Era Amizade

Era Amizade

Você sabe como os paleontólogos determinam, de fato, que ocorreu uma extinção em massa? Para quem estuda o passado através da rocha, o apocalipse não é um evento barulhento. Eles não ouvem o impacto do meteoro, nem sentem o calor das erupções vulcânicas ou o tremor dos continentes se partindo. A ciência deles é a ciência do silêncio. Eles analisam a estratigrafia, as camadas sobrepostas de depósitos sedimentares que se acumularam no leito de antigos lagos e oceanos ao longo de eras.
Se nas camadas inferiores há uma abundância vibrante de vida, uma cacofonia de registros fósseis de todos os formatos e tamanhos, e, de súbito, ao cruzar uma fina e assustadora linha de sedimento, as camadas superiores emudecem; se não há mais esqueletos, nem conchas, nem marcas de folhas, e apenas muito mais adiante surgem registros tímidos de espécies inteiramente novas e desconhecidas, eles sabem. Eles creditam a esse hiato repentino, a essa interrupção abrupta no livro de pedra da Terra, uma extinção em massa. A vida estava ali, e então, silenciosamente no registro do tempo, deixou de estar.
Pensei nisso ontem à noite, sentado no sofá da sala, enquanto a chuva fina e invisível batia contra o vidro da janela e a tela do celular iluminava meu rosto na penumbra. Eu estava rolando a galeria de fotos antigas. Meu polegar deslizava pela tela de baixo para cima, escavando o meu próprio registro fóssil, perfurando os estratos digitais dos últimos anos.
Foi então que percebi que nos últimos dois anos não tínhamos mais fotos juntos.
Se eu procurasse com cuidado nas camadas mais recentes, encontrava, eventualmente, uma foto de algum evento do trabalho ou o registro posado no aniversário de algum conhecido em comum. Éramos nós, sorrindo para a câmera, mas havia uma distância geológica ali. As fotos nossas, daquelas que tínhamos antes, de estarmos juntos e puramente sintonizados, simplesmente deixaram de existir. O estrato superior estava vazio.
Lembrei-me daquela sintonia peculiar. O tipo de conexão em que você conhece o relevo do humor do outro a ponto de saber, com uma precisão matemática, o que ele achará engraçado em um contexto absurdo. A mesma sintonia que nos permitia sentar em um café em uma tarde qualquer de terça-feira e ficarmos olhando o movimento da rua, bebendo nosso café escuro, sabendo exatamente o que o outro estava pensando sem que uma única sílaba precisasse ser pronunciada. Era uma espécie de simbiose psíquica. Uma osmose que temos apenas com nossos melhores amigos e que, eu percebia agora com um gosto amargo de café frio na boca, eu não tinha mais com ele.
E, falando isso agora, na quietude deste apartamento, percebo que não tenho isso com mais ninguém.
Sempre fui o tipo de pessoa que se apega de forma concentrada. Aquele que deposita sua confiança e seu universo de confidências quase que exclusivamente em um único amigo, um ponto de ancoragem seguro no meio de um oceano incerto. E agora, observando a ausência de registros, vejo que essa confidência evaporou.
Não houve uma briga. Nenhuma palavra áspera foi dita, nenhum prato foi quebrado, nenhuma traição ocorreu para que os continentes se separassem. Foi uma deriva lenta. A vida foi acontecendo, com suas demandas rotineiras, seus novos horários, suas sutis mudanças de rota. A amizade foi, de forma mansa e quase imperceptível, se esvanescendo. O esvanecer é cruel justamente porque não faz barulho. É como o pôr do sol, você pisca e, quando percebe, já está escuro.
Às vezes, me pergunto se eu realmente gostaria de ter essa conexão de volta com outra pessoa. Acho que é reconfortante por um tempo, mas, quando invariavelmente acaba, porque as coisas sempre acabam, você é deixado em um estado de luto por alguém que continua vivo. Você quer ter a posse daquele ativo intangível, mesmo que não faça uso dele todos os dias. Você quer a segurança de saber que existe alguém no mundo que detém o mapa de como a sua mente funciona.
