- Página inicial
- Detalhe obra
AGITE BEM ANTES DE USAR
- Quase matei a nova babá da minha filha!!!
Olhei com os olhos arregalados para minha prima Elza quando ela me revelou esse seu segredo macabro. Mas depois de ouvir o porquê, pude ver claramente que talvez eu fizesse o mesmo.
Tudo começou em meados de 1995 quando a primeira babá da sua filha resolveu largar o emprego, justamente quando a criança estava muito doente da garganta. Febre alta, chorando muito, banho com álcool pra baixar a febre e tudo mais que tinha direito. Teve que entrar no antibiótico. Naquela época, as doses eram de seis em seis horas. E piorava ainda mais quando haviam as doses durante a madrugada, pois era necessário acordar o bebê pra enfiar o remédio goela abaixo.
Avaliando toda a situação, minha prima ficou em polvorosa e danou-se a gritar com o marido:
- E agora, como vamos trabalhar sem babá? E as doses do antibiótico? Quem vai dar? Vamos lá homem! Vê se te mexe e vai ligando logo pra tua mãe e tuas irmãs pra ver se elas arranjam uma babá urgente, antes que eu enlouqueça.
E assim, iniciou a temporada de caça à babá. Ligaram para Deus e o mundo e, enfim, apareceu uma filha de Deus indicando uma aprendiz de babá pra quebrar o galho.
Foi a Dona Noca que a indicou. Era uma velha amiga da família que veio do interior do Pará morar na capital. Pessoa de bom coração. Na hora do sufoco estava sempre pronta para ajudar. Ela explicou sua sobrinha estava de passagem na capital para conhecer pela primeira vez a cidade grande, apesar de já ter 18 anos de idade. A moça era toda acanhada, quase não falava; quando ria botava a mão na boca em sinal de vergonha; vivia sentada toda encolhida pelos cantos da casa com aquele seu vestido de chita todo surrado.
- Elza, minha “cumadre”, eu tô com essa “pequena” em casa passando uns tempos. Se a senhora quiser, ela pode ficar “tomando de conta” da sua bebê. Ela não é nenhuma babaaaaá de ofício, mas dá pra quebrar o galho.
Na hora do sufoco e não tendo mais a quem apelar, minha prima Elza aceitou sem pestanejar. Levou a moça pra sua casa e iniciou a saga de recomendações: faz assim, faz assado, não mexe aqui, limpa acolá. A menina só escutava e não dizia uma palavra. A Elza já bastante agoniada, perguntava se ela havia entendido. A resposta era imediata:
- Entendi, sim senhora.
Fazer o quê? O jeito era acreditar.
Dentre as recomendações, havia uma em especial que mereceu repetidas explicações para que a babá entendesse bem, pois se referia a medicação da bebê. O antibiótico era do tipo que misturava o pó de um sachê ao líquido, para fazer o efeito desejado. Portanto, havia a necessidade de agitar bastante o frasco com a mistura, antes de dar ao bebê. Após ouvir as orientações, a resposta da moça foi imediata:
- Entendi, sim senhora.
E assim, a Elza e o marido saíram pra trabalhar com o coração na mão, preocupados se a cabocla ia dar conta do recado.
Os dias foram passando e a bebê não melhorava. A febre continuava alta. O médico foi acionado para ver se a medicação estava correta. Ele achou tudo muito estranho, pois o antibiótico era forte e o frasco já estava quase no final. Intrigado, ele questionou:
- Vocês estão dando o remédio da forma correta? Tem que agitar bastante o frasco para que o pó se misture totalmente ao líquido. Só assim fará o efeito necessário.
- Claro que sim, doutor. – retrucou Elza – Eu ensinei inúmeras vezes à babá que ela deveria agitar bem antes de usar.
- Aconselho você a voltar com a babá e pedir que ela mostre como está fazendo, só pra confirmar. – aconselhou o médico.
Elza ficou com a pulga atrás da orelha e voltou imediatamente pra casa para tirar a prova dos nove:
- Menina, aproveita que está na hora de dar mais uma dose do remédio e mostra como você está fazendo.
Imediatamente a cabocla abriu o sachê, jogou no líquido, pegou a bebê com as duas mãos levantando-a bem alto, sacudiu bastante a criança e, em seguida, deu o remédio na boca.
Elza pirou:
- Pelo amor de Deus, o que é isto que estás fazendo??? Porque sacudiste a bebê antes de dar o remédio???
A cabocla toda sem jeito, quase se enrolando de tanta vergonha, sussurrou bem baixinho:
- A senhora mesmo explicou que eu deveria agitar bem antes de usar. Foi isso que eu fiz...
Inspiração
Quando ouvi essa história que minha prima contou, quase não conseguia parar de rir. Peguei meu note e a transformei imediatamente em mais um conto.
Sobre a obra
Foi utilizado o recurso da narrativa na terceira pessoa, desenvolvendo o conto do mesmo jeito que me ouvi.
Sobre o autor
Sempre gostei de escrever desde a adolescência. Tenho diversas poesias e contos sobre vários temas e, o Talentos Fenae, é uma forma de apresenta-los ao público.
Autor(a): FRANCISCO ALENILSON GIRARD DA SILVA (Alê)
APCEF/PA