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A Mulher da Fotografia
A Mulher da Fotografia
Sábado, 14 de março de 2075.
Bom, ao menos ela acreditava ser sábado. Já havia cinco anos desde o último contato humano. De alguma maneira conseguia lembrar a data. Considerava importante manter alguma referência, ainda que fosse apenas para conservar a mente ocupada.
Na verdade, ela já não tinha certeza nem se era 14 de março. Talvez fosse abril. Talvez outro ano. Sem jornais, internet ou vozes humanas, o tempo deixara de ser linha reta e se transformara em névoa. Ainda assim, insistia em registrar os dias. Não por confiar nos números, mas porque temia o momento em que deixaria de fazê-lo. Se abandonasse as datas, talvez abandonasse também o resto. E então sobraria apenas ela, sem prova alguma de quem havia sido antes.
Como em todas as manhãs, repetiu seu ritual. Acordava com o sol, preparava um pouco de café e anotava a data e o que fosse relevante no caderno de capa azul, o décimo oitavo. Os outros dezessete já ocupavam toda uma divisória da estante. Às vezes colocava duas xícaras sobre a mesa, por engano. A segunda permanecia vazia até que a consciência do engano chegasse, misturada à vergonha e à nostalgia. No início corrigia o erro. Depois, deixou de fazê-lo. Talvez pela esperança de que um dia alguém pudesse acompanhá-la, ou apenas para manter viva a memória de tempos passados.
Naquela manhã, que podia ou não ser sábado, escreveu a data mais uma vez. Enquanto fosse capaz de registrar o dia, continuava existindo alguém para atravessá-lo. E, por enquanto, esse alguém era ela.
Fechou o caderno com cuidado e o colocou sobre a mesa. Antes de sair, percorreu a estante com os olhos. Havia ali fotografias de uma vida que agora lhe parecia pertencer a outra pessoa. Uma delas atraiu sua atenção por alguns segundos, a ponto de fazê-la estender a mão e retirá-la de seu local de exposição, aproximando-a dos olhos como se devolvesse nitidez à memória.
A imagem, já amarelada pelo tempo, mostrava um salão iluminado. Pessoas sorrindo. Vestidos coloridos. Ao centro, ela e um rapaz dançavam desajeitados demais para quem acreditava estar encantando um ao outro.
Seus lábios se moveram em uma tentativa de sorriso, gesto que já não lhe era familiar havia algum tempo. Parecia ser uma expressão que havia sido aprendida em outra vida. Demorou alguns segundos para lembrar da ocasião e, quando finalmente conseguiu, sentiu uma estranha sensação de culpa.
Durante anos acreditara que esquecer um rosto seria o pior que poderia acontecer. Estava enganada. O pior era precisar procurar por uma lembrança que antes habitava naturalmente a memória.
Aquele havia sido o casamento de um amigo, ou de uma prima. Já não tinha certeza. Algumas memórias permaneciam inteiras; outras pareciam mastigadas pelo tempo, restando apenas fragmentos. Conseguia recordar a música, o calor da noite e a mão dele em sua cintura enquanto dançavam. O restante surgia como pedaços desconexos de um sonho.
Em algum momento da noite haviam saído ao jardim. Lembrava-se das luzes penduradas entre as árvores e da forma como ele falava do futuro com a confiança dos jovens, como se o amanhã fosse uma garantia. Que engano.
Ele lhe dissera algo naquela noite. Uma promessa. Daquelas que casais costumam fazer quando ainda acreditam que o tempo lhes pertence. Por mais que se esforçasse, não conseguia recordar as palavras exatas. Mas lembrava o principal: “Ficaremos juntos até o fim!”
Guardou a fotografia e apanhou a mochila perto da porta. Precisava seguir até o pomar abandonado antes que o sol ficasse forte demais. Ainda achava estranho pensar naquela rotina. Durante boa parte da vida enfrentara reuniões, prazos, compromissos e contas. Agora planejava a semana em função da lenha, da pesca e das estações de cada fruta.
