzedeira, tinha dito que Cícera tinha a madre seca e que era milagre Jéssica ter vingado.
Mesmo querendo um macho, ao ver a menina, escurinha dos olhos pretos, pela primeira vez, Manuel correu no Monte do Espinhaço, olhou para o céu e agradeceu.
- Deus, Tu É bom. Que me deu uma neguinha linda e deixou Cícera viva, pode botar fé que eu vou cuidar dela e não vou deixar faltar nada. Se mandar chuva até fevereiro, mato um carneiro pra festejar.
Agora ela estava na rede, feito uma casquinha de nada, os olhos fundos de quem não vê esperança na vida.
Comiam uma porção de farinha e feijão todo dia, e naquela manhã iam comer pela última vez.
- Deus sabe. - Resmungou Manuel, sem olhar para trás, antes de sair. Ouviu, ainda, o gemido da filha lá dentro da casa, e a perna fraquejou.
Enquanto caminhava olhando para o chão trincado do sertão, pensou na hipótese de botar a menina no burro e levar para a cidade. Só que o burro havia morrido há semanas. Fizeram charque dele. O pobre animal esteve prostrado embaixo da árvore por um bom tempo e de lá não se levantou.
Não houve solução para aquele problema, já que a cacimba ficou quase seca. Desse a pouca água que tinham não o salvaria e ainda condenavam a família.
E para andar 30 léguas a pé...
Manuel chorou.
Por que não foi para Fortaleza quando Donato chamou para subirem na carroça? Teimosia? Fé tola?
O cabra tem que ter fibra, ter valentia.
- Bote os bregueço inriba, e simbora moço. A terra está condenada.
Ouviu naquela hora, o pai, falecido, dizendo que Deus os havia confiado aquele quinhão. A Fazenda dos Mercês pertencia a ele, agora, e ele à fazenda.
O cabra tem que ter fibra, ter valentia.
Se não tinha mais cinquenta empregados como na época do império, também não era nenhuma porcaria. Era terra boa.
A chuva volta e a vida volta, tudo se repete embaixo do sol. Estava na Bíblia. Não era teimosia, era sentimento. A fazenda precisava dele. O avô havia construído aquilo com o seu suor, o fim não seria escrito com seu dedo.
O cabra tem que ter fibra, ter valentia.
Foi andando à esmo sem lembrar mais da lenha.
Se Jéssica morresse, Cícera morreria. Sem dúvidas. Ele ficaria só. E depois iria também.
Pensou nas festas de São João. O povo sorrindo. A música. A alegria parecia agora como fundo de um açude ressecado.
Queria ver a filha com vestido de renda. Queria dar para ela um bezerro no dia de seu casamento. Queria ver um neto seu.
O cabra tem que ter fibra, ter valentia.
Parou, de repente, ao ver que suas pernas o tinham conduzido à procissão até o Monte do Espinhaço. Agachou-se embaixo do cajueiro desmilinguido e depois ajoelhou. A garganta esturricada. Os olhos ardendo de tanto chorar. Só agora percebera que por todo tempo havia chorado.
O cabra tem que ter fibra, ter valentia.
O Monte do Espinhaço era bom para ver a estrada e bem longe o povoado de Iquerá. Devia estar abandonado também. Viu o último comboio partindo há três meses. Talvez o padre ainda dormisse na sacristia, se não houvesse morrido também.
Num raio de sete léguas não havia mais ninguém para aquelas bandas. Nem as tiras de boi para comer mais. Nem água.
Ele fechou os olhos. A mão firme de outrora tremia. O peito num movimento sôfrego de sobe e desce.
Sua mãe dizia que a morte lenta é mais cruel que capataz. A sua estava a ser. Quantos dias duraria o homem sem comer? Não queria morrer. Não, daquele modo tão miserável. Não sem ver a filha crescer. Deus sabe, ele disse à mulher quando ela o atualizou do estado de saúde de sua filha. Deus sabia. E fazia o quê? Imaginava o Criador assentado em seu trono o vendo. É claro que sim. Estava em todo canto, e sabia de tudo. Mas o que o afligia era saber que Deus era Todo-poderoso. Então por que não acudia? Que prazer Deus sentia sabendo que o povo morria de fome aqui e não fazia nada. Deus tinha ódio dele. E ele não tinha feito mal nenhum.
