As contas da noite

As contas da noite
Jorge Castilho

A casa permanecia acordada. Não por causa das lâmpadas, que já estavam apagadas havia algumas horas, nem pelos ruídos da rua, cada vez mais raros, mas por uma espécie de vigília que se instalara nos móveis, nas paredes, nas portas fechadas. A madeira do corredor estalava de tempos em tempos, como se alguém caminhasse devagar entre os quartos. Talvez fosse apenas o calor cedendo ou a secura do inverno goiano. Talvez os mortos conheçam melhor os caminhos de uma casa.

Sentada na beira da cama, Khadija com os pés apoiados no tapete. Havia noites em que o sono era uma forma de esquecimento, e ela temia esquecer. Temia também que, se dormisse, sonhasse com lembranças futuras.

Sobre o criado-mudo, um copo de água, uma pequena caixa de comprimidos, uma xícara de chá já frio, repousava também o masbaha de contas escuras, talvez pelo uso, que pertencera ao marido. Depois da morte dele, Khadija guardara o cordão numa gaveta durante anos.

Naquela noite, porém, ela o segurava.

Passava uma conta entre os dedos, pronunciava em silêncio uma palavra e avançava para a seguinte. Não sabia se rezava, contava. Talvez as duas coisas fossem iguais. Uma conta para o marido. Outra para Samir. Outra para as meninas, cujos nomes ela conhecia, mas que nunca aprendera a pronunciar com a mesma doçura de Amina. Quando chegava ao fim do cordão, recomeçava.

No quarto de hóspedes, transformado às pressas em quarto para Amina, a jovem estava deitada de lado, os olhos abertos para a parede.
Uma faixa de luz entrava pela cortina e cortava o quarto em duas partes. De um lado, a cama, as malas, os livros empilhados, o hijab dobrado sobre uma cadeira. Do outro, a pequena caixa de madeira que Amina trouxera de Gaza.
Dentro dela, sementes de oliveira. Foi o pai quem lhe dera aquelas sementes, anos antes. Costumava dizer que uma árvore é uma memória que aprende a permanecer de pé. Na época, Amina sorrira. Acreditara que os pais dizem certas frases porque envelhecem e desejam parecer sábios diante dos filhos. Agora compreendia que algumas frases precisam de uma guerra para revelar o significado.
Amina estendeu a mão até o criado-mudo e pegou o celular. A tela iluminou seu rosto. Procurou uma gravação que conhecia de cor. Primeiro surgiu um ruído de vento. Depois, a voz de Samir:
— Não corre.
Ao fundo, uma das meninas ria.
— Baba, ela pegou o meu livro!
— Eu não peguei. Estava no chão.
— Mas era meu.
— Tudo que está no chão não deixa de ter dono — disse Samir, tentando parecer sério.
As duas riram.
A gravação durava vinte e três segundos.
Amina a escutou novamente.
Depois outra vez.
Na quarta repetição, percebeu algo que nunca havia notado: entre a fala de Samir e o riso das meninas, havia o som breve de uma colher batendo numa xícara. Uma colher. Uma xícara. Um pequeno acidente doméstico preservado dentro do telefone, sobrevivente de uma casa que já não existia. Ela levou o aparelho ao peito.

Durante muitos meses, tivera medo de esquecer as vozes. Agora começava a temer o contrário: lembrá-las perfeitamente.

