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Uma expedição científica à Antártica.
Uma expedição científica à Antártica.
Nos jardins da Universidade, Ipês e Jacarandás dão um colorido especial ao local.
Estudantes andam em grupos alvoroçados, como passarinhos nesta época do ano no Sul
do país. Apesar de estarmos na primavera, ventos gelados ainda chegam por aqui pelas
frentes frias vindas da Argentina. Estamos em setembro de 2016.
Nos corredores agitados da Universidade, o professor Nelson segue apressado para
o laboratório de pesquisa. Carrega com ele documentos, papéis e estudos. Ele se prepara
para a sua primeira viagem de 60 dias numa expedição de estudos à Antártica. Junta os
documentos e anotações de uma vida dedicada a pesquisa científica. Seguirão com ele
Renata e Juliano, alunos escolhidos por terem se destacados nos trabalhos de pesquisa.
Absorto em seus pensamentos não percebe que alguém bate à porta...
— Com licença professor Nelson – disse a aluna Renata. — Vim pegar com o senhor
as orientações para a viagem.
— Pode entrar - disse o professor. — Não precisa de muitas coisas. Apesar de
estarmos indo para o continente gelado, no navio nos será fornecido roupas apropriadas
e necessárias para o clima e para nossa alimentação. Temos dois dias para
providenciarmos tudo. Fique preparada!
Renata é uma aluna inteligente e muito comunicativa. Durante as aulas do professor
Nelson, vem sempre com novas perguntas e indagações sobre o aquecimento global.
Fica incomodada com as notícias que assiste nos noticiários da televisão. Governos de
grandes potências econômicas que não adotam metas para proteger o nosso planeta
das emissões de gases poluentes. Seu pai é professor de Astronomia na mesma Universidade, talvez por isso desde
menina interessava-se pelos assuntos dos planetas no Universo. Olhava as estrelas e
viajava para outros mundos. Cresceu sempre com a ideia de querer ser uma cientista no
futuro.
— Onde está Juliano? – pergunta o professor. —Já deveria estar aqui.
— Ele já deve estar chegando. – disse Renata. — Encontrei-o lá embaixo no saguão.
Nem bem acabou de falar... chega Juliano.
— Bom dia professor! – disse Juliano.
Juliano era um aluno que se destacava pela facilidade com que processava as
informações. Era rápido no estudo e no entendimento das propostas que lhe eram
apresentadas. A mesma facilidade ele tinha com a informática. Professor Nelson
costumava dizer que ele era rápido no gatilho. — Nos encontraremos sábado no cais do porto para embarcarmos no navio — disse
o professor Nelson — dispensando os alunos.
O navio sairia do cais do porto da cidade de Rio Grande no Rio Grande do Sul. Era um
navio quebra-gelo apropriado para esse tipo de viagem. Fazia parte de uma expedição
internacional que levava pesquisadores, estudiosos que percorreriam a costa antártica
coletando dados sobre os ecossistemas costeiros e o impacto das mudanças climáticas.
No primeiro sábado do mês de outubro, antes do amanhecer, lá estavam eles no porto
de Rio Grande. O navio já estava atracado no cais e a bordo encontravam-se alguns
cientistas de outras partes do mundo que também viajariam nessa expedição de estudos
ao continente gelado da Antártica.
O professor Nelson, Renata e Juliano apresentaram-se ao grupo. Um membro da tripulação acompanhou-os até os aposentos em que ficariam durante a viagem. A
disposição dos pesquisadores, ficava a área dos dormitórios. Cabines com duas camas e
armários. Havia no navio uma sala de estudos e uma sala para confraternizações. A
língua falada para a comunicação entre todos era o Inglês e o Espanhol. Durante as
apresentações, ouviu-se uma sirene em alto som. Era o comandante avisando da partida.
O navio partiu do porto de Rio Grande destino à Antártica.
No primeiro dia de viagem aproveitaram para conhecer a embarcação. Foram
apresentados ao comandante e seus tripulantes.
O comandante do navio, Sr. Mikhail Ivanov era de origem russa, mas falava bem o
português, embora com um sotaque pesado. Tinha aproximadamente uns 50 anos. Seu
rosto, por trás de um bigode e uma barba espessa, apresentava um envelhecimento acentuado, adquirido por anos e anos viajando em alto mar. Era casado e deixara sua
mulher e filhos na Rússia para trabalhar como comandante no navio quebra-gelo.
No segundo dia de viagem, depois do café da manhã, todos os pesquisadores foram
convidados para um encontro na sala de reuniões do navio. O objetivo, além das boas
vindas e apresentações, era trocar ideias, informações e organizarem a maneira como
realizariam as pesquisas utilizando os laboratórios da Estação de Estudo no Continente
Antártico. Isso levou a manhã inteira. Esqueci de dizer, que ao todo, eram 35
pesquisadores entre cientistas e alunos.
