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A Pequena Sorridente
Não me lembro de muitos detalhes da época em que eu era pequena. Lembro vagamente que nasci em meio a muitos irmãos e irmãs, e em um dia qualquer, sem prévio aviso, fui separada deles para viver com tutores em um outro lugar.
Meus primeiros anos foram confortáveis. Eu era bem tratada, de um modo geral, exceto quando eu fazia algo que meus tutores não gostassem. Nessas horas eles apontavam a vassoura na minha direção e eu tinha que sair correndo. Para mim, aquela era a brincadeira que eu menos gostava.
Tudo ia bem, até que, certo dia, resolveram que não iriam mais cuidar de mim. Talvez tenha sido porque eu fiquei doente, ou porque passei a incomodá-los de alguma forma, sei lá. Fato é que, de repente, me vi longe de todo mundo que eu conhecia. Estava na rua, e lá fiquei, por dias e noites, passando frio e passando fome, tentando não morrer atropelada ou desidratada. Minha pele começou a coçar e criar feridas. Minha situação só piorava.
Foi então que algo maravilhoso aconteceu! É neste momento que quero começar, de fato, a contar minha história.
Eu estava vagueando por ruas desconhecidas, perto de uma grande lagoa. Era noite. Eu sentia frio. Não conseguia entender por que estava passando por aquilo. Enquanto tentava encontrar algo para comer nos restos deixados em uma esquina, dentro de sacos pretos, fui resgatada por um grupo de pessoas muito bondosas. Elas cuidaram de mim, me deram comida, remédios e carinho.
Na manhã seguinte, eu estava cercada de amigos. Todos sendo cuidados de perto por aquele grupo gentil e amigável de tutores. Passei vários dias nesse local e, apesar do tratamento que estava recebendo, não tinha me recuperado totalmente. Eu era muito frágil e tímida, mas tentava me enturmar com meus semelhantes. Minhas tutoras pareciam estar felizes com minha recuperação. De uma forma carinhosa, me apelidaram de Raposinha. Isso porque eu tinha um pelo alaranjado e um pouco longo, e meu focinho lembrava um pouco um lobo guará.
Passaram algumas semanas e eu já estava me acostumando com a nova vida. Porém, quando eu menos esperava, tiraram meus amigos e eu de onde estávamos e nos levaram para uma praça. Fiquei muito apreensiva, pensando que seria abandonada novamente. Eu já estava quase me esquecendo da vida que levara na rua, mas naquele momento todas as lembranças voltaram com força total! Me colocaram em um cercado junto com alguns de meus amigos e eu corri para um canto. Fiquei lá, encolhidinha, torcendo para que ninguém me retirasse dali. Minha esperança era que, ao fim do dia, minhas tutoras me levassem de volta ao meu lar de cuidados.
Durante aquela manhã, passaram várias pessoas pela praça. Elas olhavam para nós com uma expressão de desejo e excitação. Algumas delas escolhiam um ou outro amiguinho e retiravam do cercado. Os pequenos foram os primeiros a irem embora. Quando o sol chegou em seu ponto mais alto, sobramos apenas alguns poucos amigos e eu, ainda encolhida em meu canto. Foi quando apareceu um casal.
Eu tentei não olhar para eles. Recolhi minha cabeça junto à barriga e fiquei torcendo para que não me vissem, mas logo pediram para as tutoras me levarem para perto deles. Eu não queria, mas não me deram escolha.
Eles me pegaram no colo, discutiram por uns minutos e resolveram que eu seria a escolhida deles. Nunca mais voltei para aquele cercado. Dali, me colocaram em um carro e me levaram embora.
Naquela tarde, me vi em uma casa completamente estranha. Fiquei muito triste e, por isso, tentei encontrar um lugar para ficar sozinha, em silêncio, segura. Meus novos tutores tentavam se aproximar, fazer carinho, ter qualquer tipo de contato, mas eu estava irredutível! Só bebia água quando tinha muita sede. Só comia quando a fome apertava. Ficava sempre longe de todos, silenciosa, invisível, ou quase.
Alguns dias passaram e, já que nada de ruim acontecia, comecei a ficar mais relaxada. A comida era boa, parecida com a que eu comia no lar de cuidados. Aos poucos, fui deixando meus novos tutores me tocarem e se aproximarem. Às vezes, me forçavam a engolir remédios ruins, o que era bastante desagradável, mas com o tempo vi que aquilo estava me fazendo ficar mais disposta e animada. Tanto que, depois de um tempo, resolvi assumir meu papel de guardiã e defender meu território.