Manuel cerrou os punhos e esmurrou o chão duro até sua mão descarnada começar a doer.
Sua filhinha, pobrezinha, definhando sem nenhuma gota de sangue já. Com a vida toda pela frente. Sem ter visto nada nesta vida. Nada de bom, pelo menos.
Deus impiedoso e mal! Então, Manuel ergueu os olhos para o céu e urrou.
Por quê?!
Por quê?!
Por quê?!
O sol assobiou lá de cima.
Então, houve um breve e notável minuto de silêncio e depois uma brisa gelada e calma tocou sua nuca. Ele sentiu um frio na espinha.
- Com licença? - disse o homem atrás dele. - O senhor está bem?
Sua voz era grave e pausada como a de um idoso. Mas ao virar-se para ele ficou em choque, o sujeito era muito jovem. Tinha o corpo de um homem adulto, mas a face com bizarros traços infantis. Manuel julgava que o homem estava na casa de vinte ou vinte cinco anos. Usava uma velha camisa branca encardida e uma calça jeans escura. Os pés calçados por uma sandália de tira de couro e um chapéu de vaqueiro.
Manuel não respondeu.
O homem deu três passos vagarosos em direção ao lugar em que Manuel estava e depois sentou ao seu lado, o que deixou Manuel desconfortável.
- Oxe! De onde tu saiu?
- Tô, só de passagem... Essa quintura bota a gente arretado, não é?
Manuel assentiu.
O homem tinha um embornal e enfiou a mão dentro dele.
- Quer água?
Manuel aceitou. Deu um gole e se perguntou como podia ser tão gelada, e tão límpida.
- Tu é uma visage?
O homem sorriu e lhe estendeu a mão.
- Me chamo Gercino - e depois de uma pequena pausa - dos Anjos.
Sua mão era lisa como um pedaço de seda, mas o aperto de mão foi firme como o de um sertanejo.
Manuel encarou por um instante aquele rosto sem rugas e os olhos claros, tão diferentes dos seus. Gercino olhava de volta para ele com o quê? Compadecimento? Empatia? Os olhos cintilavam para ele.
- Você acha que essa secura vai durar? - perguntou Manuel desolado.
- Deus sabe! O que me alegra é saber que o lugar pra onde a gente migra não tem seca. - seu sorriso iluminou-se.
- Tu fala de Fortaleza?
Gercino fez que não.
- São Paulo, então?
Outra vez Gercino chacoalhou a cabeça.
Ele não disse de onde vinha nem para estava migrando. Mas ficou claro para Manuel que aquele cabra não era das redondezas.
- Minha filha está muito doente. - Manuel soltou de repente, como um desabafo. Em sua mente, estava se justificando. - Tá tão fraquinha a bichinha. Mesmo o pirão não está ajudando. Acho que precisava de carne. De sustança... - e com os olhos encharcados - vai morrer.
- Vai não.
- Deus me abandonou.
- Posso te perguntar uma coisa? Se você pudesse levar tua filha para uma cidade nova, onde ninguém adoecesse ou ficasse fraca de fome, ou sede outra vez. Se pudesse levar tua família toda para este lugar, você levaria?
- Oxe, tá com a moléstia, é? Mas é claro!
- E se vocês três tivessem que embarcar um de cada vez para lá e depois se reencontrassem?
Manuel pensou em Jéssica prostrada sobre a cama de sisal. A caveirinha moribunda.
- Não tô entendendo essa perguntação. E quem te disse que somos três?
- Deus não te abandonou, não, Manuel. É tudo uma questão de perspectiva. Você e os outros estão enraizados neste mundo. Por isso são tão infelizes, - ele estendeu a mão e a pousou no braço ossudo de Manuel.
- Não! - foi inevitável as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, e Manuel tentou enxugar o rosto a todo custo com a mão ressequida. Homens não choram.
O cabra tem que ter fibra, ter valentia.
- Tu é a morte, desgraça?