Quando você perde isso, a nostalgia que se instala não é gélida, mas estranhamente morna. Traz um calor brando, uma saudade confortável de uma época em que o mundo parecia mais administrável porque você tinha com quem falar sobre absolutamente tudo, desde o sentido da vida até a textura errada de um guardanapo de restaurante.
Fiquei olhando para o bloco de notas do celular, onde eu havia acabado de digitar essas exatas palavras. As letras pretas no fundo branco, um fóssil do meu próprio isolamento.
Eu não queria que a extinção fosse permanente.
Movido por um impulso que a razão não teve tempo de vetar, selecionei todo o texto. Copiei. Abri o aplicativo de mensagens, procurei o nome dele, que já havia escorregado bastante para baixo na lista de conversas, colei o texto na caixa de diálogo e apertei em enviar.
A pequena seta confirmou o envio. Depois, duas setas cinzas. O tempo no apartamento pareceu parar. O som da geladeira tornou-se ensurdecedor. O que eu havia feito? Homens adultos, envoltos em suas armaduras de rotina e boletos, não costumam enviar declarações de saudade melancólica uns aos outros às dez e meia da noite de uma quinta-feira. Pensei em apagar a mensagem, deixar apenas o "apagado para todos", um mistério menor do que a vulnerabilidade.
Antes que meu dedo alcançasse a tela, as duas setas ficaram azuis.
Ele estava online.
No topo da tela, a palavra "digitando..." apareceu. Piscou, sumiu. Apareceu de novo. Foram três longos minutos. A estratigrafia de uma vida inteira de amizade sendo processada em tempo real.
O celular vibrou na minha mão. A resposta chegou em um bloco de texto quase do mesmo tamanho que o meu.
"Eu li isso três vezes. Eu estava agora mesmo tomando um chá na cozinha, olhando para a parede, e sentindo um aperto no peito que eu não sabia nomear. Você deu o nome. Eu também tenho olhado para trás, cara. Eu também tenho sentido falta dessa osmose absurda que a gente tinha. A verdade é que a vida me engoliu, e eu deixei que ela me levasse para longe sem perceber que estava perdendo meu único confidente de verdade. Eu sinto muito por ter deixado o silêncio durar tanto tempo. A gente precisa de um café. E eu juro que não vou dizer uma única palavra até você terminar de me contar o que tem pensado nesses últimos dois anos. O fóssil ainda está vivo aqui. Pelo menos pra mim."
Li a mensagem duas, três vezes. O som da chuva lá fora pareceu mudar de tom, tornando-se mais suave, quase musical. O peso no meu peito cedeu, dando lugar a uma expansão morna, uma lufada de ar em um cômodo que estava fechado há muito tempo.
Os paleontólogos talvez estejam certos sobre a rocha e o pó. Mas nós, humanos, temos uma vantagem sobre os sedimentos dos antigos oceanos. Nós podemos, com algumas poucas e sinceras palavras, cavar o fundo da terra e trazer o que amamos de volta à superfície, respirando e inteiro.

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Inspiração

Minha inspiração foi a melancolia com que grandes amizades se esvanecem, não por conflito, mas pela rotina. A paleontologia ilustrou como a ausência de fotos revela uma perda profunda. Minha motivação foi a saudade dessa conexão íntima e o desejo de mostrar que o afeto nunca é extinto de verdade, apenas fica soterrado aguardando resgate.

Sobre a obra

Minha inspiração de estilo literário do momento são os autores japoneses, como os renomados Kawabata, Murakami e Abe, os quais tenho lido dezenas deles ao longo de 2025 e 2026. Estendi a metáfora do registro fóssil para materializar a solidão, contrastando a frieza e o silêncio da rocha com o calor do resgate digital do afeto.

Sobre o autor

Fascinado pelas artes desde criança, busco traduzir sentimentos através da luz, poesia e escrita, tornando-a meu maior e mais seguro refúgio. Com estilo eclético, me inspiro nas ruas e na natureza. Encaro essa paixão como um aprendizado contínuo para compartilhar minha visão de mundo, que é peculiar e carregada das minhas experiências de vida.

Autor(a): FERNANDO AFONSO VISENTIN FAVARO (Fernando Favaro)

APCEF/DF