Se alguém lhe dissesse, anos atrás, que um dia aprenderia a identificar pegadas de animais ou a afiar uma lâmina com pedras do rio, teria rido. Às vezes se perguntava o que mais havia mudado. Não no mundo, isso era fácil perceber. Queria saber o que havia mudado nela. Afinal, quanto daquela mulher da fotografia ainda existia?
Ela ainda possuía o mesmo nome, e ainda era capaz de reconhecer o próprio rosto no espelho. Conseguia também se recordar de algumas histórias, mas já não sabia quais opiniões ainda eram suas e quais haviam desaparecido junto com as pessoas que as compartilhavam. Cinco anos de silêncio eram tempo suficiente para modificar qualquer ser humano. Talvez até para criar outro, tamanha a mudança.
O pomar ficava a pouco mais de meia hora da casa. Nos primeiros anos após o colapso, os frutos dali eram abundantes o suficiente para que ela não precisasse ir muito longe. A cada estação, porém, a colheita diminuía. Não sabia se a causa eram os animais, o clima ou sua incapacidade de compreender aqueles processos. Sabia apenas que, mais cedo ou mais tarde, precisaria procurar alimento em outro lugar.
Por isso, seguiu por um caminho diferente naquela manhã. A região lhe parecia vagamente familiar. Anos antes existira ali uma pequena propriedade rural, embora já não recordasse o nome dos antigos donos, nem se os havia conhecido de fato ou apenas ouvido alguém falar deles. O tempo ensinara sua memória a misturar experiências vividas e histórias escutadas.
O lugar havia sido quase tomado pela vegetação. O que antes eram cercas aparecia agora como ripas tortuosas entre o mato alto. A antiga casa permanecia de pé, embora parte do telhado tivesse cedido e trepadeiras cobrissem as paredes. Um pouco além das construções, encontrou algumas árvores frutíferas que pareciam ter resistido aos anos de abandono. Foi ali que algo lhe chamou a atenção.
À primeira vista não passou de uma sensação difícil de explicar. Talvez porque aquela figueira parecesse maior do que deveria. Talvez porque o tronco carregasse uma irregularidade que seus olhos insistiam em fitar. Aproximou-se e passou a mão pela casca áspera, percebendo então a explicação: havia marcas.
Não pareciam recentes. O tempo já tratara de suavizar seus contornos, incorporando os cortes ao crescimento da árvore. Ainda assim, permaneciam visíveis. Eram riscos alinhados, organizados demais para serem obra do acaso. A visão provocou nela uma reação inesperada. Sentiu o coração acelerar. Fazia anos que não encontrava algo novo que a obrigasse a lembrar.
Continuou observando aquelas marcas enquanto uma sensação de familiaridade crescia silenciosamente dentro dela. Levou algum tempo até compreender de onde vinha aquela impressão. Então, de repente, lembrou-se novamente dele.
Durante os primeiros anos da convivência, o marido cultivara o hábito estranho de marcar árvores quando exploravam trilhas ou lugares pouco conhecidos. Dizia que mapas podiam se perder, placas podiam cair e construções podiam desaparecer, mas uma árvore carregaria uma marca por décadas. Ela costumava rir daquela mania e implicar que ninguém precisava de tanta precaução para fazer uma caminhada de algumas horas.
Agora observava aqueles cortes como quem reencontra uma caligrafia antiga. Não sabia quando haviam sido feitos. Essa era a parte que mais a perturbava. Eles poderiam ser anteriores ao desaparecimento. Poderiam ter sido feitos nos últimos dias em que estiveram juntos. Talvez até depois disso. Não havia como saber. A árvore conservava as marcas, mas se recusava a contar a história delas.
Sentou-se à sombra da figueira e tentou reorganizar lembranças que surgiam pela metade. Recordou as conversas dos meses anteriores ao desaparecimento dele, quando os mantimentos escasseavam e a esperança de encontrar outras pessoas oscilava entre necessidade e ilusão. Lembrou-se da manhã comum em que ele saiu com uma mochila e prometeu voltar antes do anoitecer.
Parecia estranho que a memória guardasse justamente os detalhes menos importantes daquela cena. Ela ainda conseguia ver a mochila, lembrar dele parado junto à porta e até recuperar a luz daquela manhã entrando pela janela.