Gercino sorriu, depois retirou dos ombros o embornal que a esta hora parecia bem maior do que antes e o entregou a Manuel.
- O que é isso? - Abra.
Lá dentro havia comida. Muita comida. Manuel Viu um pacote de arroz e uma embalagem de charque. E dava para ver muitas outras coisas.
- Você deve dizer à sua mulher que venha aqui neste monte todo dia primeiro do mês e haverá outra sacola como esta. O que recebi do Senhor é o que eu vou te entregar. Sua filha não vai morrer.
Manuel o encarou com a desconfiança de um porco que é acariciado pelo açougueiro. Pouca coisa passava pela sua mente. Ele tinha recebido mais do que se lembrava de ter comido todo aquele ano. Uma senhora feira. O que mais importava?
- Você entendeu, Manuel? Isso é importante. Precisa se lembrar de dizer à sua mulher. Todo dia primeiro. Aqui neste monte. Ah, e tem mais uma coisa. Quando chegar a casa, confira a cisterna.
Manuel fez que sim com a cabeça enquanto olhava maravilhado para dentro da bolsa. A boca salivava. Cícera ficaria maluca. Jéssica vingaria.
- Te vejo em breve - disse Gercino com, mais uma vez, um sorriso enigmático.
Ele desceu o morro a passos largos e tão rápido, que logo Manuel não o via mais.
O embornal parecia pesar uma tonelada em suas mãos.
Levou vinte minutos para chegar à casa, ignorando a fraqueza que sentia. A adrenalina o empurrando pelo chão assolado. Se sentia em eufórica empolgação. Era a Providência. Deus, enfim, lembrara-se deles e se compadeceu.
Um pouco antes de chegar, olhou para o céu. Azul e estupidamente parado. Quis dizer alguma oração, mas lançou apenas um sorriso desconcertado em sua direção. Como um pedido de desculpas.
Não ficou surpreso quando foi olhar a cisterna. Não mesmo. Estava cheia de água, e podia apostar que era a mesma que havia bebido com Gercino no monte.
Cícera demorou a entender as palavras atabalhoadas de seu marido para explicar tudo o que havia acontecido. E não fosse pela presença de todos aqueles alimentos que Manuel despejava sobre a mesa, ela diria que o sol tinha queimado seus miolos.
- Vá, mulher, se apresse em cozinhar alguma coisa. Comeram arroz com milho em conserva. Não esperaram o feijão cozinhar. Mas saborearam um bom pedaço de charque.
- Meu Deus, achei que nunca mais ia comer carne nessa vida! - Cícera falou com a boca cheia de comida para a filha que parecia recobrar o ânimo enquanto almoçavam.
Riram como há muito tempo não acontecia. E nem o calor infernal tirou-lhes do estado de graça.
Ao entardecer, Manuel caminhou até os fundos da casa. Estava se sentindo rejuvenescido, bem-disposto. Acreditava que logo voltaria a chover. Tudo podia acontecer. Deus era seu amigo novamente.
O sol despedia-se preguiçosamente nos termos da terra e um caburé cantou em algum lugar, despertando Manuel.
Sentiu um beliscão no peito, o coração acelerou descontroladamente e ele caiu ajoelhado.
Ainda deu tempo de ver os pés de Jéssica se aproximando e ele pensou:
Te vejo em breve.
Inspiração
Sou nordestino de coração, morei por duas vezes na Bahia e me sinto filho daquela terra. Minha mãe é baiana e meu pai era pernambucano. A terra, o povo, sempre me inspiraram. E quando estudei sobre algumas secas históricas me pus a pensar em como deve ter sido atravessar esse momento e em como milagres devem ter ocorrido na vida daquelas pessoas.
Sobre a obra
Queria uma linguagem simples e que se aproximasse da realidade e personagens que ficassem longe de serem caricatos.
Sobre o autor
Escrevo desde os meus dezessete anos, prosa e poesia e sou um amante da literatura como expressão, não apenas artística, mas sobretudo para dar voz à nossa essência.
Autor(a): ALDOUS FABRICIO ALBUQUERQUE CAVALCANTI (ALDOUS CAVALACANTI)
SP