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Ad arternum
AD AETERNUM
Respira mais um dia, e o fôlego de vida enche a manhã.
A silenciosa escuridão da noite se deita no horizonte desta luz.
O grilo de Manoel que rasgava a noite faz cessar seus clamores e hábitos notívagos.
Os pássaros cujo arauto anunciavam a bem-vinda claridade, iniciam sua rotina diurna de viver.
Enquanto nossa estrela desponta no Leste, a sombra da relva faz seu movimento previsível de dança, e como o ponteiro de um relógio caminha linearmente pelo chão.
Nossos olhos se abrem para ao mundo, o nosso mundo. Enquanto mecanicamente seguimos o ritual de higiene pessoal, nossa mente recém despertada, começa e ser cheia como um copo debaixo da torneira da existência.
A água dos deveres, objetivos e sonhos ocupam cada espaço deste nobre recipiente.
A rotina qual viseira de equinos, impede que nossos olhos e atenção mirem ao alto e ao redor, nas pequenas grandes coisas cuja beleza nos aliviaria da visão cinza do chão que trilhamos.
Nosso luzeiro passa sobre nossas cabeças, mas nossa sombra possui o padrão aleatório das lâmpadas de onde passamos o dia e boa parte de nossa vida encarcerados.
A luz e a vida real nos cercam, mas vivemos no artificial, flutuando na canoa da superficialidade.
O cinza e o preto são nossas cores principais, seja nos olhos, nos sentimentos e na alma.
O ocaso chega, e com ele retornam os grilos e cigarras, donos incontestáveis da noite, e ao mesmo tempo cessa calmamente o gorjeio dos agitados pássaros. Seu turno terminou, assim como o nosso.
Assim como os pássaros, fazemos da escuridão nossa cama.
Retornamos ao abrigo que chamamos de Lar, exaustos pelo tom cinza de mais um dia em preto e branco.
Na beleza do que se vê e do que não se vê, continuamos a enxergar apenas o chão, nem ao mesmo alçando os olhos à beleza retumbantemente silenciosa dos astros noturnos.
A vida nos inspira em sua beleza, seus pequenos universos naturais, e ainda assim deitamos a cabeça no travesseiro solitário, onde descansam as tarefas de um amanhã repetitivo a maçante. Somos maçantes!
Fechamos os olhos a descansar o corpo exaurido, mas nosso pensamento não sabe apreciar o belo, não descansando em uma paz merecida e disponível.
O que nos mata, enfim, são os planos futuros, preocupações vazias e a incapacidade de absorver a beleza da simplicidade. No vagão da rotina, subimos neste trem da vida, cujo fim da linha é apenas outro começo, um bom começo se eu conhecer O Caminho.
Mas enfim...
Respira mais um dia...
Inspiração
Em uma de minhas constantes meditações existenciais.
Sobre a obra
Procurei extrair o cotidiano em.uma crônica com pegada poética, sem adotar o humor, mas um tom reflexivo.
Sobre o autor
Sou amante das artes em geral e atuo em várias áreas, estudando e desenvolvendo sempre.
Autor(a): PAULO SERGIO SOUZA AZEVEDO (Paulo Azzevedo)
APCEF/MS