O que vinha depois continuava escondido sob a mesma névoa que, pouco a pouco, parecia apagar suas lembranças. Não sabia dizer se esquecer era defesa ou apenas outra forma de perder algo. Pela primeira vez em muitos anos, percebeu que não havia chegado ali apenas em busca de frutas. Talvez procurasse também algum vestígio de quem fora. A árvore conservava suas marcas, já entremeadas ao tronco. Ela, porém, lutava para conservar as suas, que o tempo insistia em apagar lentamente.
Permaneceu sentada sob a figueira por mais alguns minutos. As frutas maduras balançavam suavemente acima de sua cabeça, e o aroma adocicado que pairava no ar despertou algo inesperado. Uma lembrança, mais antiga.
Por instantes voltou a ser criança no quintal da avó. Lembrou-se das árvores frutíferas e do cuidado quase cerimonial com que a velha senhora transformava tudo em alimento. Nada era desperdiçado. O que não servia para consumo imediato virava doce, compota, geleia ou conserva, sempre repartida com os vizinhos, que a chamavam de vó Laura, mesmo sem laço sanguíneo algum.
Ela faria qualquer coisa para se deliciar novamente com o doce de mamão da vovó. Ninguém sabia fazer igual. Então lhe veio à memória uma tarde distante. Devia ter oito ou nove anos quando ajudava a vovó a selecionar as frutas mais maduras que haviam acabado de colher. Incomodada com tanto trabalho, perguntou por que precisavam fazer tantos doces e conservas, se o pomar produzia frutas novas o tempo todo. A avó ergueu os olhos, limpou as mãos no avental e sorriu antes de responder:
- Porque nem toda árvore dá fruto o ano inteiro, minha filha. A gente aproveita a abundância de hoje para não sentir falta amanhã.
Na época pareceu apenas uma frase de adulto, mas agora lhe soava quase profética. Lembrou-se do cheiro da cozinha, das panelas marcadas pelo uso e da voz calma da avó explicando que algumas coisas precisavam ser guardadas nos tempos bons para atravessar os tempos difíceis.
Então outra parte da conversa emergiu da névoa. Uma parte que ela não lembrava havia muitos anos. A avó lhe dissera que, quando tivesse filhos, entenderia melhor. Que todo cuidado parecia exagerado até o dia em que existia alguém dependendo de você. Sentiu um aperto inesperado, pois não tiveram filhos. A decisão fora sendo adiada ano após ano enquanto o futuro parecia ter tempo de sobra para acontecer. O futuro, descobrira tarde demais, raramente pede licença antes de mudar de direção.
Por um instante, imaginou como seria criar uma criança naquele mundo, e a ideia lhe pareceu absurda e dolorosa. Pensou nas histórias que contaria antes de dormir, nas explicações para uma cidade sem moradores e na pergunta inevitável sobre o paradeiro das outras pessoas. Mais difícil ainda seria ensinar alguém a sentir saudade de um lugar que já não existia.
O som distante de um trovão interrompeu seus pensamentos. Ergueu os olhos para o céu e percebeu que nuvens escuras já cobriam boa parte do horizonte. Precisaria voltar logo. Guardou algumas frutas na mochila e iniciou o caminho de retorno. Enquanto caminhava apressada, teve a estranha sensação de que aquele havia sido um dia excessivamente povoado por lembranças. Como se a memória, depois de anos economizando fragmentos, tivesse decidido gastar alguns deles de uma só vez. Não sabia se era um presente ou um aviso.
A chuva a alcançou antes da metade do caminho e logo se transformou em algo mais intenso. Em poucos minutos, uma cortina de água desabou sobre o campo, apagando as referências conhecidas. As árvores tornaram-se sombras entre relâmpagos, e até a silhueta da casa desapareceu atrás do véu cinzento que envolvia tudo.
Ela continuou avançando como pôde, guiando-se mais pela memória do que pela visão. Havia percorrido aquele trajeto tantas vezes que acreditava ser capaz de atravessá-lo de olhos fechados, mas naquela tarde a tempestade parecia determinada a desmentir essa certeza. O vento soprava com violência contra seu corpo, a mochila encharcada pesava sobre seus ombros e cada passo exigia um esforço maior do que o anterior.
