Entre mortos, feridos e anjos


Entre mortos, feridos e anjos.
 
Eloi Wilges
 
“A catástrofe humana desencadeada pela Segunda Guerra Mundial é quase certamente a maior na história humana. O aspecto não menos importante dessa catástrofe é que a humanidade aprendeu a viver num mundo em que a matança, a tortura e o exílio em massa se tornaram experiências do dia a dia que não mais notamos.”
 - Eric Hobsbawm. Em “Era dos Extremos: o Breve Século XX”.
 
 

O Relatório Final de Operações, do 1º Regimento de Infantaria Expedicionária teve, 414 baixas em combate, sendo 74 mortos, 319 feridos e 21 desaparecidos, em Gaggio Montano, na Itália. O coronel Cláudio Skora Rosty, pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército Brasileiro analisa as condições entre as chances dos participantes de um ataque:
"Pelas características de uma operação ofensiva, onde o atacante avança em campo aberto, exposto à ação do inimigo, em comparação a uma situação defensiva, onde o defensor está em um abrigo, é possível que o primeiro sofra mais "baixas" que o segundo. Não significa que o atacante não vença o confronto, pois pode isolar o defensor e obrigá-lo a se render".

Enquanto isso...
Os jornais não conseguem escrever as notícias que as mães precisam ler. Falam de uma longa espera, de meses de espera... E as mães sabem que os seus filhos não estão prontos para esta nova vida que lhes mostram, em terras distantes...

Naquele sábado o céu está diferente, o ar tem outro sabor e a noite chega muito estranha e assustadora. As estrelas que o soldado vê, sem imaginar, pela última vez, ouvem a sua prece. A vontade de rezar, hoje, é maior. De repente, uma explosão clareia o céu... Gritos, cheiro de pólvora e sangue se misturam. Lamentos, pedidos de ajuda, choro e a busca, desesperada pela mão da mãe...

Miguel sente seu corpo cravejado de estilhaços, já não consegue mover, senão os olhos. Seus companheiros gemem, choram de dor, mas cada vez mais distantes, até silenciarem. Faz uma última oração, com toda a força que ainda lhe resta. Sabe que a estrela que o contempla lá de cima, encontrará a sua mãe, daqui há cinco horas, olhando para o céu e pedindo proteção e suplicando clemência. Já não será mais um filho a rezar na Itália, será apenas mais um soldado que jaz, sem vida, entre tantos que tiveram seus sonhos abreviados pela ganância de outros seres humanos, que seriam os seus semelhantes.

Os correspondentes de guerra, Rubem Braga e Joel Silveira tentam relatar passagens heroicas e histórias de bravura dos nossos expedicionários, mas nada das suas narrativas fazem mais sentido. Para uma mãe cujo filho não consegue voltar da guerra, nenhuma manchete, nenhum título é grande o suficiente para justificar as cenas que desfilam na sua imaginação. O seu filho estava reservado, como personagem de outras histórias, onde uma família se reuniria até os últimos dias de cada um de seus membros e festejariam, unidos, as pequenas conquistas do dia a dia.

Jornais não sabem transcrever o que as mães sonharam para os seus filhos, guerreiros de grandes batalhas e finais felizes. Nenhuma mãe busca por notícias com números frios, nem listas de nomes de meninos que já não voltarão mais para suas antigas vidas.

Não se sabe ao certo quantos alemães morreram na tomada de Monte Castelo, nem o número de mães que chegaram a sonhar que os inimigos chegassem a confraternizar, depondo armas e optando pela vida, afinal aquela terra nunca fez parte de seus sonhos, tampouco de suas vidas.
Setenta dias depois da tomada do Monte Castelo, os expedicionários brasileiros sobreviventes puderam, finalmente, comemorar o fim da guerra. No dia 2 de maio de 1945, as tropas alemãs que combatiam na Itália anunciaram sua rendição.

E uma mãe solitária, vasculhou página por página de todos os jornais a que teve acesso e, ao final, se obriga a acreditar que Miguel, nunca foi nome de filho, nem de soldado. Sempre foi nome de anjo, um Arcanjo na verdade, e por isto ficou lá, junto às estrelas de um céu escuro e tristonho, num monte frio e distante.

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Inspiração

Pesquisando sobre a participação da Força Expedicionária Brasileira na Tomada do Monte Castelo, tentei imaginar o olhar de uma mãe, que vive e busca informações sobre a guerra e sobre seu filho soldado.

Sobre a obra

Nos meus contos procuro sempre trazer dados históricos reais e a partir deles criar uma história de ficção.

Sobre o autor

Sou aposentado da Caixa e sempre gostei de escrever e contar histórias. Sou autor do livro bilíngue "Nos Caminhos de Santo Cristo - Auf Spuren in Santo Cristo" e coautor dos livros "Água Elemento Essencial da vida", "Nos Caminhos da Imprensa Riograndense e Brasileira", "A grande enchente de 2024", "A liberdade da palavra" e "Leituras à Beira-mar".

Autor(a): ELOI WILGES (Eloi Wilges )

APCEF/RS