Naquele Dia

Naquele dia

Naquele dia eu morri. Não de verdade. De medo. Era domingo. Minha mãe morava no andar de baixo, e eu, no de cima; entre nós, uma escada que eu descia sem pensar, muitas vezes pedindo café, levando alguma notícia ou a solução para uma pequena urgência. Naquela manhã fiquei diante do computador. Abri o exame e encontrei um número alto demais. Digitei no buscador e a palavra seguinte foi câncer. Não podia ser, não com ela! Devia haver erro no laboratório, na tela. Olhei os números tantas vezes que quase esperei vê-los constrangidos, obrigados a mudar. Só que eles não mudaram. Imprimi as páginas, percorri cada linha e enviei o resultado a amigos médicos. Antes de qualquer resposta, porém, faziam uma pausa — um segundo de cuidado que dizia mais do que as palavras. Minhas mãos alisavam as folhas impressas como se procurassem nelas alguma dobra por onde escapar. Não havia. Às dez horas da manhã, aquele domingo se partiu ao meio: de um lado ficou a vida como a conhecia; do outro começou a vida que, a partir dali, precisaria aprender a viver.

Naquele dia, doeu. A dor era física, concreta, às vezes vencida por algumas horas de remédio. Já a minha não aparecia em exame. Era a dor de amar alguém e não saber o que fazer com as mãos. A casa havia se enchido de caixas, comprimidos e alarmes. Para cada sintoma, uma substância; para cada substância, um efeito; para cada efeito, outra tentativa de controle. Minha mãe sorria para demonstrar força, mas às vezes eu a encontrava olhando para lugar nenhum. O corpo tinha dores que podiam ser apontadas; as minhas não tinham bula nem horário. A doença também adoecia, à sua maneira, quem não carregava o tumor: medo, irritação, culpa, cansaço, uma tristeza que entrava até nas conversas mais banais. Perguntava “por quê?” como se uma resposta pudesse abrir um caminho de volta. Mas não abriu. O único princípio ativo para a alma era a esperança — e ela também tinha efeitos colaterais. Em alguns dias nos levantava; em outros, pesava mais que a notícia.

Naquele dia, eu não queria ver. A dor veio mais intensa e ela pediu: “Faz isso parar.” Eu já havia dado o remédio. Nós dois estávamos acostumados a uma vida em que eu resolvia as urgências: uma conta, uma lâmpada, uma compra, qualquer coisa que exigisse subir ou descer a escada. Naquele pedido havia a mesma confiança: você que sempre dá um jeito, por que não dá um jeito nisso? Pela primeira vez, meu amor não sabia o que fazer; restaram minhas palavras e minha presença, pequenas demais. Quando a dor cedeu, ela perguntou: “Filho, como que compra eutanásia?” Cobri os olhos e nem me lembro do que respondi; lembro apenas das mãos sobre o rosto, tentando conter lágrimas que já não cabiam em mim. Pensei que ela desistia da vida. Depois compreendi que talvez procurasse apenas uma saída para a dor. Naquele quarto, querer viver e querer que tudo terminasse se sentaram lado a lado. Nenhum de nós olhou diretamente para o outro. Em nossa família, a morte sempre fora recebida com um “Deus me livre”, como se as palavras tivessem o poder de aproximá-la. Passáramos a vida evitando o assunto e, quando ele finalmente entrou no quarto, não sabíamos como recebê-lo.
Naquele dia, o corpo revelou seus limites. De madrugada, ouvi minha mãe me chamar. Desci correndo a escada e a encontrei caída no banheiro, sem conseguir se levantar. As veias se escondiam das agulhas, os cabelos caíam, os passos hesitavam. Comer, gesto tão simples que quase nunca merece memória, virou enfrentamento. Segurar um garfo, cortar uma fruta, levar o alimento à boca: tudo exigia esforço. O corpo precisava estar forte para suportar o tratamento que buscava a cura, mas a cada dose era justamente esse corpo que se tornava mais frágil. Não houve um grande desabamento, mas pequenas perdas, uma por dia, discretas o suficiente para que tentássemos negá-las e numerosas demais para que conseguíssemos. Pessoas da igreja vieram orar, cantar e oferecer consolo. Minha mãe as escutava, mas seu olhar parecia procurar uma resposta além das palavras prontas. Não era ausência de fé. Era uma fé obrigada, pela primeira vez, a olhar o corpo de frente.

