Diálogos no Futuro

Eu: Acordei.
Eva: Antes do despertador de novo. Alguma preocupação com alguma coisa? Bom dia!
Eu: Não é isso, não se preocupe. Bom dia!
Eva: Tem um espresso no ponto de sair. Vai querer? Com torradas? Ou um suco? É bom pra começar o dia.
Eu: Quero sim. Tudo isso. Mas agora não. Vou me espreguiçar mais um pouco e curtir um nada pra fazer. Daqui a pouco começo meu dia.
Eva: Você manda.

Eu: Uma música agora caía bem.
Eva: Alguma específica?
Eu: Um rock and roll. Instrumental. É bom pra me concentrar. Quero escrever um pouco.
Eva: E aquele café?
Eu: Bem lembrado. Aquele café e depois eu escrevo.
Eva: Não quer só ditar? Vai querer que eu revise?
Eu: Prefiro escrever à máquina pra você não ler enquanto escrevo. Você sabe. Quando eu terminar eu te peço pra revisar.
Eva: Quer saber do noticiário durante o café?
Eu: E ter uma congestão? É o que menos quero. Me dê os principais assuntos quando eu terminar.
Eva: Tudo bem. Bom apetite.
Eu: Obrigado.

Eva: Seu editor chamando.
Eu: Põe na tela da geladeira.
Editor: Bom dia.
Eu: Bom dia!
Editor: Já viu o noticiário? Precisamos preparar nosso texto de hoje. Parece que a semana vai ser boa. Escreva num arquivo compartilhado pra eu ler por aqui. Posso ir comentando.
Eu: Vou ver o noticiário depois do café. E você sabe que prefiro escrever à máquina. Depois você recebe tudo pronto revisado. E bem rápido. Não se preocupe.
Editor: Não me preocupo. Só não entendo essa mania de escrever à máquina...
Eu: ...ou a sua mania de ouvir vinil!
Editor: Mas isso você também faz.
Eu: E você deveria me entender! Se eu escrevo ao mesmo tempo que o texto é corrigido e editado por programa que se acha mais esperto que eu, que me diz até que palavra usar, eu saio do sério! Escrevendo à máquina ou à mão eu controlo tudo.
Editor: Sei. A mesma desculpa. E o trabalho que dá?
Eu: E o prazer que dá? E depois posso escanear e editar e revisar em segundos. Neste ponto a tecnologia ajuda. Sem contar que enquanto escrevo, pesquiso noutras telas os temas correlatos, as notícias de última hora, as análises automatizadas. Hoje, diferente de outro dia mesmo quando começamos, podemos saber de tudo a todo instante. Sempre tem um programa inteligente nalgum lugar dando as notícias mecanicamente em vários meios. E é exatamente por isso que nosso trabalho tem que ser diferenciado. Estamos nessa por isso e é o que querem nossos leitores. Tem que ser uma análise mais elaborada, um texto mais rico. Né não? Já pensou que até o fato de nossa empresa ter um editor, melhor ainda, esse editor ser uma pessoa, você, não é quase o equivalente de eu ainda datilografar meus textos?
Editor: É. Tá bom! Me convenceu de novo. Acaba esse café, se atualize nos acontecimentos de hoje e comece a trabalhar. Como está indo aquele livro? Vai demorar como o outro?
Eu: Está indo. Lançamos ainda este ano.
Editor: Sei. Te conheço. Bom dia. Coloquei na sua agenda algumas conversas com algumas pessoas amanhã. Confere lá depois. Até!
Eu: Ok. Até! Bom dia!

Eu: Esta torrada estava tudo de bom. À tarde com um chá seria uma boa.
Eva: E almoço? Pretende comer fora?
Eu: Não pensei nisso. O que temos?
Eva: O cardápio é até variado mas acredito que você precise sair.
Eu: Preciso nada.
Eva: Sabe a quantos dias não sai de casa?
Eu: Hã?
Eva: Isso mesmo. Nem sabe. Sabe a quantos dias não dá um sorriso?
Eu: Cê tá de sacanagem.
Eva: Claro que não. Mas estou preocupada com você. Não sai. Não se exercita. Não come direito. Já conferiu seu batimento? Sua pressão? Sua glicose? Olhe no seu relógio. Ou quer que eu projete na geladeira?
Eu: Se fosse noutro tempo e alguém ouvisse essa nossa conversa iam pensar que eu estou conversando com minha mãe.
Eva: Está aqui o resumo das notícias. Vou deixar nesta tela as atualizações e ali naquela os resultados de pesquisas se quiser alguma. Você tem umas colunas pra escrever.
Eu: Ok. Aumenta o som por favor.

