Sonhos com etiquetas

“Para morrer basta estar vivo” ... Ouvi muito quando criança, especialmente quando minha
mãe queria me repreender sobre algo perigoso e já estava esgotando seus argumentos.

Em 22 julho de 2026, voltando de ônibus de Brasília com destino a Belo Horizonte, passei
muito perto do que esta frase quer dizer. Durante o trajeto, o ônibus parou torto e
bruscamente. Não parecia nada sério mesmo. A porta silenciosamente se abriu e ninguém
entendeu nada até que um passageiro ao meu lado, na frente, disse: “Eu vi tudo! A carreta ia
bater de frente com a gente! O motorista entrou na contra mão para sair dela, e ia bater na
gente de frente!”.

Eu desci do ônibus e vi que estávamos semitombados no meio do mato, a cabine não tinha
motorista e a lateral do ônibus mostrava que a carreta, já fugitiva, chegou a raspar
lateralmente no nosso ônibus, quebrando o vidro temperado lateral.

Foi então, que começou a pegar fogo no nosso ônibus, com as pessoas lá dentro, tranquilas,
sem saber exatamente o que ocorreu.

Corri para dentro dele gritando: “Sai todo mundo! Sai!
Ônibus pegando fogo!” E pegou! Incinerou tudo! Explodiu! Não me orgulho de dizer que voltei,
no meio do fogo, para pegar uma mochila onde tinha aqueles documentos chatinhos de obter
segunda via...

Todos se salvaram. O motorista tremia. As pessoas não estavam entendendo aquela cena. Eu
não entendi aquela cena em que eu olhava especificamente para meu assento, bem na frente,
dentro daquela bola gigante de fogo. Confesso que ainda estou processando, e que eu ri disso
(com gratidão a Deus e muita fé no coração!) algumas vezes. Ri de alegria (muita!). Ri de
nervosismo. Ri porque ninguém se foi. Moratória para todo mundo! Então, eu ri.

Acidentes trágicos são inerentes à vida. Mas quem espera fazer parte da cena de um? E já que
fiz, a cena do ônibus - em que eu sentava na frente, sem ninguém lá dentro, pegando fogo, e
que antes não colidiu frontalmente com a carreta, pode ser considerada uma cena bem feliz.

No meu fone de ouvido, minutos antes, eu ouvia o livro “O Evangelho segundo o Espiritismo”. Sabe o que isso quer dizer? Eu não.

Já em casa, em Guarapari, engolida pela rotina da vida, escolhia uma roupa para trabalhar, e
uma estava com etiqueta há uns dois anos, reservada a um momento futuro especial, que eu
não tinha ideia qual seria. Me veio à mente a pergunta fulminante: “Quantos sonhos eu tenho
ainda com etiquetas?”

Colega, minha pergunta agora é a seguinte: Se para morrer, basta estar vivo, o que basta para
viver?

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Inspiração

Um fato marcante e recente, em que quase viajei para fora.

Sobre a obra

É um texto narrativo, em primeira pessoa, com tom leve e trivial.

Sobre o autor

Escrevo aqui há uns anos. Escrevo para mim mesma no futuro, e para meus dois filhos, João e José.

Autor(a): HELOISA GOMES SOARES DE SOUZA (Heloísa Gomes Soares)

APCEF/ES