Naquele dia, todos nós sofremos. O médico pronunciou “paliativo” e um silêncio ocupou a sala. Eu conhecia a palavra, mas não seu peso. Perguntei quanto tempo teríamos. Poderiam ser anos, não poderiam? Ele respirou antes de responder, tentando não nos roubar a esperança nem nos oferecer uma mentira. Foi naquela pausa que o tempo mudou. Deixou de ser uma estrada à nossa frente e passou a caber em coisas pequenas: um café, uma conversa, a mão sobre a mão. O câncer não se instalara apenas no corpo dela; alterara o sono, os horários e os medos de todos nós. Cada pessoa da família procurava um jeito de permanecer de pé sem saber onde apoiar o próprio peso. Eu ainda confundia “paliativo” com desistência. Levaria tempo para entender que cuidar também era aliviar.

Naquele dia, encontramos uma esperança: um tratamento experimental. Lembro-me do papel, das páginas, das cláusulas... Minha mãe estava prestes a assinar algo que não compreendia por inteiro. Eu li cada palavra, detendo-me nos riscos, nos percentuais e nos efeitos adversos, como se, lendo com atenção suficiente, pudesse encontrar uma certeza que não estava ali. Ela confiou em mim; perguntou se era bom. Eu disse que sim, e isso bastou. O problema é que eu também não sabia. Onde estava escrito “possibilidade”, eu lia esperança; onde se alertava para novas dores, procurava algum sinal de futuro. Minha mãe segurou a caneta. Por um instante, a mão permaneceu suspensa sobre o papel, entre o medo do que viria e o desejo de continuar. Depois, assinou. Não havia promessa, apenas tentativa. E, quando o futuro se estreita, uma tentativa pode ser larga o bastante para atravessar um dia.

Naquele dia, a vida seguiu. Não houve anúncio nem milagre. Voltamos a preparar café, trabalhar e fazer planos frágeis. Minha mãe falava de viagens, melhorias na casa, peças de crochê e cura. Fazia listas de mercado, organizava o que conseguia, cuidava da vida dentro do possível. Eu acordava, descia a escada, deixava-a com os cuidadores e saía trabalhar. A doença mandava nos horários, mas nem sempre nas conversas. Entre um remédio e outro, às vezes ríamos. Eram intervalos breves, quase clandestinos. Neles, o cotidiano deixou de parecer banal. Uma fruta cortada, uma lista presa à geladeira, o novelo esperando no sofá: cada coisa dizia que ela ainda estava ali. Continuar não era negar o câncer; era impedir que ele fosse a única coisa viva naquela casa. Havia manhãs em que fazíamos planos e tardes em que não conseguíamos pensar além da próxima dose. Aprendemos a não exigir coerência dos dias. A esperança mudava de tamanho, mas ainda cabia nas manhãs.

Naquele dia, tudo parou. O tratamento já não ajudava; apenas cobrava do corpo o pouco que restava. Chamei aquilo de pausa, porque “fim” era uma palavra grande demais. Mas não era uma pausa. Os protocolos perderam a função; as decisões, antes guiadas pela expectativa, passaram a exigir lucidez. Numa consulta de emergência, já aliviada pelo anestésico, minha mãe apontou para o sino da enfermaria, tocado por quem concluía o tratamento. “Eu vou tocar aquele sino.” A médica sorriu: “Um dia a senhora vai.” Minha mãe respondeu: “Não. Eu vou tocar hoje.” A equipe se movimentou. Por alguns minutos, o corredor teve a solenidade de uma cerimônia. Minha mãe levantou a mão e tocou. O som atravessou a enfermaria e voltou das paredes, maior do que o gesto que o produzira. Quando o sino silenciou, ninguém pronunciou a palavra cura. Não era necessário.

