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O enterro de Tio Almir
O enterro de Tio Almir
No enterro de Tio Almir eu estava rindo. Isso mesmo, eu sorria a cada momento que me lembrava dele e não conseguia nem mesmo chorar ou sentir algum tipo de tristeza. Toda a convivência que tive com ele foi sempre de alegria. Isso não acontecia apenas comigo, os seus próprios filhos lembravam dos seus momentos alegres.
? Vocês não imaginam que papai no hospital, com seus 93 anos de idade, ainda passava a mão na bunda das enfermeiras – comentava Ruizinho, um dos seus filhos.
? E a prótese – comentava Almirzinho, o seu outro filho.
? Que prótese? - perguntou alguém.
? Vocês não sabem?
Ninguém sabia de nada. Talvez a prótese fosse mais uma das surpresas de Tio Almir.
? Pois bem. O médico precisava fazer um procedimento cirúrgico para facilitar a saída da sua urina e descobriu que ele tinha uma prótese. Então o doutor perguntou se papai autorizava que a prótese fosse ser retirada. O problema é que papai ficou danado da vida quando o médico fez essa pergunta. Vejam vocês, ele, com 93 anos, deitado numa cama de hospital, vivendo os seus últimos momentos, ainda pensava em fazer sexo.
Todos riram. Tio Almir sempre nos surpreendia com alguma tirada engraçada. Talvez fosse aquela a sua última graça, aquela que seria comentada no seu velório e quem sabe em inúmeras histórias que seriam contadas pelos seus parentes e amigos. Almirzinho teve que autorizar o médico a tirar a tal prótese para que ele continuasse na sua missão de tentar salvar Tio Almir. Mesmo assim, coberto de razões na sua decisão, tanto o médico quanto seu filho ainda foram esculhambados por Tio Almir, que não se conformava em ser privado do seu valioso troféu. Aquele que defendia, nos momentos mais difíceis, a sua masculinidade intocada.
Lá no velório, entre várias lembranças engraçadas, eu comecei também a fazer um resumo da minha vida junto com Tio Almir. A primeira lembrança que veio foi uma advertência de Sandrinha, minha esposa, antes de apresentar-me ao tio.
? Cuidado! Tio Almir é maluco. Não ligue para o que ele falar.
A apresentação foi na Gruta de Capri, tradicional restaurante de Niterói, onde ele, meu sogro e minha sogra, gastavam inúmeras horas tomando dezenas de chopes. Tio Almir era um amigo de infância do meu sogro, desde a época em que ambos serviram ao exército, e desde então viraram quase que irmãos. Como ele tinha ficado viúvo ainda muito novo, tendo que criar os três filhos, sozinho, isso fez com que a amizade entre os três fosse ainda mais forte. Tio Almir depois casou outras vezes e teve mais dois filhos, mas isso não faz parte das lembranças engraçadas que povoavam o velório naquele momento.
? Meu filho, saia fora. Ninguém nessa família presta. A começar por Ivanzinho. Esse é o pior de todos.
Essa foi a primeira frase que ouvi de Tio Almir e que nunca mais esqueci. Até os garçons começavam a rir e eu sem saber onde esconder a minha vergonha apenas ria.
Alguns meses depois fui convidado para irmos todos fazer uma visita a uma irmã de Tio Almir que morava em Belo Horizonte. Uma caravana de carros saiu de Niterói e todos ficaram hospedados na confortável casa dessa irmã. Homens num quarto e mulheres no outro. Chegamos numa 6ª feira à noite e voltamos no domingo. Já no primeiro dia fomos todos para um bar tomar umas cervejas, como seria de praxe, já que do grupo faziam parte Tio Almir, Seu Ivan, meu sogro e Dona Cléa, minha sogra. A trinca que fazia sucesso na Gruta de Capri tomando dezenas de chopes. Tio Almir, no bar cheio, resolveu contar uma piada de um sujeito que não tinha as duas mãos e vai ao banheiro urinar, e, neste caso, precisa de uma ajuda para abrir as suas braguilhas e tudo mais. O engraçado é que Tio Almir não se sujeitou a simplesmente contar a piada, ele subiu em cima da mesa e começou a contar a piada falando muito alto, de modo que todos no restaurante podiam ouvi-lo, e, naturalmente, rir. Alguns pensaram que era uma espécie de desempenho de algum artista contratado pela direção do bar.
