CARTAS PARA ROMEU, DE JULIETA

CARTAS PARA ROMEU, DE JULIETA

Antes de tudo devo esclarecer que não conheço uma única pessoa chamada Julieta nem tampouco algum Romeu. Conheço, de fato, algumas Júlias, outras Julianas e até uma Juliete, mas Julieta mesmo ainda não tenho como amiga ou conhecida. Romeu então nunca ouvi falar sequer de um amigo de amigo meu com tal nome.
Então por que cargas d’água intitulei esta obra com tal nome? Por dois motivos: a) porque lembrei do filme “Cartas para Julieta” e também do drama clássico de Shakespeare “Romeu e Julieta”; b) e porque encontrei entre as coisas da minha finada avó materna uma série de cartas de amor provavelmente escritas por ela na sua adolescência e não remetidas, sabe-se lá por qual motivo.
Saudosista e apaixonado pelas muitas formas de expressão dos sentimentos que já existiram e que existem neste imenso planeta eu as transcrevo logo abaixo para que vocês, caros leitores, possam também se deliciar com as epístolas de minha querida avó - resgatadas de uma cestinha velha, amarelada e um pouco carcomida:

CARTA 01
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Meu adorável, Arto!
Eu deveria mesmo agir como as pessoas normais e obrigar-me a sentir ciúmes de você, uma vez que já não sou mais a sua predileta, sabera eu na última seresta na casa de Dona Alice Maranhão em que nos encontráramos.
Entretanto, devo também orgulhar-me de ficar feliz pela simples suposição de que ao lado de muitas outras você irá deliciar-se do afeto que eu desejaria entregar-te, mas não me disponibilizei a isso por mais tempo que aquele quando juntos nos ofertávamos beijos e abraços, livres de qualquer pretensão de cobrar compromisso um do outro, pelo menos no meu caso que fujo dos compromissos amorosos como o diabo da cruz.
Sua companhia é-me tão agradável que tê-lo como amigo faz-me coçar o próprio ego gabando-me da sorte e capacidade de angariar afetos tão preciosos ao meu julgamento.
Da sua amiga que muito te quer bem,

Z., 28 de Julho de 1871.
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CARTA 02
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Querido, Antuan!
Confesso agora minha maior pretensão ao ir ver-te no dia do reizado na casa de Luiza da Chapada: namorar você o máximo que as horas de minha estada em Bento Gonçalves do Piauí nos permitissem.
E como tenho plena consciência de minha angustiante falta de talento para amar uma só pessoa e lhe ser fiel durante qualquer compromisso de paixão, decidi contar com sua abordagem para então me eximir de qualquer culpa em animar suas esperanças nesse sentido, embora rezasse pelos cantos para que me beijasse vagarosa e demoradamente, embora pouco ou nada tenha feito para lhe transmitir tal desejo.
Culpo severamente meu orgulho por arquitetar para ti uma tarefa que eu mesma poderia realizar, contudo com o passar das horas fui transmitindo o prazer que teria ao envolver-me em teus braços para o deleite das sensações de extrema alegria e superioridade que os elogios incessantes e paqueras de alguns rapazes da cidade me faziam sentir.
No dia seguinte percebi suas modestas investidas ao tocar-me enquanto eu me obrigava a dormir, mesmo não mais tendo sono algum para gozar, mas a essa altura eu já havia decidido que a decepção da noite passada era-me um convite a recuar do seu instantâneo propósito de entrega matinal e de quaisquer outras intenções até o dia em que minha estima por você tornar-se-á contida sumariamente de amor fraternal como bem cativo por outros amigos.
Convencida de ter-me feito entender o que se passou naqueles dois dias e aliviada por expressar tais sentimentos eu peço que sinceramente aceite o meu desejo de saúde e felicidade.
Da sua amiga e ex-amante interiorana,

Z., 05 de Agosto de 1872.
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CARTA 03
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Cecílio, doce príncipe!
A estranheza do nosso primeiro contato na vida, inicialmente embaraçoso para ti e agora cômico para nós dois não foi capaz de diminuir a atração que nos foi provocada no instante em que os nossos olhos se encontraram naquela noite de são joão em Santa Rita do Piauí. E o mais interessante é que naquela noite foram apenas olhares, sorrisos, desavenças e antipatia; as duas primeiras situações vividas entre nós, as últimas entre você e meu paquera naquela festa. Às vezes penso aqui comigo: oh, como nos encheu os olhos a beleza um do outro naquele momento! E sorrio agradecida pela sorte de tê-lo encontrado no mundo.
Muitas foram as minhas investidas para te encontrar nos dias subsequentes, mas por uma razão ou outra não obtive o menor êxito neste propósito e então caí no conformismo, deixei de pensar nessa ideia, já não parecia possível ou interessante para nós dois e então se seguiram os dias até que a tarde da terceira sexta de agosto surpreendeu-me com um recado trazido pela comadre Ciça que definiu o início do que seria nosso primeiro encontro bem ocorrido.
O nosso fim de semana foi incrivelmente apaixonante e cada situação ou passeio que fizemos aumentava o apreço que um ofertava para o outro. Você foi mais resolvido e logo antecipou suas intenções de transformar o nosso afeto em um compromisso de namoro. Sua proposta me apanhou de surpresa e acredito que pela experiência negativa que tive com relacionamentos passados eu tenha deixado escapar uma certa aversão a isso, mas o meu carinho por você me fez analisar condescendentemente aquela solicitação, embora vez ou outra eu entendesse mais prudente não colocar a sua felicidade em jogo, uma vez que aceitá-lo seria mudar o meu conceito negativo de compromisso sério de um dia para outro e isso não é tão simples, tenha certeza.
Ponderadas todas as questões que eu consegui contrabalançar eu compreendi que aceitar a sua mão seria mesmo uma decisão muito feliz para minha vida e me fiz determinada a responder-te com um estrondoso sim na próxima oportunidade que eu teria de encontrá-lo pessoalmente. Ironicamente fui tomada pelo agravamento de um distúrbio de sono que venho sofrendo nos últimos meses, bem como pelo aumento das tarefas de casa com a viagem de minha irmã do meio e, com certeza, isso deve ter te levado a crer que eu não sentisse tanta a sua falta a ponto de querer me comunicar contigo todas as horas do dia e da noite e logo desistiu de me contactar também. Ao fato anteriormente citado atribuo o fim das nossas intenções apaixonadas, lamentavelmente.
Entretanto, prefiro acreditar que fomos vítimas de um mal entendido arquitetado pelo destino e agravado pela fragilidade das paixões em início de construção. Por isso, Cecílio, não espere de mim nenhum tipo de desprezo por você, pois o carinho que te reservo manterá acesa a minha admiração por ti e creio que seremos ainda bons amigos quando tudo entre nós ficar ainda mais claro, pois coloco aqui somente as minhas opiniões sem saber das suas. Também não conseguirei diminuir o alto conceito que tenho da tua beleza, vou lembrá-lo como um dos rostos mais belos que já pude beijar.
Da moça que muito apreciou sua breve companhia,

Z., 02 de setembro de 1874.
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Inspiração

Me inspirei em cartas românticas escritas à mão pelas adolescentes apaixonadas dos tempos antigos.

Sobre a obra

São cartas adolescentes transcritas em forma de prosa.

Sobre o autor

Sou um amante das artes e da filosofia.

Autor(a): EDELSON PEREIRA DOS SANTOS (Edelson Persan)

APCEF/PI


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