Naquele dia, restou ter fé. Encontrei numa bolsa antiga um folheto de Santo Expedito, o santo das causas impossíveis. Que causa poderia ser mais impossível que essa? Rezei para que minha mãe ficasse mais tempo conosco. Minutos depois, refiz o pedido. Que tempo era aquele que eu queria prolongar? Quanto sofrimento eu aceitava em troca de mantê-la perto de mim? Pedi que ela não sofresse mais. Até então, minha esperança tentava dobrar a realidade. Era uma semente lançada com ansiedade, como se pudesse obrigar a terra a devolver exatamente o fruto desejado. Na segunda oração, soltei a realidade. Pela primeira vez, compreendi que também podia haver amor em parar de pedir que alguém ficasse.

Naquele dia, a vitória chegou às cinco para as quatro da manhã. O telefone tocou, desci a escada correndo e fui para o hospital. Horas antes, o médico dissera: “processo de morte”. Não consigo lembrar onde eu estava quando ouvi. Minha memória apagou o cômodo, as pessoas, o que havia sobre a mesa; guardou apenas aquelas palavras. Durante meses, vencer significara reduzir o tumor, melhorar os exames, ganhar tempo. Naquela madrugada, vitória era outra coisa: ter ficado, cuidado, amado. Minha mãe perdera força, autonomia e, por fim, a presença física. Não houve cura. Também não houve derrota.

Naquele dia, começaram os dias que me restam. O câncer não aconteceu uma única vez. Refez-se no medo, na dor, na esperança, na exaustão, na fé e, por fim, na despedida. Talvez seja por isso que eu diga “naquele dia”, embora certos dias nunca aceitem pertencer ao passado. Ficam suspensos no meio da escada, à espera de que a gente aprenda a descer. Depois do cemitério, tomei café com alguns amigos antes de voltar para casa. Não sei por que não segui direto. Lembro apenas da sensação de que já não existia lugar no mundo para onde eu pudesse voltar. Perder uma mãe é perder uma espécie de endereço, mesmo quando a casa continua no mesmo lugar. Quando cheguei, evitei o andar dela. A casa parecia maior, como se a ausência também ocupasse espaço. Por meses, o câncer fizera barulho em cada cômodo: passos, vozes, remédios, telefonemas, urgências. Agora, tudo estava quieto. Havia alívio por saber que ela não sofria mais, só que o alívio não anulava a dor; apenas se sentava ao lado dela. Subi para minha casa, mas logo precisei descer. Talvez buscasse um copo d’água, talvez nada. Parei no meio da escada e, por um instante, quase a chamei.

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Inspiração

A crônica nasceu da experiência de acompanhar minha mãe durante o tratamento de um câncer. Escrevi para transformar em palavras o medo, a esperança, o cuidado e a despedida. Também quis compreender como, diante da impossibilidade da cura, permanecer, aliviar o sofrimento e amar podem assumir outra forma de vitória.

Sobre a obra

Construí uma crônica memorialística em blocos iniciados por “Naquele dia”, acompanhando as mudanças provocadas pela doença. Usei cenas cotidianas, linguagem lírica e imagens recorrentes — sobretudo a escada, as mãos, o café e o silêncio. A escada une o início ao desfecho e representa a passagem entre presença, perda e continuidade.

Sobre o autor

Sou um artista multidisciplinar e transito pela fotografia, pelas artes visuais, pela música e pela literatura. Em diferentes linguagens, busco transformar experiências, memórias e elementos cotidianos em obras sensíveis que convidem à reflexão, à imaginação e ao encontro com o outro. Minha criação nasce do afeto e de um olhar atento para a vida.

Autor(a): FABIANO RIBEIRO (Fabiano Ribeiro)

APCEF/SC