Khadija alcançou a trigésima terceira conta. Fechou os olhos. Viu Samir aos sete anos, sentado no chão da cozinha, tentando consertar um carrinho sem uma das rodas. O menino tinha a testa franzida e a língua presa no canto da boca. Sempre que se concentrava, fazia aquele gesto.
— Deixe isso — ela dissera. — Está quebrado.
Samir não respondeu.
Passou a tarde inteira ali, cercado por parafusos, pedaços de plástico e ferramentas que roubara do pai. No fim do dia, o carrinho não apenas voltara a andar como recebera uma roda maior que as outras. Movia-se torto, descrevendo círculos.
Samir o empurrava e ria.
— Não anda direito — disse Khadija.
— Anda do jeito dele.
Durante anos ela contara essa história como prova da teimosia do filho. Somente naquela noite compreendeu que talvez fosse uma profecia. Samir vivera do jeito dele.
Estudara engenharia contra a vontade do pai, que desejava vê-lo no comércio da família. Aprendera árabe tarde demais, com a dedicação dos que tentam alcançar uma parte perdida de si mesmos. Apaixonara-se por uma mulher que vivia do outro lado do mundo. Partira. Casara. Construíra uma casa. Tornara-se pai.
E morrera numa rua que Khadija nunca mais vera.
Ela apertou a conta seguinte com força.
Não sabia com precisão como fora a morte. Amina lhe contara apenas o necessário: a escola, o bombardeio, o carro, a tentativa de chegar até as meninas.

Khadija completara o resto com imagens. Em algumas noites, via Samir saindo do automóvel e correndo. Em outras, ele permanecia preso ao banco. Às vezes, chegava à escola. Era essa possibilidade que mais a atormentava. Porque, se chegasse, talvez encontrasse as filhas. E, se as encontrasse, talvez morresse abraçado a elas. Khadija não sabia se desejava ou temia essa versão.

Os mortos deixam aos vivos a tarefa de imaginar seus últimos instantes.

No quarto ao lado, Amina desligou o celular. O silêncio que se seguiu foi maior do que o quarto. Sentou-se na cama e cobriu a cabeça com um lenço leve. Não porque houvesse alguém ali, mas porque o gesto lhe devolvia uma forma reconhecível de si mesma. Estendeu o tapete de oração no chão, orientando-o com cuidado. Ela já havia conferido a direção no primeiro dia, discretamente, com o telefone, e depois decorara o ângulo em relação à janela.

A casa de Khadija não fora construída para olhar em direção a Meca. Ainda assim, Amina descobrira que qualquer quarto pode se tornar um lugar de oração quando se sabe onde colocar o corpo. Permaneceu de pé. Depois se inclinou. Tocou o chão com a testa. No primeiro movimento, lembrou-se de Samir. No segundo, das meninas. No terceiro, não lembrou de ninguém.

E sentiu culpa.

A culpa veio rápida, como se aquele instante vazio fosse uma traição. Como podia existir, dentro dela, um pensamento que não pertencesse aos mortos? Como podia haver um espaço, por menor que fosse, onde eles não estivessem?

Amina continuou a oração.

Quando terminou, permaneceu sentada sobre os calcanhares. Pegou seu cordão de contas, feito de madeira clara. Samir o comprara numa pequena loja durante uma viagem. Dissera que a madeira vinha de uma oliveira muito antiga. Amina nunca soubera se aquilo era verdade ou se ele inventara a história para tornar o presente mais bonito.

Samir gostava de histórias que melhoravam os objetos. Uma xícara não era apenas uma xícara: era a primeira que compraram para a casa. Uma panela não era uma panela: era a que queimara o arroz no aniversário de casamento. Uma fotografia borrada não era ruim: era a única em que as duas meninas apareciam rindo ao mesmo tempo.

Amina passou os dedos pelas contas.

Em Gaza, Samir errava a contagem com frequência. Distraía-se, começava de novo, perguntava quantas vezes já repetira a frase.
— Deus não precisa da matemática — dizia ele.
— Mas você é engenheiro.
— Por isso sei que alguns números não levam a lugar nenhum.

Amina sorriu. Foi um sorriso pequeno, que desapareceu antes de alcançar os olhos.

No quarto de Khadija, a mesma lembrança surgiu de outro modo. Samir tinha quinze anos e voltava da mesquita com o pai. Sentaram-se à mesa. O pai reclamava que o menino se distraía durante as orações.
— Ele perde a contagem — disse.
Khadija colocou pão diante dos dois.
— Talvez esteja pensando em Deus.
O marido não gostou da resposta.
Samir, porém, sorriu para ela.