As refeições aconteciam na cozinha do navio. Café da manhã, almoço, lanches e jantar.
O responsável pela cozinha era um peruano chamado Júlio que, com mais dois auxiliares,
dava conta da alimentação de todos no navio. Havia também uma pequena farmácia
para alguma emergência e eventualidades.
A viagem seguia tranquila em alto mar sem muitas alterações no clima. Pois foi numa
manhã destas que Renata acordou assustada com o forte barulho que vinha do lado de
fora do navio. O dia recém tinha amanhecido. Ela levantou e foi até a cabine do professor
e de Juliano. Ambos já estavam de pé, também curiosos com o ruído que vinha do casco
do navio. Subiram as escadas até o convés e se depararam com aquela visão fascinante,
que jamais esqueceriam. O sol saindo no horizonte dava um brilho especial a todo
aquele branco, que chegava a doer os olhos. Haviam chegado nas geleiras. O barulho
que ouviam era do navio cortando o gelo dos blocos que flutuavam no mar. Blocos que
com certeza, desprenderam-se de sua formação, evidenciando o derretimento causado pelo o aquecimento do ar. Nesse cenário, que lembrava alguns filmes, eles seguiam a
viagem...
O comandante Mikhail pretendia chegar na manhã seguinte à Base da Estação de
Estudos.
Durante o dia, a paisagem ficava cada vez mais interessante aos olhos dos
“marinheiros de primeira viagem”. Podia-se observar alguns animais da fauna local
tomando um pouco de sol nos blocos das geleiras.
— Olha Juliano, são pinguins e focas! — disse Renata. — Como são grandes! Acho que
são os chamados pinguins imperadores. Eles se juntam em bandos para chocarem os
ovos. Vi isso no cinema e em documentários.
E assim seguiam os dois estudantes maravilhados com os animais em seu habitat
natural. Nem se importaram com o vento gelado que fazia rachar os lábios e gelar as orelhas, nem tampouco ouviram o cozinheiro Júlio chamando-os para o café da manhã.
Durante a viagem, os pesquisadores subiam e desciam do convés com suas
pranchetas fazendo anotações. Filmavam e faziam comentários em áudio, gravando suas
considerações. Nesse momento falavam nas suas línguas de origem. O burburinho era
confuso com tantas falas. Renata e Juliano anotavam tudo que viam sob a orientação do
seu professor.
Na manhã seguinte, antes do meio dia, chegaram na Estação de Estudos da Antártica.
Tiveram sorte, porque as condições do tempo estavam apropriadas para o
desembarque. O navio parou perto de uma placa de gelo firme. Os pesquisadores
entraram em pequenos botes que os levariam até a placa. Essa operação se deu até que
todos os passageiros estivessem desembarcados. Ainda teriam que fazer uma pequena
caminhada sobre a superfície congelada até a porta da Base da Estação.
Na Estação alguns cientistas, que se encontravam no local, aguardavam a chegada do
grupo.
O grupo foi recebido com um almoço coletivo no refeitório principal. Uma sopa
quentinha de entrada e uma macarronada. Essa foi a refeição que tiveram logo na
chegada. Após o almoço foram convidados pelo Chefe da Estação a se dirigirem a sala ao
lado do refeitório para uma reunião, cujo objetivo era informar como funcionava a
Estação, com horários fixos para cada atividade. O professor Nelson, Renata e Juliano
ouviam tudo com muita atenção.
À noite, ventou bastante na geleira. Dentro da Estação a temperatura era agradável
devido a perfeita climatização do local. No dia seguinte, às 07h, um sinal sonoro acordou todos na Base.
Em cada quarto havia na parede um cronograma diário. Horários para o café, almoço
e jantar. Horário para a reunião matinal, onde se discutiriam as tarefas do dia. Horário
para os dois turnos de trabalho, antes e depois do almoço, na área dos laboratórios. O
primeiro turno era utilizado para sair a campo observando e coletando material de
pesquisa e no segundo turno, dirigiam-se aos laboratórios para os estudos do que foi
observado e coletado. A coleta de material dependia muito das condições em que se
encontrava o tempo no momento. Saiam para coletar amostras de água, solo, plantas e
observar a fauna, basicamente pinguins e focas.
Já na primeira saída a campo, o professor Nelson, Renata e Juliano foram
acompanhados e orientados por um cientista mais experiente que conhecia os perigos
da região. Nelson chamava a atenção de seus pupilos para o que deveriam focar. Juliano
coletou um pouco de água numa garrafa para pesquisar como os microrganismos
sobreviviam as condições extremas. O professor e Renata seguiam na linha de estudo
das condições climáticas da Antártica. Se dedicavam a observar como o aquecimento
global, advindo de gases poluentes de outras partes do mundo, influenciava no
acentuado descongelamento das geleiras. Também tinham o objetivo de compreender
como as frentes frias saiam da Antártica, afetando o clima em vários países, inclusive no
Brasil.
