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Tudo passarinho
Título: Tudo passarinho
Nesse dia eu tive muito medo.
Fiquei olhando de longe a tia Anália deitadinha lá, sem se mexer mais. Nesse dia, nada se
mexia, nem os galhos, nem o vento, do mesmo jeitinho da tia Anália.
Passaram-se horas desse jeito. Aquela cachorrona grande perto dela. Eu tinha medo do
que eu poderia ver. Do que podia acontecer. Já tinha escutado muito a vó Cíntia contar
dessas coisas. De cachorro brabo, nervoso, que machucava a gente. Mas nunca tinha
visto. Graças ao Sol, meu deus!
Mas ela não fez nada com a tia Anália. Tava lá, deitadinha bem pertinho, só olhando. Acho
que, como eu, esperando algum movimento. Ou diferente de mim, ela já sabia de coisas
que eu não sabia ainda.
Ouvi quando a mãe dela (que não se parece nada com ela; diferente da minha família que
a gente é tudo bem parecidinho, tudo passarinho) disse: - own Anita, vc tá velando o
passarinho. O bichinho.
E apanhou a tia Anália com carinho nas mãos, como quem colhe fruta madura no pé.
Desde desse dia, que era um dia triste, eu passei a me sentir em casa. Nessa casa.
Pra começar, a mãe da Anita também tinha a mesma mania que a vó Cíntia, ela batizava
suas filhas tudo com A. Feito a vó Cíntia. Que acho que fazia isso porque como ela não
lembrava mais tanto das coisas, quando ela ia chamar por alguém, todos nós já ficávamos
a postos, porque ela começa com: Aaaaaaaa...uzira! A gente não sabia quem ia ser
chamado e acho que ela também não. Acho que ela só aceitava o nome que vinha mesmo.
Dava menos trabalho brigar com a cabeça. E no fim das contas, dava igual, porque a gente
era tudo bem parecidinho, tudo passarinho.
Nessa casa a gente não passa fome. Tem as comidas das cachorras e a dona também faz
uma árvore de pão pra gente. Fica tudo pendurado lá no quintal pra gente poder pegar fácil.
Eu fico olhando aquilo e acho muito bonito. Pão nascendo em galho. Se alguém me
contasse, eu não acreditava.
De vez em quando rola umas brigas por lá, nessa nossa casa, porque tem outros
passarinhos que chegam de mala e cuia. Fazem seus ninhos e ficam por lá se achando os
donos do pedaço.
O que eu acho é que falta liberdade neles. Porque passarinho passarinho, não tem casa.
Passarinho tem o mundo.
O que a gente tem é escolha. A gente escolhe onde pousar. E ficar porque quer é diferente
de ficar porque não tem pra onde ir.
Eu me divirto mesmo é quando a dona leva uns sustos. Eu e minhas irmãs passamos
voando por dentro da casa. O primo Alcides, que é mais desajeitado, vive trombando com
as janelas. Coitado. Ele acha que o céu continua do outro lado do vidro. Mas nessas horas,
o susto da dona me assusta também, porque é cada grito e cada pulo, que eu confesso
que aí eu me borro toda. Claro que ela fica danada, porque suja a mesa ou o balcão dela.
Eu não sei como é nas outras casas, porque fico por aqui desde pequena. Mas espero que
tenha fartura também, como a gente tem. E carinho.
Hoje já não tenho mais medo da Anita. Aprendi que nem sempre quem fica de guarda,
quer atacar. Às vezes tá só protegendo o silêncio de quem já foi.
Aprendi também, que casa, casa mesmo, não é parede, não é teto, não é ninho; casa é
onde ninguém machuca a gente, passarinho. Onde tem pão pendurado no galho e susto
que termina em riso. E é onde a gente escolhe ficar, mesmo podendo voar.
Inspiração
A inspiração surgiu da imagem de um passarinho entrando pela minha casa e, a partir do seu olhar, imaginar o que ele diria sobre aquele espaço, sobre liberdade e pertencimento. A narrativa nasceu desse exercício de deslocar o olhar humano e pensar a casa como lugar de escolha, acolhimento, proteção e afeto.
Sobre a obra
O conto assume a voz de um passarinho para narrar, a partir de um olhar ingênuo e sensível, temas como liberdade, pertencimento, cuidado e morte. Ao deslocar o eu lírico para o animal, a narrativa aproxima o cotidiano do fantástico e permite enxergar a casa, os vínculos e as relações humanas por uma perspectiva simples, afetiva e poética.
Sobre o autor
Escrever tem sido, para mim, uma forma de experimentar vozes, personagens e modos de narrar o mundo. Atualmente, estudo escrita criativa, aprofundando o interesse pela construção de narrativas, pela linguagem e pelas possibilidades da ficção. Busco na literatura um espaço de invenção, escuta e investigação das experiências humanas.
Autor(a): CAMILA GONCALVES DE OLIVEIRA (Camila Oliveira)
APCEF/PB
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