Khadija não se lembrava de ter pensado naquela cena desde então. Perguntou-se onde ficam as lembranças quando não são lembradas. Imaginou um lugar escuro, onde cada gesto permanece coberto de poeira, esperando que alguém abra a porta. Talvez a memória não fosse o que guardamos. Talvez fosse aquilo que nos aguarda. Ela chegou à última conta e não recomeçou.

Levantou-se, saiu do seu quarto. No corredor, parou diante da porta de Amina, escutou as orações feitas quase em silêncio. Pensou em bater. Não sabia o que diria, nem queria atrapalhar o momento da nora. Pensou em perguntar se ela estava bem, embora ambas conhecessem a inutilidade da pergunta. Pensou em oferecer chá, comida, um remédio para dormir. Poderia dizer que também sentia falta dele. Mas havia uma frase que Khadija nunca conseguira pronunciar:

— Eu perdi meu filho.

Na presença de Amina, a frase lhe parecia incompleta, quase egoísta. Amina perdera o marido, as filhas, os pais, a casa, a rua, os vizinhos, os alunos, a escola e talvez até mesmo a cidade, que continuava existindo nos escombros dos bombardeios, mas não da maneira que ela conhecera.
Khadija perdera Samir. E, no entanto, aquela perda era tão grande que ocupava tudo. As orações pararam. Ergueu a mão para bater. Antes que os dedos tocassem a madeira, a porta se abriu. Amina estava diante dela, com o lenço sobre a cabeça e o cordão de contas na mão. As duas se olharam. Por um instante, nenhuma soube quem havia encontrado quem.

— A senhora precisa de alguma coisa? — perguntou Amina.

Khadija olhou para o masbaha em sua própria mão. Só então percebeu que o trouxera consigo.

— Não.

Amina assentiu. Khadija pensou em voltar para o quarto. Amina pensou em fechar a porta. Nenhuma fez qualquer movimento.

— Eu estava lembrando dele — disse Khadija.

Amina não perguntou de quem.

— Eu também.

— Quando era menino, ele consertou um carrinho quebrado. Colocou uma roda maior. O brinquedo andava em círculos.

Amina esperou.

— Ele disse que andava do jeito dele.

Por alguns segundos, a jovem permaneceu imóvel. Depois levou a mão à boca. Khadija teve medo de tê-la ferido. Mas Amina começou a rir. Não era um riso alegre. Também não era exatamente triste. Era o riso de quem encontra, no meio da dor, uma porta secreta.

— O que foi?

Amina respirou fundo.

— Samir consertou a bicicleta de nossa filha. O guidom ficou torto. Ela só conseguia andar em círculos.

Khadija também riu.

As duas riram no corredor escuro, baixinho, para não acordar a casa, embora soubessem que a casa já estava acordada.

Depois o riso cessou.

Amina olhou para o cordão escuro nas mãos da sogra.

— Era dele?

— Do pai dele.

Amina mostrou o seu.

— Este era de Samir.

Khadija tocou uma das contas de madeira clara.

— Ele tinha um igual quando era jovem.

— Ele dizia que vinha de uma oliveira antiga.

Khadija franziu a testa.

— Não. Ele comprou numa loja perto do mercado. Era madeira comum.
Amina a encarou. Então sorriu novamente.

— Ele melhorava os objetos.

— Sempre fez isso.

As duas permaneceram no corredor, cada uma segurando um cordão. Khadija pensou nas contas como dias. Algumas escuras, outras claras. Nenhuma diferente o suficiente para conter uma vida. Ainda assim, quando ligadas por um fio, formavam algo que podia ser tocado, contado, perdido, reencontrado.

Amina pensou nas sementes guardadas na caixa. Uma semente também se parece com uma conta de oração: pequena, fechada, silenciosa, contendo no interior algo que ninguém consegue ver.

— Não consigo lembrar o rosto delas sem olhar as fotografias — confessou Amina.

A frase saiu tão baixa que Khadija quase não ouviu.

— Das meninas?

Amina assentiu.

— Lembro a voz. Lembro as mãos. Lembro o cabelo molhado depois do banho. Mas, quando tento ver o rosto inteiro, ele desaparece.