Onde eu morava tinha um quintal espaçoso e um grande portão de metal. De vez em quando, alguém se aproximava do portão pelo lado de fora e eu ficava incomodada. Cada vez mais, aquilo me chateava, e certo dia resolvi dar o grito! Lati bem forte para que os “invasores” se afastassem. Meus tutores pareceram ter gostado, pois ficaram empolgados.
Em algumas semanas, eu estava me sentindo em casa. Finalmente adotei o casal como minha família e passei a protegê-los de todos que se aproximavam. Pelo menos enquanto o portão estivesse fechado. Quando alguém conseguia passar por ele, meu corpo se arrepiava e eu ficava protestando de dentro da minha confortável casinha. Acho que meu instinto de sobrevivência era maior que minha coragem. De qualquer forma, eu fiz um bom trabalho! Tanto que mantive minha nova família segura por vários anos.
Por falar nisso, com o passar desses anos, a família aumentou! Certo dia, minha tutora saiu de casa com uma barriga enorme e, quando chegou, carregava no colo uma pequena criatura, parecida com ela. O meu primeiro instinto foi de estranhamento, rejeição e ciúme, mas quando senti o cheirinho daquele menino, assumi logo a postura de protetora.
Ele foi crescendo e eu acompanhando, às vezes de perto, às vezes de longe. Se ele ficava sozinho no quarto e começava a chorar, eu logo buscava a mãe dele para resolver o problema. Quando o menininho cresceu, virou meu amigo e passou a brincar comigo enquanto eu cuidava dele.
E depois teve outra barrigona, e um novo membro da família chegou à nossa casa. Desta vez, uma menina. Assim, fomos vivendo. Eles cuidando de mim e eu os protegendo. E a vida foi uma maravilha por um longo tempo.
Certa vez, apareceu um pequeno pássaro no quintal. Eu sempre espantava aqueles seres voadores, porque não gostava que entrassem em meu território. Se demorassem a bater suas asas para longe, eu ameaçava comê-los! Pensava que seria uma experiência nova, experimentar um novo sabor, diferente daquilo que eu tinha todos os dias como refeição, mas todos eram rápidos demais e eu nunca tinha conseguido pegar nenhum. Pelo menos até aquele dia.
Este pequeno pássaro era diferente: parecia não conseguir fugir. Ou estava ferido, ou cansado, ou então tinha comido algo que não fez bem. Eu fiz bastante barulho para ele ir embora, mas de nada adiantou. Então, não tive escolha: capturei-o com minhas patas e, depois de algumas mordidas, sobraram só algumas penas no quintal. Minha missão estava cumprida! Ou pelo menos eu achava isso.
Um dia depois, senti uma coisa estranha. Meu corpo não estava muito bem, eu não conseguia comer e tinha dificuldade de me levantar. Uma baba esquisita ficava escorrendo da minha boca e eu mal conseguia manter os olhos abertos. Foi quando minha tutora me colocou dentro de um carro e, novamente, me levou para um lugar estranho, frio e distante.
Lá, enfiaram agulhas em mim, colocaram coisas com gosto ruim na minha boca e me deixaram presa em uma gaiola por alguns dias. Pensei que minha vida estivesse no fim. Restava-me apenas aceitar aquele destino ingrato.
Para minha surpresa, um tempo depois acordei me sentindo melhor. Conseguia comer o que me davam e já sentia melhor o gosto do meu alimento. Mesmo assim, ainda não estava feliz, pois meus tutores pareciam ter me abandonado naquele lugar frio e cheio de criaturas tristes.
Quando eu estava em minha gaiola, vendo pela janela o sol deixar de brilhar e o tempo escurecer, ouvi uma voz conhecida. Meu rabo não parava de balançar e uma euforia tremenda tomou conta de mim. Alguém se aproximou, me segurou no colo e me levou para a saída. Meus tutores haviam ido me buscar! Eu soltava grunhidos de animação e meu corpo todo tremia de felicidade! Enquanto estava no carro, a parte mais difícil foi não ter espaço para dar pulos de alegria por estar novamente com as pessoas que eu tanto amava. Mas a viagem durou pouco, e logo eu estava de novo no quintal aconchegante e conhecido da minha casa. Meu território! Corri, pulei, dei lambidas de agradecimento e gastei toda a energia que aquela euforia tinha me dado. E então pude retornar à minha tão agradável vida, junto daqueles que eu mais amava.
De vez em quando eu saía para passear, e esses eram os melhores dias! A vida que eu levava era maravilhosa! Quase perfeita, tirando apenas os momentos em que brigavam comigo porque eu tentava comer outros passarinhos.
E assim, foi passando o tempo. E com os anos, vieram algumas dificuldades. Meu organismo não funcionava tão bem quanto na juventude, e muitas vezes eu sentia dores dentro da barriga. Depois de alguns remédios ruins e da troca do tipo de comida que me davam, esses efeitos diminuíram um pouco, mas não totalmente. Alguma coisa sempre voltava a me incomodar.