Quando um novo trovão rompeu o céu, ela tentou acelerar o ritmo, mas o terreno escorregadio a traiu. O pé encontrou um desnível oculto pela lama, seu corpo perdeu o equilíbrio e a queda aconteceu rápido demais para qualquer reação. Sentiu o impacto contra o solo, a dor breve e difusa em sua fronte espalhando-se rapidamente pelo corpo, e então a escuridão veio ao seu encontro com a mesma intensidade da chuva.
Quando abriu os olhos novamente, demorou alguns instantes para compreender o que estava acontecendo. Estava deitada em sua cama, coberta por mantas secas e aquecida por um conforto que contrastava de forma estranha com a lembrança da tempestade. Seria domingo, ou ainda sábado? Valeria registrar os dias quando nem a própria vida parecia certa? Enquanto tentava organizar os pensamentos, percebeu algo ainda mais incomum. A casa estava iluminada.
Não apenas a lâmpada do quarto, mas todas elas. Sala, cozinha, corredor e até a pequena luminária próxima à janela brilhavam ao mesmo tempo, espalhando uma claridade que ela não via havia muitos anos. As baterias não deveriam alimentar metade daquilo. Ainda assim, nenhuma lâmpada vacilava. A luz preenchia a casa com uma tranquilidade impossível.
E então sentiu o aroma.
O cheiro de café recém passado espalhava-se pelo ar com uma familiaridade quase dolorosa, despertando lembranças que julgava adormecidas. Levantou-se devagar e seguiu em direção à cozinha, sem saber se confiava mais nos próprios sentidos ou na possibilidade de estar sonhando. Foi ao chegar à mesa que seu coração acelerou.
Havia duas xícaras.
Uma delas ainda deixava escapar fios de vapor. Permaneceu imóvel, observando aquela cena simples e impossível. Nenhuma explicação parecia razoável, e ainda assim alguma coisa dentro dela sabia que a resposta estava próxima. Foi então que ouviu um ruído vindo da varanda.
Ela se virou e, além da porta aberta, notou uma figura que observava a densa neblina que pairava sobre o mundo lá fora. A postura lhe pareceu familiar antes mesmo que pudesse distinguir os contornos do rosto, e quando o homem finalmente se voltou em sua direção, sentiu o tempo vacilar ao seu redor. As lágrimas chegaram antes das palavras.
- Você voltou...
Ele a observou por um instante, com a serenidade de quem regressa de uma viagem longa demais para ser contada, e então sorriu. Um sorriso que ela reconheceria em qualquer lugar, mesmo depois de todos aqueles anos de memórias fragmentadas.
- Não disse que ficaríamos juntos até o fim?
Ela não encontrou resposta. Naquele momento, nenhuma era necessária. Enquanto a bruma continuava a cair sobre o telhado e o amanhecer tentava sobressair de alguma forma, percebeu que já não lhe importava saber se aquilo era um sonho, uma lembrança, um milagre tardio ou alguma realidade que ainda não compreendia. Pela primeira vez em muitos anos, sentiu apenas paz, e deixou que ela permanecesse ali, sem perguntas, sem explicações e sem a necessidade de ser compreendida. Depois de tanto tempo, finalmente se reencontrou na mulher da fotografia.
Inspiração
Não houve uma inspiração direta. Queria algo pós-apocalíptico. Pensei na personagem, e fui criando os cenários.
Sobre a obra
"A Mulher da Fotografia" é uma crônica de ficção que explora memória e solidão. Utilizei narrativa introspectiva, simbolismos e alternância entre presente e lembranças para construir a atmosfera da obra. O texto traz uma reflexão sobre identidade, perda e a permanência dos vínculos afetivos através do tempo.
Sobre o autor
Meu nome é Robson. Sou bancário há 14 anos e artista desde sempre. Participo de outras modalidades do Talentos FENAE, mas é na literatura que me encontro. Tenho um livro publicado, outros em projeto e, com a chegada desta edição, me perguntei se já não seria a hora de reunir meus contos e crônicas em uma coletânea. Afinal, por que não?
Autor(a): ROBSON FERREIRA DE SOUZA (Robson Ferreira de Souza)
APCEF/PR