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Manoel e Carolina
Manoel e Carolina
Tomei a liberdade
De contar meias verdades
Reinventando a história de amor
Do casal com o qual tenho consanguínea intimidade
Para dar pitacos e pitada ficcional
Com minha imaginação sem freio e irreal.
Por isso, aqui vai uma advertência ao leitor
Essa não é uma épica história conturbada de amor
De querer e não querer
Como a de Cleópatra e Marco Antônio
Que o cinema, ao longo dos anos, tem contado e recontado
Também não é a história de um amor perigoso e arriscado
De relações sociais distanciado
Como o de Mônica e Eduardo
Do centro cerrado
É algo bem mais simples de ser contado
É o tipo de amor suave que qualquer solitário romântico
Sonha ter acordado
Destes de uma vida inteira partilhada
Com todos os momentos bons e ruins
Com a fidelidade dos pinguins
Juntos até o fim.
É o amor que nasce naturalmente
Sem ser plantado
Do encontro inesperado
Mas que já estava pelas cartas determinado
1923
A recessão pós primeira guerra mundial
Atinge toda a Europa meridional
Especialmente Portugal
Impulsionando os europeus a um novo
Redescobrimento do país continente de Cabral
Sem trabalho
O jovem Manoel
Passava horas de bobeira
No cais da sua cidade natal em Madeira
Observando o tráfego intenso dos navios que partiam em busca de novos eldorados
Até que...um dia...
Ele sentiu seu destino traçado
Ao deparar-se com o grande navio Lady Madeleine ancorado.
A guerra destroçou com fogo e estupidez
As terras do seu povo pacato português
Muitas famílias experimentaram de fato
As tragédias do fado
Através da prematura viuvez
Mas Manoel trazia correndo nas veias
Mas que um sangue burguês
Tinha herdado dos pais valores que lhe davam muito mais altivez
Da mãe, Maria das Graças, a fé em Nossa Senhora das Mercêdes
E do pai, Joaquim Clodoaldo, o ofício da maçonaria
De construir tudo com perfeição e solidez
Para Manoel, estas características peculiares foram suficientes para ser aprovado no recrutamento dos Judeus comerciantes, que lideravam esse navio expedicionário para a terra Brasilis.
Essa derradeira parada em Portugal
Antes de cruzarem o atlântico, tinha a finalidade de preencher a última vaga para mestre-de-obras.
A Nau
Como uma nova arca de Noé do conhecimento
Tinha passado por Porto Príncipe e Guiné Bissau
Para armazenar mais mudas de cacau
Para serem plantadas no País Tropical.
Havia no galeão
Gente de toda qualificação
Especialistas ingleses em ferrovias
Professores franceses
Ourives espanhóis
Chefs de cozinha árabes
Pintores, escultores e padres passionistas italianos
E outros muitos de alhures
Atraídos pelos rumores
De terras férteis
Onde poderiam ser os Senhores.
Manoel colocou em sua maleta de couro
Todo o seu tesouro
Esquadro, nível, régua, colher e compasso
Amarrou tudo com fé e corda de sisal em um forte laço
E pós em cima, para seu futuro proteger
A pequena imagem, que sua mãe lhe deu, de Nossa Senhora das Mercêdes
E o presente do pai, com as lembranças vívidas das palavras ditas, que tornava tudo mais valioso
Ao entregar um azulejo, retratando uma cena típica familiar portuguesa, pintado à mão
Joaquim apertou firme a dele e disse:
- Filho, quando tiveres vosso lar
Nas novas terras d’além mar
Quero que ponhas
Em algum lugar
Como forma de recordares
Do nosso afeto e proteção por ti.
E assim, viram seu filho amado partir.
Após exaustivas semanas de viagens
Onde Manoel contemplou o mar virar oceano
E depois virar mar novamente
Em território brasileiro, a primeira parada de Lady Madeleine foi em Sergipe
Onde desembarcaram alguns Holandeses com destino a Pernambuco, para reviverem o passado progressista e extrativista de Nassau
Assim, dando lugar no gigante naval
Para embarcar, os primos sergipanos de Fêlix Severino do Amor Divino
Que foram atraídos pelas cartas alegres do primo
Cheias de novidades das terras do sem-fim
Escritas como se fossem cordéis de Minervino
Queriam, assim, nadar também nesse oásis de riqueza, sem precisar pular do trampolim.