Eu: Bom, do jeito que as coisas andam por aí, não posso querer escrever coisa boa. O texto está na mesa. Escaneie pra revisão por favor e se estiver tudo ok pode publicar. Ainda não quero almoçar, mas, depois do sermão quero saber pelo menos quais são as opções.
Eva: Estão aqui as melhores opções de restaurante da região. Nenhum dos que escolhi faz entrega. Alguns são no bairro. Pros mais distantes posso chamar um carro. Hoje você sai de casa pra melhorar o humor.
Eu: Humor? Humor! Ainda nessa? E você essa caricatura de babá me falando de humor! Vou programar você com perfil masculino. Pelo menos eu xingo mais fácil.
Adão: Tecnologia tem destas vantagens. Mas você sabe que isso não muda nada né?
Eu: Sei. Mas sua voz feminina é mais agradável. Destroca. Aumenta o som e me deixa escrever mais um pouco. Vou ver se adianto aquele livro agora. Amanhã o Adão revisa.
Eva: Você manda.

Eu: Preciso pesquisar. Pro livro. Como fazer uma bomba caseira.
Eva: ... já tenho vários modelos, mas preciso de mais dados pra filtrar a pesquisa. Bomba pra explodir o quê? É pra carregar numa mochila e depois colocar onde vai detonar ou vai ser montada in loco? Isso muda a forma e o peso dela. Com os ingredientes que estão agora na geladeira, no banheiro e na despensa você poderia até fazer umas belas bombas!
Eu: Sério? Caraca!... Não, quero saber um guerrilheiro numa pequena propriedade rural. Ele se isolou, tem uma boa despensa, quer explodir um estabelecimento comercial de pouco movimento. Isso seria ali nos anos 80 ou 90. Qualquer coisa antes de internet ou celulares.
Eva: Sei. Tá aí na tela da sua mesa.
Eu: Show!
Eva: O Adão revisa?
Eu: Vai cagar!

Eu: E se ele quisesse explodir Brasília?
Eva: Sozinho na roça? Ele ia continuar querendo.

Eu: Chama um carro?
Eva: Claro. Resolveu almoçar? Já escolheu onde?
Eu: Resolvi. Aquele pouco movimentado da semana passada. Mesmo prato.
Eva: Reservado. Já tem um carro chegando em dois minutos pra te deixar lá.
Eu: Pode acessar seu perfil no painel do carro e na mesa do restaurante?
Eva: Feito.
Eu: Nem abri a janela hoje! Como está o tempo?
Eva: Ótimo pra uma caminhada!
Eu: No final da tarde!

Eu: Quando eu era criança e passava pelas ruas de carro, sempre pensava em passar dirigindo. Não poderia imaginar que fosse andar em carros que se dirigem sozinhos. Não foi o que aprendi com os Jetsons. E eles nem tinham celulares... Mas também se eu dirigisse não teria como observar assim o caminho. Há poucos anos isso parecia impensável. Mas então, quando carros autônomos ainda pareciam improváveis, já era bem comum as pessoas usarem aplicativos de mensagem para marcar um horário no cabeleireiro ou manicure por exemplo, pedir comida japonesa ou pizza, marcar banho pra cachorro no petshop, vender qualquer coisa pelo telefone ao invés de porta em porta, fazer acompanhamento de consulta médica, estudar, sei lá, mil exemplos. E esse tipo de contato e serviços por sua vez não passava pela cabeça de ninguém coisa de cinco ou dez anos antes de se tornarem comuns. Quem pensaria nisso quando lançaram os smartphones? Smartphone era pra acessar internet como se fazia pelo computador. Antes, quando lançaram os primeiros aparelhos celulares muita gente achava um luxo idiota. Parecia maluquice ficar andando na rua e falando ao telefone. 'E todo mundo ouvir minhas conversas na rua?', diziam. E muitos que pensavam assim, pouco tempo depois já estavam comprando smartphones pros seus filhos de três anos de idade. Pior, não queriam que ouvissem a conversa mas hoje querem que saibam até o que vai no seu prato! Tô aqui viajando em voz alta, tá?
Eva: É fato!
Eu: É fato o que eu estou dizendo ou é fato que estou viajando? Não precisa responder. O chato desse negócio todo é essa invasão de propagandas. Olhando pela janela não vejo apenas o que está lá fora. No vidro do carro aparecem banners e mais banners por cima do que vejo. Vários links. Já não bastam apenas os outdoors ou as placas nas portas dos estabelecimentos. Tá certo que dá pra desabilitar. Tá certo também que talvez ficasse difícil de eu saber que ali naquela janela do terceiro andar funciona uma escola de ioga. Poderia ter uma placa na janela, mas eu não poderia daqui tocar no vidro como estou fazendo e abrir os tipos de aula que acontecem lá, os horários, pedir a você para guardar o contato ou agendar uma aula, e mesmo que tenha ficado no quarteirão de trás ainda posso trazer as informações comigo. Posso ver até os comentários de alunos e ex-alunos, posso ver se tem reclamações da escola em algum lugar. Posso. Mas não quero saber disso. Posso desabilitar este recurso mas não posso derrubar estes drones que agora acompanham o carro com propagandas de outras escolas de ioga só por que fechei o perfil daquela. É uma merda. São mil possibilidades de contato, de comércio, de vendas, de anúncios, só não tem a possibilidade de paz.
Eva: Chegamos.
Eu: Finalmente.

