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A FLOR QUE NÃO ERA BRANCA
A FLOR QUE NÃO ERA BRANCA
Crônica
Érika Paiva de Carvalho
Hoje vi uma flor roxa.
Estava sozinha entre tantas outras. Havia flores brancas, bonitas, perfeitas, dessas que parecem ter nascido sem nunca conhecer vento forte.
Mas meus olhos foram para a roxa.
Talvez porque algumas coisas a gente não escolha olhar. Elas é que encontram a gente.
Fiquei pensando nas mulheres.
Nas que cresceram em terra fértil, cercadas de cuidado, e puderam florescer sem precisar aprender tão cedo o significado da palavra coragem.
E pensei nas outras.
Nas que conheceram a tempestade.
Há mulheres que carregam histórias que ninguém percebe quando cruza com elas na rua. Trabalham, sorriem, cuidam dos filhos, resolvem problemas, respondem mensagens, dizem “bom dia”.
E ninguém imagina o tamanho do silêncio que já carregaram.
Porque o silêncio também pesa.
Às vezes, pesa mais que as palavras.
Existe um instante, porém, em que alguma coisa muda.
Não sei dizer exatamente quando.
Talvez seja quando o medo de continuar calada finalmente se torna maior que o medo de falar.
Então uma mulher fala.
Nem sempre fala alto.
Às vezes, fala chorando.
Às vezes, a voz treme.
Às vezes, precisa parar, respirar e começar novamente.
Mas fala.
E há uma coragem imensa nisso.
Costumamos imaginar coragem como ausência de medo. Talvez seja justamente o contrário.
Coragem é quando o medo continua ali, mas já não decide por nós.
Denunciar não desfaz o que aconteceu.
A justiça também não possui esse poder.
Nenhuma sentença devolve uma noite tranquila. Nenhuma punição apaga uma lembrança. Nenhum papel assinado consegue retirar do corpo aquilo que a memória insiste em guardar.
Mas ser ouvida importa.
Ser acreditada importa.
Ver quem causou a dor responder por ela importa.
Talvez a justiça não feche todas as feridas.
Mas pode impedir que a impunidade abra outras.
Continuei olhando aquela flor.
Uma de suas pétalas tinha uma pequena marca na extremidade. Curiosamente, foi isso que a tornou ainda mais bonita para mim.
Ela não era perfeita.
Era sobrevivente.
E então compreendi que algumas mulheres também florescem assim.
Fazem das cicatrizes, raízes.
Das lágrimas, água.
Do medo, coragem.
E da própria voz, liberdade.
Antes de ir embora, olhei mais uma vez para a flor roxa.
Ela continuava ali, imóvel, sem saber de todas as coisas que havia me feito pensar.
Sorri.
Há flores que nascem depois da tempestade.
E talvez sejam justamente essas que nos ensinem que florescer não significa nunca ter sido ferida.
Significa descobrir que a ferida não teve a última palavra.
Inspiração
Esta obra nasce também da minha própria história. Sou uma dessas mulheres que encontrou coragem para romper o silêncio, denunciar e enfrentar o medo. A flor roxa representa minha trajetória e a de tantas outras mulheres que, mesmo marcadas pela dor, descobriram que suas cicatrizes não as impedem de florescer.
Sobre a obra
A crônica parte de uma cena cotidiana e utiliza a flor roxa como metáfora de resistência e reconstrução. Com linguagem intimista, períodos curtos e contrastes entre silêncio e voz, ferida e cura, tempestade e florescimento, a narrativa transforma uma experiência de dor em reflexão sobre coragem, justiça e recomeço.
Sobre o autor
Sou uma mulher que aprendeu a romper o silêncio transformando dores em palavras. Encontrei na escrita uma forma de dar voz ao que por muito tempo foi difícil dizer. Escrever tornou-se parte do meu recomeço: um espaço onde sentimentos viram palavras, cicatrizes ganham significado e a dor pode, enfim, florescer.
Autor(a): ERIKA PATRIZIA BARROS PAIVA DE CARVALHO (Érika Paiva de Carvalho)
APCEF/AP