Em meio a essa agitação dos que desembarcavam e embarcavam as malas das charretes de frete, puxadas por negros corcéis
Manoel, do alto do convés
Viu dois sóis no firmamento
Um que brilhava no céu azul, sem nuvens, aquecendo o cajueiro ao lado da estação da alfândega
E um outro sol vindo a bordo
Caminhando sobre o tombadilho
Que fez seu coração descarrilhar
Como trem que sai dos trilhos
Era Carolina
Gerando o instantâneo calor do primeiro amor
Para ele, a visão da Deusa Ísis
Turvando de emoção a sua íris.
Ela trazia consigo
Os traços ancestrais
E os dons sobrenaturais
De sua bisavó cigana Margarida Romanov
O cabelo negro anelado sedoso
Amarrado em um coque volumoso
A pele cabocla
Os olhos meio chineses apertados
Provocado pelo sorriso farto provocante
Tudo isso harmonicamente acomodado no corpo pequeno e esguio
Adornado pelo vestido branco de linho
Que brilhava como orvalho no moinho
Derretendo o Portuguesinho
Como o efeito das lembranças
Da neve se esvaindo
Após intensas nevascas
No inverno rigoroso da Península dos Patrícios.
Ele logo descobriu que o destino dela era visitar os parentes em Ilhéus
E que havia algo a mais que explicava aquele ar dela misterioso
Como de odalisca com múltiplos véus
Lhe disseram que ela herdou da bisavó o poder da premonição
Então, só por diversão
E lógico, também pela atração
Ele se apresentou e pediu a Ela uma sessão
Sua fé lusitana
Não permitia acreditar
Em premonições de cigana
Mas a paixão
Derrubou barreiras
E acendeu a pequena chama.
Nas sucessivas vezes em que os encontros aconteceram
Um complô
Se formou nas cartas do tarot
Para dizer a eles que, dos dois o destino se apoderou
O Sol deixava claro que nasceram um para o outro
Mas não os convencia
O Papa surgia
E mesmo dando a benção
Também não os unia
Então o Cavaleiro trazia a galope a Imperatriz
E ela determinava
Você tem que com ela ser feliz
Não adiantava
Manoel parecia não enxergar o que estava à frente de seu nariz
E, por fim, pra não deixar dúvidas
Os Enamorados deram a última cartada
Manoel deu risada
- Não estou entendendo nada
- Num dia, quando pergunto se terei prosperidade. Você me diz que elas mostram com alguém felicidade.
- Noutro dia, quando pergunto se vou voltar ou se permaneço. Você me diz que elas mostram um romântico começo.
- E, em outro, quando pergunto até se amanhã vai chover ou fazer bom tempo. Você me diz que elas dizem que o tempo é de casamento!
- Casar com quem?
- Só se for com você.
As cartas e Carolina disseram sim
E assim, um mês depois de chegarem a Ilhéus
Casaram-se na Igreja Colonial Matriz de São Jorge
E deu-se a mistura do sagrado com o profano
Nessa terra em que se misturou todas as paletas do tabu
Amarelo, Branco e Negro
Tabule com angu
Strogonoff com caruru.
Como trabalho não faltava para Manoel
Naquela cidade desenvolvimentista portuária
Que já foi capitania hereditária
Ele pretendia se estabelecer
Mas a visita de um coronel
Mudou novamente seu céu
Tendo sabido das suas habilidades
Com pedras, argamassas, pisos e arremates
O Coronel/ Comendador Firmino Alves
Veio do recém-emancipado Arraial de Tabocas
Lhe oferecer uma proposta tentadora
Fazer parte da história edificadora de Itabuna.
Para tomar a decisão
Ele fez uma oração
E Carolina, às cartas a indagação
Houve em ambos os meios a aprovação
Durante quase um ano
Carolina ficou com os parentes em Ilhéus
E Manoel ficou indo e vindo
Entre as duas cidades
Enquanto construía, nas terras grapiúnas, casas residenciais, comerciais e o seu casarão.
Fevereiro de 1924
Finalmente, em uma manhã quente, mais ainda sem o efeito estufa dos nossos dias
Bem no centro da nova cidade
A casa estava pronta com janelas e portas abertas, para esperar o objeto que faltava para se tornar um lar.
