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TEMPOS DE MENINA
Tempos de Menina
Era para ser Giovana, mas só o Ana acabou ficando. Uma menina que fazia de uma toalha os seus cabelos longos, pois nem isso ela tinha escolha.
Ana, pele clara, olhos azuis, dócil, introspectiva, sonhadora.
Criada para ser esposa, mãe, sem vaidades, sem esperanças, sem voz, mas nos seus pensamentos, ninguém mandava, não tinha limites, uma verdadeira ativista em prol dos seus sonhos.
Na casa em frente, crescia Clara, um ano mais nova do que Ana, mas tão sonhadora quanto. Loira, olhos verdes, meiga, cabelos médios com cachos dourados, não se conformava em ser somente a filha caçula, queria mais.
O destino se encarregou de apresentá-las, ainda crianças. Se encantaram, viram uma na outra o que não possuíam e entre uma brincadeira e outra, sonhavam.
Os pais de Ana eram muito exigentes com relação aos estudos, já os pais de Clara não admitiam que ela não frequentasse a Igreja. Ana, em meio aos seus devaneios, com o seu vestido verde bandeira, se achava uma princesa. Apesar de seu pai, muitas vezes, lhe dizer que não era. Clara se perdia em frente ao espelho e vaidosa, se arrumava... para ir ao culto. Seu dia a dia era ajudar a mãe e agradá-la. Um dia iria trabalhar fora, ter o seu dinheiro e comprar as coisinhas que tanto lhe faltavam.
Naquele tempo, a única preocupação era chegar em casa antes de escurecer. Brincavam muito, andavam de bicicleta por todo o bairro. Aliás, seus pais, não tinham ideia por onde andavam. Outros tempos.
Cresceram juntas, como duas irmãs. Dividiram choros, conquistas, alegrias e gargalhadas. Aprontaram, o que podiam aprontar nos anos 80. Nem drogas, nem bebidas, muito menos sexo. Eram inocentes. Divertiam-se driblando namorados. Estavam em busca do príncipe encantado, e aqueles que as rodeavam não chegavam nem perto dos seus sonhos de princesa.
Nos tempos de juventude, 15 ou 16 anos, Clara já tinha um rapaz que lhe cortejava e para sua tristeza: com a anuência de seus pais. Ela não podia nem o ver na frente e se esquivava quando podia. Certa vez, num domingo 07 de setembro, Ana e Clara decidiram assistir ao desfile no centro da cidade, e de última hora, quando estavam quase saindo, aparece o rapaz na casa de Clara. Ela ficou furiosa e inventou uma desculpa qualquer, iria estudar. Tão logo o rapaz foi embora, seguiram as duas, a pé, até o centro da cidade. E não é que o menino era inteligente! Não acreditou na mentira, e seguiu as duas. E mesmo trocando de rua várias vezes, quando se davam por conta, lá estava ele. Clara decidida, resolveu ignorá-lo e assistiram ao desfile, sempre se movimentando, trocando de lugares. Entre risadas, comentários e apresentações, Clara sentia os olhos do guri lhe queimando. Depois do feito, de volta para casa, teve que escutar um belo sermão de seus pais, pois adivinhem? O guri já estava lá e já tinha feito todo o relato. Esse acontecido, quando lembrado, ainda hoje rende muitas gargalhadas.
Teve outro episódio que também ainda rende muitos risos. Era domingo, à tarde, as duas resolveram ir a uma matinê, tinham vontade de dançar um pouco, espairecer. Chegando lá, Ana logo percebeu um rapaz loiro, alto, simpático que lhe chamou a atenção. Logo comentou com Clara: - Gostei dele, repara! Lindo! É com ele que vou dançar. Dito e feito, o rapaz de imediato encontrou o olhar de Ana. Dançaram a tarde inteira. No final da tarde, hora de ir embora. E agora? O menino queria, porque queria levar as duas para casa. Como explicar que jamais poderiam chegar em casa acompanhadas e de carro? O pai de Ana simplesmente surtaria. Foram conversando até que convenceram o rapaz a deixá-las uma quadra antes. Ufa! Que sufoco!
Ana parecia ser mais quieta, recatada, tímida e na sua juventude, logo cedo se apaixonou, uma paixão só dela. Romântica suspirava pelos cantos, cada olhar do rapaz era uma vitória. E juntas seguiam analisando suas perspectivas. Estudaram, se formaram e a realidade lhes caiu como um peso. O sonho do príncipe foi esquecido ou talvez deixado de lado, ou ainda com a maturidade perceberam que o príncipe não existe, não é um ser perfeito, tem falhas e diferenças. Finalmente aquele rapaz que estava a sua frente se encaixava (um pouco) nos requisitos tão sonhados. Estavam apaixonadas.
Ana logo conseguiu um bom emprego, casou-se, teve um filho e um marido exemplar. Clara precisou ser um pouco mais guerreira até encontrar o seu lugar, casou uns dois anos depois da Ana. Teve uma filha e um marido igualmente bom. Cada qual com seu par, com a sua vida. O casamento não as separou, continuavam trocando confidências, aliviando as tristezas e comemorando alegrias. Dividiam tudo, ficava mais fácil voltar para casa.
O tempo passou e entre um chimarrão e outro as duas olham para trás e se lembram daqueles tempos de menina, com saudades. Os passeios passaram a ser a quatro, cada qual com a sua cria. Felizes seguem explorando novos lugares, caminhos diferentes, tirando muitas fotos, criando memórias. Aos sábados, os encontros são sagrados, e mesmo com as diversidades, seguem juntas, como irmãs, ou talvez muito mais do que isso.
E num piscar de olhos, se foram cinquenta anos, uma amizade para a vida toda. Se conhecem tão bem que, quando trocam olhares, já sabem o que estão pensando.
E quando o olhar vai para o horizonte, perdido... é certo que estão sonhando.
Adriana Sali Szura Biazi
Inspiração
A ideia era homenagear e eternizar uma amizade que surgiu na infância e persiste através dos tempos. É uma história real, não é ficção.
Sobre a obra
O conto é baseado em relato de fatos que resumem uma amizade sincera, sem interesses e que permanece forte, resistindo às intempéries e à passagem dos anos. Dois personagens principais e foco na história. Gosto de fazer o leitor pensar sobre como era, sem explicar todos os detalhes. Gosto de fazer o leitor sentir, suspirar.
Sobre o autor
Eu sou bancária, ainda estou na ativa, são 37 anos de Caixa. Plenamente realizada no meu trabalho. E amante da literatura, leio muito, são em média 04 livros por mês. E acredito que por conta desse hábito tenho uma boa expressão oral e escrita. Tenho um Instagram onde posto as minhas leituras, voltado para o incentivo à leitura. @di.biazi.
Autor(a): ADRIANA SALI SZURA BIAZI (ADRIANA BIAZI)
APCEF/RS