Garimpo

Entrava na biblioteca
O nariz já reclamava
Passava a catraca
Começava o garimpo
Das perguntas sem resposta
Corredor, prateleira
Amontoado de livros cheios de pó
Gavetões de jornais
Organizados por datas
Grampeados em molduras de madeira
Como se o pingo do nariz não fosse suficiente
Para borrar a memória, o trabalho
A tia já me conhecia por nome
Às vezes me indicava o local exato
Número e letra
Sabia de cor
Ali perto do espanador
Será que ela já tinha lido
Tudo aquilo ao redor?
Livro por livro e de repente
A mesa já estava cheia
Horas e horas
Um espirro discretamente
Deus me livre chamar atenção
Anotações soltas no caderno
Uma pergunta já tinha ido – bingo!
Pulinhos contidos de alegria
Com dúvidas ainda, admito
Faltava “só” todo o resto
E o tempo não tinha mais
Voltava outro dia...
________________________________________
O que era dia virou segundos
Um aplicativo eu mesma criei
Devora o que antes eu buscava aos poucos
Devia ser só alívio
Mas vem junto um aperto
Se eu resolvo em tão pouco
O que mais eu serei?
Preguiça de pensar
Todo mundo escreve igual
A tia que lia tudo?
Agora tanto faz
Mais que uma biblioteca inteira
Um cérebro imenso pensando junto
Com tantas respostas prontas
Que pergunta vai sobrar?
Mas nunca sentiu o cheiro do mofo
Nem o silêncio de uma sala cheia
Não sabe o que é saudade
Nem o medo que me invade
Nesses versos que aqui confio
Se para o bem...
Mas e se para o mal?
Depende de quem conduz
Depende do anfitrião
Quem é seu pai?
Quem é sua mãe?
________________________________________
Ainda lembro da dor
As costas curvadas na mesa
Via o dia escurecer na janela
Sinto o peso do tempo
Reconheço a evolução
Usufruo dos seus sentidos
Mas todo dia me questiono
Injusto, eu julgo
Uma corrida desleal
De quem se dedica
E quem só digita
Do esforço na pesquisa
De uma busca imprecisa
De quem aprendeu errando
E quem acerta sem nem tentar
De quem guardou na memória
Construiu uma história
E quem só vai consultar
De quem cresceu na dúvida
E quem já nasceu na conclusão
Da emoção de percorrer os livros
Formar o pensamento
E quem resumiu no comando
Com dados tão precisos...
Preciso?

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Inspiração

Estudando em uma pós graduação sobre Inteligência Artificial e conhecendo todas as possibilidades que essa tecnologia oferece, surgiu um questionamento sobre nossa própria identidade, o valor do esforço humano e da busca pelo conhecimento.

Sobre a obra

Combinei memórias pessoais, contrastando o passado e o presente e provocando uma reflexão sobre o valor da busca pelo conhecimento na era da Inteligência Artificial.

Sobre o autor

Arquiteta apaixonada por vários tipos de artes, entre elas, a fotografia, o desenho e a poesia.

Autor(a): NATHALIA ARAUJO DA SILVEIRA LEITE (Nathalia Leite)

APCEF/MA