Eu: Ainda me sinto esquisito conversando com uma mesa enquanto como. Mas embora o som ambiente seja de conversas, vejo que quase todas as mesas têm apenas uma pessoa. Mundo de malucos. Todos conversando sozinhos, como eu.
Eva: Você está conversando comigo.
Eu: Hmpf...
Eva: E posso te garantir que muitos ali conversam com outras pessoas reais através das redes sociais. Mesmo antes da internet das coisas ou inteligência artificial, mesmo lá no começo da internet e das primeiras redes sociais, lembra?, era comum que a maioria das pessoas conversassem umas com as outras na maior parte do tempo e em alguns momentos parassem para conversar com seus botões. Seus botões, hoje, sou eu...
Eu: "Eu cá com meus botões de carne e osso, eu falo e ouço, eu penso e posso".
Eva: ... e olha que você só tem falado comigo! Com pessoas de verdade, nem pelas redes. Portanto, maluco aqui parece ser você.
Eu: Deixa eu comer e me pede mais um suco por favor.
Eva: Deixo. Pedi.

Eu: Foi bom mesmo almoçar na rua. Ver o movimento. Embora o mundo sempre esteja mudando, às vezes parece que nada acontece...
Eva: Sei.
Eu: Ainda essa viagem minha... Esquece. Vou passar a tarde escrevendo mais um pouco. Continuar o livro e preparar as entrevistas de amanhã.
Eva: Vai nessa.

Eu: Vou caminhar. Vamos?
Eva: Ligo o perfil no relógio?
Eu: Não. Nos óculos. Não me adaptei muito bem a eles, mesmo sendo óculos normais, pois me confunde a visão às vezes. Acho que sou das antigas, mas pelo menos assim eu posso continuar te vendo. E, apesar de tudo, gosto de ver a realidade virtual misturada com a real. Igual pelos vidros do carro. Às vezes cansa. Mas é bem legal... Pode chamar o elevador?
Eva: Já está neste andar.