Quando eu e Sandrinha nos casamos, numa cerimônia simples numa 6a. feira de manhã, na Capela do Instituto Abel em Niterói, a noiva já estava chegando no altar, quando descobrimos perplexos que o padre não estava presente. Estávamos todos tão preocupados com o casamento que esquecemos de conferir a presença do padre. Foi um corre-corre danado para saber onde o padre estava. Na verdade, ele tinha se esquecido da data ou quem sabe pensado que o casamento seria no sábado. Naqueles intermináveis minutos, com a capela lotada de parentes e amigos, enquanto parentes se movimentavam atrás de um padre para oficializar a cerimônia, Tio Almir subiu ao altar e fez o papel de padre. Aquele seu ato acabou descontraindo o ambiente e provocou muitas risadas naquele momento em que todos nós estávamos nervosos.
Outra lembrança marcante de Tio Almir foi numa passagem de ano quando estávamos todos num hotel no Clube dos 500, em Guratinguetá, um pouco antes da meia noite, com o restaurante cheio, ele desapareceu. Alguém disse que tinha o visto entrar no banheiro, mas ninguém sabia ao certo se essa informação era verdadeira. Poucos minutos depois, aparece Tio Almir todo enrolado de papel higiênico dizendo que ele era a imagem do ano novo. O pessoal no restaurante caiu na gargalhada. Alguns até pensaram que era uma programação do hotel para divertir os seus hóspedes. E vestido desta forma inusitada, Tio Almir abençoou a todos os presentes pela virada do ano.
Tudo isso me passava pela cabeça naquele alegre velório. Outro comportamento que fazia a alegria das crianças da família, e todos os meus filhos e sobrinhos se lembram disso, eram as festas de aniversário. Quando o meu sogro fez 70 anos, a minha sogra preparou uma festa para os amigos e, claro, contratou um belo bolo de aniversário. No momento mais importante da festa, quando estavam todos reunidos em volta da mesa para cantar os parabéns, Tio Almir enfiou a sua cara no bolo. Depois pegava pedaços de bolo e passava pelo seu rosto já lambuzado. Enquanto minha sogra dava ataques histéricos, as crianças rolavam no chão de tanto rir. Essa mania de enfiar a cara nos bolos de aniversário acabou virando a sua marca registrada. Todo aniversário Tio Almir tinha que ser seguro para não estragar o bolo.
? Em algumas festas as pessoas já faziam um bolo para ele enfiar a cara e fazer as suas palhaçadas, e preservavam o bolo verdadeiro para o momento adequado – comentou Rebel, outro de seus inúmeros sobrinhos emprestados, com um sorriso nos lábios, naquele velório de felizes lembranças.
Uma vez, eu e Sandrinha fomos ao Cinema Icaraí ver um filme. Na saída, lá pela meia-noite, resolvemos dar uma passada na Gruta de Capri, para comer alguma coisa, pois sabíamos que ali estaria Tio Almir, com meu sogro e a minha sogra. Quando chegamos lá, vimos inúmeras pilhas de bolachas de chopes. Naquela época, de muita confiança, os garçons, cada vez que traziam um chope, deixavam uma bolacha na mesa. Para quem não sabe eram círculos de papel, muitos com propagandas das cervejarias, que serviam como descanso para os copos. Ao encerrar a conta o garçom contava o número de bolachas. Os três amigos gostavam também de se exibir. A mesa naquele dia estava cheia de bolachas. Eu e Sandrinha resolvemos contar e chegamos ao número de 51 bolachas, ou seja, cada um deles tinha tomado dezessete chopes. Eu e Sandrinha tomamos dois chopes, comemos uma pizza, e fomos embora, mas ficamos sem saber quantos chopes cada um deles tinha tomado naquele dia. Tio Almir possuía um daqueles carrões americanos hidramáticos, e quando saiam da Gruta ainda iam para casa de carro.
Advogado famoso gostava de usar garbosos ternos, Tio Almir para muitos mostrava uma imagem diferente daquela que conhecíamos na nossa intimidade familiar. Mas naquele velório, não era o profissional exemplar que nos vinha à lembrança, mas sim o outro, aquele que nos trazia sempre recordações engraçadas e muitas vezes inusitadas. Tio Almir até mesmo no dia da sua morte nos fazia rir.
Inspiração
Eu tomei como inspiração o contato que tive por muitos anos com Tio Almir até a sua morte
Sobre a obra
Eu retrato os momentos felizes que tive com Tio Almir.
Sobre o autor
Eu sou aposentado da caixa conde trabalhei na área de intermete e desenvolvimento de software.
Autor(a): EMERSON RIOS (O enterro de Tio Almir)
APCEF/RJ
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