Carolina chegou de trem no primeiro horário
Trazendo o azulejo português, que agora era a tampa de um estojo de carvalho
Onde Ela guardava as cartas do baralho
Trazia com o cuidado de quem manuseia um relicário.
Era segunda-feira de Carnaval
E a Filarmônica Lyra Popular
Abandonou o coreto da praça da prefeitura para acompanhar
Carolina e Manoel na inauguração do casarão.
A alegria chegou e se apoderou da sólida construção.
Outros novos habitantes também chegaram
Rodolfo, o filhote de gato preto, porque para Carolina, bicho de estimação não tem cor
Nem superstição, tem amor
E tudo na casa germinou:
O pequeno pé de caramboleiro plantado no quintal
A roseira constantemente visitada pela borboleta e pelo pardal
E os filhos
Que foram chegando, ano a ano, resultado da benção conjugal
A primeira a nascer
Era tão frágil e pequenina
Que Carolina viu logo os trejeitos da bisavó indiana
E a batizou como Margarida
Mas, na segunda, ela foi surpreendida
Nasceu uma outra menina tão grande e alva
Que ela não teve dúvidas, pôs o nome de Marinalva
Na terceira menina, foi Manoel quem homenageou
Ao observar que Maria, como sua mãe, nasceu amiga do silêncio
Nem chorou
Na quarta gestação, o parto deu-se com tanta rapidez
Que quando Manoel ainda estava preparando a metade da temperada
Mercedes já havia concluído a chegada
E dormia sossegada, no colo de Calú, depois de amamentada
No quinto nascimento surgiu uma menina roliça e traquina
De olhos abertos e atentos para a descoberta do novo mundo
Como o navio que fez eles colidirem as rotas
E por isso, eles deram a ela o nome de Madeline.
Mas para ímpar virar par
Na sexta vez, deu-se para os dois o pleno contentamento
O varão chegou com traços tão marcantes do avô
Que Manoel de sua intuição, não duvidou
Sendo para ele, o pai Joaquim, o primeiro e insubstituível
Com o nome de Clodoaldo, o filho batizou.
Assim, entre um filho e outro, permaneceram também os carnavais
Semanas antes da festa profana
Todo ano, Carolina multiplicava seu talento de modista em penas, paetês, agulha e carretel, para criar um novo visual para
Jovens piratas que nunca tinham visto o mar
Moçoilas baianas que não sabiam cozinhar
Bailarinas que na ponta não conseguiam ficar, dos pés
Arlequins aymorés
Pierrôs alegres demais para chorar
E Colombinas adolescentes que ainda nem tinham tanta beleza para mostrar
Todos saiam, no sábado pela manhã, sambando animados do casarão, levados pelas marchinhas da Euterpe Itabunense até a Praça Olinto Leone
Onde o trompetista soprava mais forte o trombone
Para celebrar o cerimonial do Prefeito entregando a chave da cidade ao seu Grande Clone
O Rei Momo
O Clóvis
O “Clown”, dono da alegria.
A festa na rua acabava na quarta-feira
Mas, a alegria parecia não ter fim, na casa da costureira
De manhã cedo, Carolina dava em Manoel, um último retoque no nó da gravata e uma ajeitada no paletó
E ele saia em contrição para receber as cinzas em cruz da absolvição, na Capela de São José.
Carolina, então, iniciava a faxina
Para retirar os restos de confetes e serpentinas
Molhava o esfregão em água e sabão na tina
E começava a cantarolar baixinho o refrão da última canção de Pixinguinha.
Rodolfo, o negro gato, se enroscava no esfregão
Achando divertido o vai e vem da dança de Carolina limpando o chão.
E assim, os anos passavam leves ali como se a felicidade tivesse realmente encontrado o aconchego do lugar certo para morar.
Mas...
O destino, como indeciso trovador
Que as vezes canta a alegria
E as vezes canta a dor
Tudo mudou
Quando o cabalístico número sete chegou
O casal foi surpreendido com a inesperada gestação do sétimo filho
E, quando pensavam ser uma agradável chegança
Ao sentenciar a parteira num pré-natal que seria um menino a nova criança
Decidiram que Clóvis seria o nome apropriado.
Mas, Dionísio, o Deus Grego do Teatro, ficou enciumado, por não ter sido homenageado e fechou as cortinas do sétimo ato, antes que o novo integrante da família viesse ao palco da vida.