Renata anotava tudo e observava cada movimento naquela imensidão branca das
geleiras. Ela comentou com o Juliano, que tinha uma certa preocupação de serem perseguidos por um urso polar.
—Não, Renata! Isso não vai acontecer — disse Juliano se divertindo com o fato. — Os
ursos polares são encontrados no Ártico.
Voltando à Base na Estação os pesquisadores utilizavam os laboratórios para analisar
as amostras coletadas e fazer seus relatórios.
A janta era servida às 19h. Momento em que todos confraternizavam trocando
informações sobre as pesquisas realizadas durante o dia. Também aproveitavam esse
tempo para conhecerem melhor uns aos outros.
As luzes eram apagadas às 22h. Não era permitido fazer barulho depois deste horário.
Todos deveriam estar recolhidos em seus dormitórios. Os horários eram bem rígidos.
E os dias foram passando com muitos estudos e interações entre os cientistas. As
trocas de informações enriqueciam os trabalhos de todos.
Renata e Juliano tinham aprendido muito nessa viagem, mas já demonstravam um
certo cansaço. Afinal, já fazia quase dois meses que estavam lá. Na realidade estavam
com saudades de casa. O clima de frio extremo reforçava esse sentimento. Sentiam falta
do calor e de poder andar mais à vontade. O frio castiga quem não está acostumado,
ainda mais em situações extremas.
No final de novembro começaram os preparativos para a saída da Estação de Estudo
e a volta para a casa. O navio do Comandante Mikhail já estava atracado próximo a
geleira. Três cientistas, que estavam na Estação há mais tempo, voltariam junto com o
grupo. Os botes estavam a postos esperando os passageiros para conduzi-los ao navio.
Foi o momento das despedidas e agradecimentos aos que ficaram na Base. O
comandante Mikhail informou que a viagem de volta ao porto de Rio Grande levaria 6
dias.
Durante a viagem de volta, o professor Nelson reuniu os dois alunos para conversar
sobre a experiência que tiveram e, sobre o que aprenderam nesses dias na Estação de
Estudo. Renata foi a primeira a falar...
— Nesse estudo científico que fiz a campo, pude observar o que a elevação da
temperatura está fazendo com as geleiras. O derretimento do gelo faz com que outras
camadas absorvam ainda mais calor, soltando as placas de gelo da geleira. É um
processo contínuo de derretimento. O desequilíbrio térmico do Oceano Antártico é o
causador dos eventos extremos das frentes frias, que chegam na América do Sul
causando ventos e chuvas extremas.
O professor assentia com a cabeça, concordando com a explanação de Renata.
Juliano também quis falar sobre suas pesquisas com os microrganismos.
— Gostei muito do que vi com a observação da minha coleta das águas geladas – disse
Juliano. — Pude observar nos microscópios do laboratório, as Arqueas, microrganismos
unicelulares que vivem sem oxigênio e produzem gás metano como parte de sua
digestão. São encontradas em ambientes extremos, tanto no frio como no calor. Quero
estudar o seu DNA e ver o que faz elas serem tão resistentes.
O professor Nelson perguntou a ambos se estavam com os seus relatórios prontos.
— Isso é muito importante para dar crédito ao nosso trabalho, neste projeto que tivemos o privilégio de fazer parte – disse o professor. — Quando voltarmos às aulas na
Universidade, vamos manter o compromisso de continuarmos os estudos, para que o
nosso conhecimento seja passado para outras pessoas também. Afinal somos todos
cientistas, não é mesmo?
No final dos seis dias desembarcaram no porto de Rio Grande, levando consigo seus
relatórios, muitas fotos e muitas histórias para contar sobre essa aventura científica no
Continente Antártico.
Inspiração
Minha inspiração foi fazer um conto que tratasse do desequilíbrio das condições climáticas, causadas pelo aquecimento global, e suas consequências no derretimento das geleiras observadas no Continente Antártico.
Sobre a obra
O Conto trata de uma viagem de navio de um professor e seus dois alunos. A viagem é uma expedição internacional de estudos à Antártica. Durante a narrativa é abordado o dia a dia dentro do navio e a chegada na Estação de Estudo no continente gelado da Antártica. A permanência dos personagens principais na Antártica é de 60 dias.
Sobre o autor
Desde a minha adolescência sempre gostei de escrever histórias. Gosto de escrever crônicas e contos. Adquiri a técnica da narrativa escrita nas oficinas literárias da Apcef RS, com o professor e escritor Alcy Cheuiche. Ter esse conhecimento facilitou muito no meu processo da escrita criativa.
Autor(a): DIVA MARIA FERNANDES (Diva Fernandes)
APCEF/RS