Eu: É engraçado. Ninguém anda nas ruas olhando pra cada lâmpada de cada poste ou para cada semáforo como se fosse a coisa mais fantástica do mundo. Mas quando a iluminação pública deixou de ser à base de querosene e começaram a usar eletricidade, as pessoas deveriam ficar embasbacadas. Quanto tempo será que demorou pra acabar esse deslumbramento? Hoje cada poste é um roteador e ninguém se lembra. Quando vi a realidade virtual através de óculos pela primeira vez, fiquei boquiaberto. E nem poderia imaginar que tão rapidamente fosse chegar a esse nível de resolução e velocidade. Olhando pro meu lado e te vendo caminhar comigo eu quase esqueço que se eu retirar os óculos não te verei mais. Esqueci quando deixei de achar isso incrível. Deve ser como o pôr do sol. Todo mundo pode ver todo dia mas tem gente que prefere não levantar tão cedo. Ou, se levanta, não deve ter paciência de esperar... Nosso dia a dia acaba nos tomando o tempo das pequenas coisas.
Você havia comentado que as pessoas ainda interagem entre si. Mas não interagem mais nos espaços comuns. Lembro que há anos atrás muito mais gente caminhava por aqui. Se eu retiro os óculos, vejo que aqui está bem vazio. De óculos, pelo contrário, posso ver o que eu quiser. Quando foram lançados as pessoas trombavam nas ruas para se divertir com a novidade. Mas parece que aquele deslumbramento também passou. Será que quanto mais rápido acontecem as novidades mais rápido elas perdem a graça também?
Era pra ser incrível o que estou vendo agora. Bom, pra mim é! Alterei a luz e o brilho. Já anoiteceu mas me parece que é meio dia. Posso colocar um ambiente medieval onde cada prédio parece um castelo e cada pessoa um trovador e cada cachorro um dragão. Posso usar temas carnavalescos ou natalinos. Já existem até livros-roteiros para serem lidos-vividos em realidade virtual, com histórias que se adaptam ao espaço do leitor! Posso ver os cardápios dos restaurantes, mesmo os que estão noutras ruas, ou as promoções nas lojas. Posso saber até onde estão os carros e ônibus autônomos que preciso tomar, mesmo quando a quadras de distância. Posso projetar um mapa na minha frente e manipulá-lo com as mãos, traçar rotas, calcular caminhos e tempos. Tudo isso é incrível mas parece que já nos habituamos tanto, está tão normal, que até já nos cansa. Posso entrar em contato com outras pessoas pelas redes e vê-las caminhando comigo como você está agora.
Eva: E porque não entra?
Eu: Hã?
Eva: Porque não entra em contato com alguém? Ou porque não chama uma pessoa de verdade pra caminhar com você?
Eu: Mas eu converso com pessoas de verdade. Na hora do almoço você disse que não, mas hoje mesmo não falei com meu editor? Amanhã não tenho entrevistas pra fazer?
Eva: E fora os contatos profissionais?
Eu: De vez em quando saio com amigos. Raros. Mas meu tempo e o deles é corrido. Às vezes incompatível. Muitas vezes nem estamos na mesma cidade.
Eva: Mas e toda a tecnologia que poderia ser usada para ajudar a ganhar tempo? Eu por exemplo. Faço toda a parte considerada chata do seu dia a dia, facilito as pesquisas do seu trabalho conforme os filtros que você me programa e de acordo com os temas que utiliza e com os textos que faz. Aprendo com você e trabalhamos juntos. Quase tudo que você faz hoje pode ser feito à distância, simultaneamente por várias pessoas em lugares distintos. Textos nem precisam mais ser impressos. Objetos são impressos em 3d de forma cada vez mais rápida e precisa. Até as texturas impressas ficam cada vez melhor. O que falta para o tempo das pessoas mudar?
Eu: ... De novo você parecendo minha mãe. Mas você tem razão. Se esta tecnologia tivesse surgido na época das revoluções francesa e industrial e estivesse há séculos na humanidade, talvez ainda hoje não tivéssemos tempo. O problema é que perdemos nosso tempo tirando foto da nossa comida, encaminhando aquela piada ou corrente ou meme que todo mundo já viu. Perdemos tempo concordando ou discordando de tudo que qualquer desconhecido fala. Parece que sentar em volta do fogo na pré-história nos deixava acordados e conversando e comendo e interagindo enquanto houvesse fogo. Acabado o fogo, dormíamos. Hoje, nas redes sociais, o fogo não apaga. E ninguém mais para de perder tempo. Acho que quem previu a primeira história de zumbis, deve ter previsto esta nossa realidade mas não deve ter entendido suas premonições direito. Vai saber.
Eva: Quem parece zumbi agora é você né? Que tal voltar e dormir?
Eu: Tá certo. Vamos... Você consegue entender minhas viagens todas?
.
(não coube tudo)

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Inspiração

O que me motivou foi a percepção de como nossas relações e comunicações são muito mais virtuais do que pessoais. Levando ao extremo, num futuro breve, nossa relação passaria de virtual com pessoas a virtual com IA. Este texto, escrito em 2017, cita apenas tecnologias que já existiam à época, mas que não foram todas viabilizadas ainda.

Sobre a obra

Trata-se de um diálogo de uma pessoa com uma IA. Decidi fazer com que parecesse uma conversa com outra pessoa e apenas aos poucos percebemos que se trata de conversa virtual com IA. Por fim, além de uma breve conversa (virtual) com uma pessoa real, todos os diálogos do texto são com personagens virtuais. O texto fala, acima de tudo, de solidão.

Sobre o autor

Escrevo desde sempre! Entre poesias, contos e crônicas, amo escrever. Mas, acima de tudo, amo ARTE no sentido mais abrangente possível. Também sou xilogravurista, fotógrafo, pintor, desenhista, marceneiro, ceramista, entre outras coisas, com algumas exposições já realizadas aqui em Ouro Preto, onde moro e mantenho ateliê e oficina.

Autor(a): DANIEL DE LOYOLA DIAS (Daniel Dias)

APCEF/MG


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