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RABISCO DA ALMA
Não sou escritora. Antes de tudo, rabisco. Rabisco porque há coisas presas demais dentro de mim e a escrita é o jeito que encontrei de abrir frestas. Sentimentos ganham nome quando escrevo; algumas angústias, ao menos, ficam mais leves. Desde criança carrego esse ardor inquieto de pôr pra fora o que sinto — às vezes em palavras, às vezes em traços, às vezes em notas desafinadas. Tudo amador. Tudo urgente.
Talvez seja isso: eu amo a dor. Quando dói, dói porque há amor ali. E é na dor que, paradoxalmente, também reconheço o amor.
Carrego uma melancolia antiga, dessas que não fazem alarde, mas ocupam espaço. Não sou de falar muito. Já ouvi julgamentos que me quebraram em mil pedaços e, dependendo de quem julga, sinto tudo com uma intensidade quase desumana. Não é fácil ser assim. Queria não ser. Queria sentir menos, ou sentir só o que fosse suportável.
Às vezes desejo escrever apenas pela inteligência que me cabe, cantar afinada, desenhar obras belas e seguras. Mas não é assim que acontece. É no pico da dor que os versos vêm sem pedir licença, como quem escreve para não sucumbir, canta para conseguir chorar, desenha para dar forma ao que não sabe nomear. Não é escolha. É sobrevivência.
Minha melancolia não é constante. Há longos períodos em que ela se ausenta e eu viro euforia: riso fácil, presença luminosa, entusiasmo que contagia. “Que pessoa animada”, dizem. Todos gostam dessa versão — eu também. Nela me sinto leve, inteira, forte.
O problema é que não escolho quando ela vem ou quando vai. Não escolho os dias bons nem os dias difíceis. Não é falta de controle; é sentimento. Quando a euforia passa, volto a ser insegura, receosa do olhar alheio, fechando-me em mil camadas para não ser acessível — nem para mim mesma. Não sou sempre gentil comigo, mas sigo sendo o que sou: alguém que sente demais e, por isso mesmo, precisa transformar sentir em alguma coisa.
Nem que seja em rabisco.
Inspiração
A inspiração para “Rabisco da Alma” nasceu da necessidade de compreender a mim mesma. Escrevi a partir da experiência de conviver com emoções intensas, da busca por transformar sentimentos em linguagem e de reconhecer a escrita como um espaço de acolhimento, não de perfeição. Este texto é um convite para refletir sobre a vulnerabilidade humana e so
Sobre a obra
“Rabisco da Alma” é uma prosa poética autobiográfica, escrita em primeira pessoa. Utilizei linguagem sensível, metáforas e contrastes para transformar emoções em narrativa. A obra nasceu de um desabafo e foi revisada para preservar sua autenticidade, buscando criar identificação com quem também encontra na arte uma forma de existir.
Sobre o autor
Sou apaixonada pelas artes e pelas diferentes formas de expressão. Escrevo, desenho e canto de forma intuitiva, transformando emoções e vivências em criação. Meu talento nasce da sensibilidade com que observo o mundo e da necessidade de dar voz, por meio da arte, ao que muitas vezes não cabe nas palavras do cotidiano.
Autor(a): EMILIA DA SILVA COUTO (Emília Couto)
APCEF/AM