Acho que o tempo é que faz isso com a gente, pois eu estava há mais de dez anos naquela casa e nem sei direito qual era minha idade quando cheguei lá. Os bebês que eu vi chegarem já tinham crescido e estavam estudando. Eles sempre me afagavam na volta da escola, e passávamos várias horas na sala, em silêncio, apenas curtindo a companhia uns dos outros.
Creio que não foi culpa minha nem dos meus tutores, mas chegou um momento em que minha saúde piorou muito em um curto espaço de tempo. Eu já não conseguia enxergar tão bem quanto no passado e, muito frequentemente, as coisas que eu comia me faziam mal.
As estranhas dores já eram rotina quando, certo dia, tudo ficou escuro. Eu sentia o cheiro das coisas e das pessoas, mas não conseguia vê-las. Mesmo assim, tentava fazer meu melhor para proteger minha família. Continuava latindo e correndo pela casa, ainda que, frequentemente, encontrasse uma parede no caminho.
Certo dia, me colocaram novamente dentro do carro e cheguei a um lugar que tinha um cheiro totalmente novo. Com certeza eu nunca tinha estado ali. Pessoas que eu não conhecia me apertaram a barriga, me colocaram em uma mesa fria e novamente me espetaram com agulhas. Eu não conseguia ver o dia clarear nem escurecer, mas sei que fiquei ali por mais de um dia.
Foi então que minha tutora veio, me fez carinho, conversou comigo e uma alegria imensa tomou conta de mim. Eu não tinha certeza se ela me tiraria dali de imediato, mas aquele foi um momento muito especial. Eu senti um tremor na voz dela, algo que nunca tinha percebido antes. Inicialmente, não entendi o motivo, mas logo percebi que ela não me levaria de volta para casa. Voltei para o cantinho em que estava antes e continuei recebendo meu tratamento.
Mais tarde, ouvi outra voz conhecida e me animei novamente. Era meu tutor! Alguém me levou para perto dele e eu não aguentei de felicidade! Tentei dizer a ele que estava cansada de estar ali, que queria voltar para continuar cuidando de todos, e que mesmo que fosse difícil, por causa da minha cegueira e estado delicado de saúde, eu não deixaria de cumprir minha missão. Mesmo não falando a mesma língua que eu, sei que ele me entendeu. Senti um abraço, um afago, e ouvi sua voz suave e baixinha no meu ouvido. Naquele momento eu não entendi nada, mas ele disse:
— Está tudo bem, viu? Vai ficar tudo bem!
Essas foram as últimas palavras que eu escutei em minha não tão breve vida. É claro que eu gostaria de ter ficado mais tempo no mundo, mas hoje eu sei que foi melhor ter partido. Me chamavam de “a pequena sorridente” porque eu aprendi a imitar o sorriso que sempre me dirigiam quando conversavam comigo. Era meio esquisito naquela época, mas ao mesmo tempo era divertido. Hoje, sem a limitação do corpo canino, consigo sorrir bem mais naturalmente. E sorrio principalmente ao me lembrar de todos os bons momentos que passei até os últimos dias que fiquei no mundo.
Aquelas poucas palavras ditas no meu ouvido no último dia, até então sem sentido, hoje me alegram. Sei que cumpri minha missão, trazendo felicidade, diversão, carinho e, principalmente, completando as vidas da minha pequena família. Mesmo tendo partido, sei que eles nunca vão me esquecer e, para mim, isso é que importa.
Inspiração
Quando nos mudamos para a casa em que vivo hoje, minha esposa e eu adotamos uma cachorrinha. Esta é a história dela. O que acontece antes de ela ter sido resgatada é um palpite com base no que as protetoras nos contaram, mas todo o resto a partir daí é real. Passamos ótimos momentos com ela e resolvi imortalizá-la neste conto.
Sobre a obra
O conto foi construído com base em lembranças, emoções e sentimentos reais. A narrativa é toda construída do ponto de vista da cachorrinha. Usei de liberdades artísticas ao descrever o mundo que ela via para permitir o entendimento do contexto em que ela estava inserida. Para mim, foi emocionante escrever. Espero que seja também para quem ler.
Sobre o autor
Um amante da vida, da literatura e da música. Tenho alguns livros publicados de forma independente e tenho a escrita como uma das principais atividades de lazer e prazer. Meus textos me afastam das questões que me afligem na vida na mesma intensidade em que me aproximam de um mundo maravilhoso onde posso ser quem minha imaginação quiser.
Autor(a): EDMILSON FERREIRA DE OLIVEIRA (Edmilson Ferreira)
APCEF/MG
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