Num tempo em que se curava tudo com um escalda pé
Uma pitada de rapé
Chá de gergelim ou alecrim
Unguento
Xarope e elixir
E que, a parteira era quem recepcionava, no lugar do médico, o rebento
Dona Otaciana Pinto foi chamada às pressas, por causa das fortes contrações de Carolina, antes do tempo.
Quando a parteira chegou no portão
Rodolfo se eriçou como porco espinho e se escondeu no porão
Parecendo pressentir a tragédia Shakespeariana
Clóvis não estreou nessa encenação
Ficou com sua atuação adiada para uma outra geração.
Mas o que, nem Dionísio esperava é que suas atitudes inconsequentes levassem também Carolina para uma outra dimensão.
Foi uma desolação
Não só no casarão, mas em toda a região
A medida em que a dupla notícia fúnebre foi se espalhando
Os parentes, os muitos compadres e comadres foram chegando e o féretro teve a imensa multidão de gente de toda qualificação e religião
Inclusive com um acolhedor sermão
Do pastor da Igreja Presbiteriana que ficava em frente ao casarão.
Os músicos da Euterpe, enfileirados com seus instrumentos inertes, marchavam respeitosamente em silêncio
A única exceção foi o clarinete
Que ia à frente do cortejo, com suas doloridas notas musicais em falsete.
Manoel ficou sem Carolina
Como Pierrot sem Colombina
Tempos difíceis de enlutada sobriedade e prematura responsabilidade
Marcaram para sempre os jovens órfãos do casarão
Os anos foram passando e Manoel dividia seus sentimentos entre
A saudade do seu Sol
E a preocupação em cuidar da formação e da educação dos filhos.
Do alto do olimpo, Zeus buscava uma solução para reatar aquele amor tão raro e verdadeiro, interrompido por um ato irresponsável de um semideus. E, como para os Deuses, um punhado de décadas é como um décimo de um átomo.
Em um dia cósmico, Zeus percebendo que os filhos maiores de Manoel já poderiam cuidar dos menores, deu ordem a Lua que se encontrasse com o Sol, para que, na escuridão, se fizesse a mutação espiritual do Português.
E assim se fez
Dezembro de 1954
Estava um dia de céu límpido, como o daquele que Manoel viu Carolina pela primeira vez
Quando, de repente, tudo se desfez
E como se o tempo tivesses perdido a lucidez
Uma penumbra soturna, pouco a pouco, foi fechando o céu
Como uma cortina ao final do último ato
O começo do eclipse solar
Fez calar até as cigarras no quintal
A mancha negra celestial
A partir do casarão foi se alastrando por todo o quarteirão
De forma que, em segundos
Do Cine Plaza até a mercearia de Seu Zé
Não se enxergava mais um palmo à frente do próprio pé
E quando o carrilhão da Capela de São José
Ressoou as doze badaladas
O galo, pensando que era novamente madrugada
Quando a claridade voltou
De novo cantou
Anunciando o nascimento da outra metade do dia
Depois da meia-noite do meio-dia
E também a alma de Manoel que partia.
Margarida, a filha mais velha e adulta, estava na sede das Bandeirantes, quando, num súbito instante, pressentiu que o dia não era mais o mesmo, e um aperto no coração sinalizou a urgência em retornar ao casarão.
Então, saiu apressada, com a passada curta dos pequenos pés, que não ajudava.
Quando, finalmente chegou em casa e pôs a chave no encaixe do trinco e girou a aldrava
Encontrou o nada
Aquela conhecida ausência do quente
Que qualquer um que já perdeu um ente
Sabe identificar perfeitamente
Deparou-se com o silêncio da Torre sem o Gentil
O corpo vazio
Manoel partiu.
Inspiração
Manoel e Carolina foram meus avós que não conheci , ouvi histórias esparsas contadas por minha mãe e minhas tias então resolvi mesclar na crônica ficção e realidade
Sobre a obra
Esta crônica Manoel e Carolina é uma homenagem a meus avós , com ficção baseada em alguns fatos reais e faz parte do meu segundo livro lançado em 2025 , que está a venda na Amazon, eu costumo classifica minhas crônicas como crônicas poéticas em prosa e verso
Sobre o autor
Eu escrevo, desenho e pinto desde sempre e somente agora em recentes anos resolvi tirar das gavetas minhas criações
Autor(a): GERVASIO CARDOSO PEREIRA JUNIOR (Geo Cardoso)
APCEF/BA