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A mulher que tecia palavras
A mulher que tecia palavras
Quando os primeiros raios de sol tocaram de leve seus cabelos, a moça soube que novos tempos se aproximavam. Passou o café e aqueceu o pão. O vento que soprava pela janela trazia novos ares. Não era o fim do verão, nem o início do inverno que ele trazia, era algo novo.
Depois das louças lavadas, com uma inquietude no peito, sentou-se na varanda com o bastidor e a cesta de linhas nas mãos. Papel nunca tivera, livros, menos ainda bordava suas histórias com linha e agulha, alinhavando com palavras o tecido firmado pelo bastidor. Sua mente fervilhava de histórias, precisava esvaziá-la, deixar que a tessitura da linha se mesclasse às fibras do tecido, permitindo que um novo mundo viesse a ser.
Horas sem fim passava ali, sentada, ao som do riacho que corria em frente à sua morada. Vivia no ponto mais distante da aldeia. De onde estava era possível ver as casinhas, suas tochas quando a noite se aproximava, seus sons quando os festivais aconteciam. Raramente ia até lá, tinha tudo o que precisava ali mesmo, uma pequena horta, um pequeno moinho, algumas galinhas. Seguia a vida assim, sozinha.
À noite, procurava um prego novo, para pendurar mais um bastidor, mais uma história concluída. Já eram tantas, que quase não havia mais paredes. De um lado, uma vozinha dizia para vendê-las na aldeia, de outro, outra vozinha dizia que todos ririam dela, ninguém gostaria de suas histórias. Era melhor mantê-las ali, cobrindo todos os cantos da casa.
E mais uma vez o sol se levantava, o vento recheado de cheiros e sons, a lembrança: algo novo se avizinhava. Inquieta, não conseguiu pegar no bastidor, cuidou da horta e das galinhas. Preparou um novo pão, colheu sementes para um novo bolo. Queria perfumar a casa de cheiros familiares, para que os odores do vento não mais a incomodassem.
Ao abrir a janela, já um novo dia, notou que a aldeia ao longe estava repleta de cores. Havia muitas pessoas reunidas na praça da igreja, fitas e bandeiras tremulavam ao vento. A brisa trazia com ela o perfume das frutas, doces e caramelos. Murmúrios e gargalhadas ondulavam no ar. O circo aparecia por lá.
Uma ansiedade tomou conta da moça como nunca antes. Decidida, pegou sua capa, selou o cavalo e desceu rumo à aldeia. Maravilhada, notou a feira que ganhava forma, os comerciantes deliciados com a música, com as pessoas fora de casa, com tudo que apenas um festival pode trazer. Uma tenda estava sendo montada, muitas mulheres surgiam de todos os lados. De homens, havia apenas aqueles que a moça já conhecia da aldeia. Era uma trupe de mulheres.
Seu coração bateu mais forte, não perderia aquele show por nada, queria ver o que faziam aquelas moças artistas. Passou o dia admirando tudo, a tenda, as fitas, as luzes. Parou para descansar à sombra de uma frondosa árvore, tirou da sacola o lanche e um bastidor com linhas coloridas para tecer um pouco do que via.
A tarde já ia avançada quando o show foi anunciado com violões, flautins e fogos de artifício iluminando o céu. Mulheres com roupas brilhantes distribuíam flores e recitavam poemas para todos que passavam. O vento tinha sabor de festa e cor de poesia. O show foi uma alegria para a moça solitária, ouviu histórias cantadas de terras distantes que encheram seu coração de novas palavras. Chegou a pensar em mostrar seus bastidores a uma delas, mas as mãos suaram, os joelhos tremeram e o medo a fez apressar-se em seu caminho para casa.
Como poderia mostrar suas pequenas histórias a gente tão rica e letrada na fantasia? Todos ririam dela, como quando ela era só uma menina. Precisava tirar tudo das paredes, esconder embaixo da cama, dentro das gavetas, fora da vista. Sabia que sua casa era caminho para outras cidades e provavelmente a trupe passaria por ali ao seguir viagem.
As horas passavam demoradamente, e a moça se via dividida entre a vontade de estar junto àquelas mulheres e o medo de que descobrissem o que estava dentro dela. Até que então, sentiu o vento da mudança. Viu ao longe a tenda ser desarmada, as bagagens reunidas e a poeira dos cavalos cobrir o horizonte. Decidiu por assar um pão e um bolo, quase nunca via viajantes e sempre gostava de recebê-los, pois ali, perto ao córrego, era a última parada onde poderiam ter água fresca pelos próximos dias.
A batida da massa a acalmou, o perfume dos assados e a quentura do café confortaram seu peito de tal maneira que ela só percebeu a chegada das viajantes quando estas já batiam em sua porta. Tratou de recebê-las com toda a cortesia possível. Admirava-se com a coragem daquelas mulheres e lutava para abafar as vozes em sua cabeça, que fervilhavam de palpites.
Enquanto arrumava a mesa para servir o pão, uma moça desconhecida apareceu segurando um bastidor. As pernas da anfitriã bambearam, suas mãos suaram frio e seu olhar quase petrificou todas ali. A moça sorria, dizia ter encontrado aquele bastidor no banheiro e perguntava quem havia feito uma obra tão delicada. A beleza das palavras a encantara e ela gostaria de conseguir um daqueles também. Antes que a anfitriã pudesse responder, outras se interessaram pela pequena história bordada e deleitaram-se com sua leitura.
Com as faces em brasa, a mulher contou que as histórias faziam morada em seu coração e aquela foi a única forma que encontrou para deixá-las fluir, tal como as águas do rio. As mulheres da trupe ficaram espantadas ao descobrirem a quantidade de histórias bordadas escondidas por toda a casa. Convidaram a moça para partir com elas e levar suas palavras pelas estradas do mundo. Ela, porém, não se sentia pronta para tanto.
Então, as artistas a pediram para botar preço nos bastidores, pois elas levariam todos e os venderiam ao longo das cidades por onde passassem, permitindo que as palavras dela chegassem aos cantos mais longínquos. Prometeram também que voltariam em busca de novas histórias.
A moça ficou encantada, ainda não acreditava que aquelas artistas pudessem gostar de suas histórias. Percebeu, enfim, serem infundadas as suas inseguranças, as histórias têm vida própria e podem tocar o coração de muitas pessoas ao longo do caminho.
Inspiração
Minha inspiração partiu do coletivo de escritoras de que participo. Ali tem autoras experientes e iniciantes e todas estão sempre abertas a compartllhar ensinamentos e apoiar o trabalho das outras. São mulheres que acolhem, incentivam e levantam as outras.
Sobre a obra
Esse é um conto levemente fantástico, já que os poemas são bordados em bastidores ao invés de cadernos. A ideia foi trazer a leveza e a beleza de um conto de fadas, mesmo sem todos os elementos que o caracterizam.
Sobre o autor
A escrita é minha grande paixão, com foco em temas femininos, mitologia, folclore e contos de fadas. Meu trabalho como autora busca ressignificar as estruturas de poder enfrentadas pelas mulheres, abordando temas como protagonismo, autoestima e violências de gênero.
Autor(a): LIZANDRA BORGES DA SILVEIRA (Lizandra Silveira)
APCEF/DF
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