- Página inicial
- Detalhe obra
Mani
Mani
Era manhã, e o orvalho ainda formava pequenas gotas nas folhas do Jenipapeiro. No caminho para
o igarapé, poças de água guardavam desenhos frescos de pisadas de um animal estranho.
Jaci apressou o passo de volta para a aldeia. Todos sabiam que podia ser uma onça grande, e era
perigoso ir buscar água sozinha.
Mas, ao dar meia-volta, ouviu um gemido vindo da direção das águas. E não conseguiu ir embora
sem descobrir de quem era.
Foi se aproximando devagar, com medo absurdo de pisar em alguma folha seca ou escorregar
numa poça e ser descoberta pelo bicho. Sabia que não deveria ir sozinha. Mas era teimosa, como
Aimberê, seu noivo, costumava dizer.
Imitando o passo leve dos macacos, aproximou-se ainda mais. Então viu pequenos filetes de
sangue marcando um caule.
O coração quase saiu pela boca.
Pensou se o bicho estava ferido… ou se já se alimentava.
A curiosidade venceu o medo. Deu mais alguns passos.
Até que viu.
Era sua irmã.
Araci se lavava na água rasa do igarapé.
Jaci ficou parada, sem entender.
Ela não sabia que o sangue da irmã mais nova já tinha vindo. Não sabia que já era hora da lua
chamar Araci para o tempo de resguardo. Mas aquilo parecia cedo demais. Araci ainda tinha corpo
de menina.
Não perguntou nada.
Nos olhos da irmã havia algo estranho. Uma tristeza profunda. Um silêncio pesado.
Jaci pensou que talvez fosse dor. Ajudou Araci a caminhar de volta até a oca.
Quando contou às anciãs, elas também se espantaram. Todas acreditavam que Araci ainda era
nova demais para a lua.
E assim os dias passaram.
O sangue não voltou.
Mas o corpo de Araci começou a mudar.
A barriga crescia devagar. Os seios despencavam como dois coquinhos inchados.
Araci quase não falava mais. Passava dias inteiros encolhida na rede.
Nos olhos da irmã, Jaci via um vazio enorme. Como se algo que tivesse acontecido naquele dia, na
mata, tivesse levado embora sua alma.
À noite, nas horas mais quentes, Jaci acordava com os gritos.
— Não… — Para… — Não!
As luas passaram.
O sangue nunca mais veio.
Mas Araci parecia viver num eterno resguardo.
E toda vez que Aimberê voltava da mata dizendo ter visto homens do garimpo rondando a região, o
rosto de Araci ficava verde de susto.
Aimberê tentou, muitas vezes, chamá-la para viver na rede dele.
Ela nunca aceitou.
O tempo passou.
Araci ficou uma mulher forte e robusta. E, mesmo quase não comendo, sua barriga crescia.
Até que numa noite de lua cheia ouviu-se um grito vindo da mata.
Do mesmo lugar onde, tantas luas antes, Jaci encontrara sua irmã.
Acordada de susto, Jaci correu para a floresta.
Ali encontrou Araci.
Sozinha.
De cócoras na terra.
E viu quando ela puxou de dentro de si um indiozinho que, à luz da lua, parecia sem pele de tão
branco.
Jaci ficou paralisada.
Não sabia o que dizer.
Apenas observou.
Araci puxou a corda que ainda ligava a criança a seu corpo e a lançou no rio para que os peixes a
comessem.
Depois levantou a menina nos braços.
Cheirou-a como um animal selvagem. Abraçou-a contra o peito nu.
A criança ia chorar.
Mas Araci tapou sua boca.
Cobriu-a com barro.
E levou-a em silêncio para a oca.
Jaci seguiu, com as pernas fracas.
Não entendia o que estava acontecendo.
Dentro da oca, Araci cavava a terra.
Deixou a criança deitada ao lado enquanto saiu para buscar o saraquá de fazer buraco.
Jaci aproximou-se.
Era branca.
Branca como uma ingá-branca.
Ali deitada, parecia dormir.
Jaci tocou sua mãozinha.
Estava quente.
Nesse momento Araci voltou.
Ficou parada olhando a cena.
Não disse nada.
Pegou o saraquá. Terminou de cavar a cova.
Pegou a criança nos braços e, olhando para a irmã, disse apenas:
— Mani. — Mani é o nome dela.
Colocou o pequeno corpo no centro da terra.
Cobriu-o com barro.
Jaci não acreditava no que via.
Mas, por algum motivo que a razão não explica, entendeu.
E ajudou.
Aquela noite ficou entre as duas irmãs.
Nenhuma delas voltou a falar disso.
Passou um tempo.
Da terra nasceu um talo.
Depois uma folha. Depois duas. Depois três.
Todas as noites Araci regava a plantinha com suas lágrimas.
Até que o talo cresceu alto.
Cansada de ver o sofrimento da irmã, Jaci decidiu arrancá-lo.
Araci não deixou.
As duas entraram numa briga feroz.
O povo da aldeia não entendia nada.
Até que, no meio da luta, arrancaram o talo da terra.
E grande foi a surpresa.
Debaixo dele havia uma raiz enorme.
Branca. Carnuda.
E tinha o formato de um bebê.
A raiz passou a alimentar toda a aldeia.
Foi cultivada como um milagre.
Mani havia vingado na terra.
E se tornado a mandioca.
Mani + Oca.
A casa de Mani.
A mandioca tornou-se o sustento não apenas da mãe sofrida, mas de todos os parentes e aldeias
ao redor.
Mas apenas os parentes sabiam preparar a raiz.
Uma vez, homens do garimpo roubaram parte da mandioca e tentaram plantá-la.
Cozinharam as folhas sem saber o segredo.
Fizeram maniçoba venenosa.
Nunca mais voltaram para buscar aquilo que era dos parentes.
Porque toda raiz guarda a memória da terra onde nasceu.
Inspiração
Minha inspiração veio de relatos sobre os garimpos nas regiões indígenas, os abusos sexuais vividos por essa população e o silêncio que impera sobre o tema. Muitos povos tradicionais são devastados com frequencia pela crescente zona de exploração do garimpo ilegal na amazônia.
Sobre a obra
Após alguns relatos que eu pude ouvir de pessoas indigenas sobre abusos, miscigenação e exploração sexual eu resolvi escrever esse conto e logo após fiz uma longa viagem para a região do parque Nacional da Serra do Divisor e aldeia Puyanawa no interior do Acre e presenciei a dificuldade da população indígena e dos povos ribeirinhos.
Sobre o autor
Eu me chamo Vanessa, sou escritora amadora. Já há algum tempo venho participando do talentos Fenae, me desenvolvendo através de cursos de iniciativa pessoal e atualmente também sou academica de psicologia. Escrever para mim é mais que um hobbie, é uma necessidade de usar minha escrita para dar voz a quem necessita. Que a voz desse povo seja lida!
Autor(a): VANESSA MARIA BORGES DA SILVA (Vanessa Borges)
APCEF/AC
Essa obra já recebeu votos de 1 pessoas
Essa obra já recebeu 5 votos (com peso)
Vote nesta obra
Entre com sua conta para dar uma nota de 5 a 10.
O voto pelo Facebook será liberado em breve. Você já pode votar com o Login Fenae.