Khadija não disse que isso era normal. Não disse que o tempo faria pior. Não disse que as fotografias ajudariam. Apenas segurou a mão de Amina. Era a primeira vez que fazia isso desde sua chegada.

— Conte alguma coisa sobre elas.

Amina olhou para a porta aberta do quarto.

— Agora?

— Agora.

Entraram. Sentaram-se lado a lado na cama. Amina colocou a caixa de madeira entre as duas e abriu a tampa. Khadija viu as sementes. Pareciam pedras pequenas. Pareciam olhos fechados. Pareciam coisas mortas. Amina pegou uma delas e colocou na palma da mão.

— Nossa mais velha não gostava de azeitona — disse. — Samir dizia que isso era uma ofensa à família inteira.

Khadija sorriu.

— Ele também não gostava quando era pequeno.

— Nunca me contou.

— Porque melhorava as histórias.

Amina começou a falar. Contou que uma das meninas dormia com os pés descobertos, mesmo nas noites frias. Que a outra escondia livros debaixo do travesseiro. Que discutiam por qualquer coisa, mas não suportavam ficar separadas. Que certa vez pintaram as unhas de Samir enquanto ele dormia. Que ele foi trabalhar no dia seguinte sem perceber.

Khadija ouviu.

A cada história, as meninas deixavam de ser apenas duas crianças mortas numa guerra distante. Tornavam-se netas. Ocupavam espaço. Faziam barulho. Deixavam objetos no chão. Derramavam leite. Riam com a boca cheia.
Quando Amina se calou, a madrugada já empalidecia a janela.

Khadija colocou o masbaha do marido sobre a colcha. Amina pôs o de Samir ao lado. Os dois cordões quase se tocavam.

— Podemos plantar uma delas — disse Khadija, indicando as sementes.

Amina demorou a responder.

— Talvez não cresça.

— Talvez.

— O solo é diferente.

— Samir também era.

Amina abaixou a cabeça.

Khadija percebeu que repetira, sem querer, a história do carrinho: a roda maior, o caminho torto, o movimento em círculos.

Amina fechou a caixa, deixando uma semente do lado de fora. Naquela manhã, antes que o restante da casa despertasse, as duas caminharam até o quintal. Khadija trouxe uma pequena enxada. Amina levou a semente na palma da mão. Escolheram um canto junto ao muro, onde o sol chegava primeiro. Cavaram juntas.

A terra em Goiás é vermelha e pesada. Nada lembrava o solo que Amina nascera. Ela pensou em dizer que oliveiras não nascem em qualquer lugar. Pensou em explicar o clima, a umidade, o tempo necessário, a improbabilidade.

Não disse.

Colocou a semente no buraco. Khadija cobriu-a com terra. Depois permaneceram lado a lado, olhando para o chão. Não havia árvore. Não havia broto. Não havia sinal algum de que algo pudesse nascer ali.
Ainda assim, por um instante, uma oliveira estava ali junto a elas.

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Inspiração

A inspiração nasceu do desejo de olhar para a Palestina a partir de quem sobrevive e continua vítima de uma violência que atravessa gerações. Mais do que retratar a guerra, quis refletir sobre as marcas silenciosas que ela deixa: o luto, a memória e a reconstrução da vida após as perdas.

Sobre a obra

O conto faz parte da pesquisa e do desenvolvimento de um roteiro cinematográfico. Foi construído com uma narrativa intimista, alternando os pontos de vista de Khadija e Amina. Busquei uma linguagem contida, em que objetos, gestos e silêncios carregassem a emoção, permitindo que memória, luto e esperança surgissem mais pelas imagens do que pela expl

Sobre o autor

Sou cineasta, escritor e músico. Depois de 30 anos na Caixa, escolhi dedicar minha vida à arte e construir nela uma nova trajetória. Sou graduado em Cinema e Audiovisual e especialista em Gestão da Indústria Audiovisual. Desenvolvo obras que unem memória, história e direitos humanos, transformando pesquisa e sensibilidade em narrativas universais.

Autor(a): JORGE CASTILHO DE ALBUQUERQUE ARAUJO ()

APCEF/GO