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Opinião LTDA, segundo Olívia Cravo
Opinião LTDA, segundo Olívia Cravo
Às duas e dezessete da tarde de uma terça-feira de abril de 1980, Olívia Cravo descobriu que algumas pessoas podem entrar na nossa vida sem nunca terem estado diante de nós. Naquele dia, porém, ela não sabia disso.
Procurava os resultados do vestibular de ninguém específico. Não sabia exatamente que horas o resultado seria anunciado. Queria apenas ouvir se os nomes lhe seriam familiares, filhos de amigos, parentes, alguém que pudesse fazer parte da vida de conhecidos. O rádio ficava em cima da geladeira, entre um pote de açúcar e uma imagem de Nossa Senhora que perdera havia muito tempo a cor original. Era um aparelho antigo, de madeira escura, com um botão que precisava ser girado devagar para que as estações não desaparecessem num chiado.
Olívia girou o botão procurando a frequência que anunciaria o listão dos aprovados. Encontrou música. Girou outra vez. Um homem anunciava o preço de um automóvel. Mais um pouco. Chiado.
Então ouviu uma voz masculina, segura, quase sorridente.
Alô, moçada! Eu sou Santiago Reis e está no ar o Opinião LTDA, o programa em que você liga pra nos contar algo sobre a sua vida e pede aos ouvintes um conselho, uma opinião. Microfones abertos logo após o break. Esse programa é um oferecimento do Café Sem Filtro, assim como esse programa. Lembrando que nenhum ponto de vista é absoluto. Afinal, todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto.
Uma vinheta do patrocinador entrou no ar. Depois a do programa, com metais alegres. Olívia ia girar o botão quando ouviu o telefone do estúdio tocar.
— Alô? Quem está falando?
— Daniel.
— Daniel, meu amigo, o que te traz hoje ao programa?
Houve um silêncio.
— Eu acho que o meu problema é que eu não consigo socializar. Não sei fazer amizades, nunca namorei. No trabalho eu cumprimento as pessoas por mera formalidade e me fecho no meu mundo. É isso... tenho dificuldade em socializar.
Olívia parou a mão sobre o botão.
O locutor brincou que ele estava conversando naquele momento, mas Daniel explicou que era diferente porque não estava vendo quem estava do outro lado. A partir daí, contou que tinha medo de decepcionar as pessoas. Pensava se estavam gostando dele, se falava demais ou de menos. Às vezes alguém lhe contava alguma coisa e ele passava o resto do dia imaginando qual teria sido a resposta certa. Tinha medo de decepcionar as pessoas e por isso as evitava.
Santiago fez algumas perguntas. Quis saber se aquilo acontecia apenas com desconhecidos, se também acontecia no trabalho, entre amigos. Daniel respondeu que principalmente no trabalho, mas também com os amigos. Fazia um esforço enorme para que gostassem dele. O problema era que, de tanto tentar agradar, às vezes já não sabia se estava sendo ele mesmo. E fazia tanto esforço para estar presente que a única coisa que sente é vontade de sair de perto. Era um custo de energia muito grande.
Santiago perguntou por que não tentava simplesmente ser quem era.
Daniel demorou a responder.
Talvez porque tivesse medo de não agradar. Talvez porque não soubesse ao certo quem era quando não estava tentando agradar alguém.
Olívia se aproximou do rádio e lhe veio uma memória: aos quinze anos, passara uma tarde diante do espelho tentando descobrir qual expressão parecia mais simpática. Ensaiara sorrisos, respostas, maneiras de sentar. Tinha aprendido cedo que havia pessoas que entravam numa sala naturalmente, como se tivessem sido convidadas, e outras que precisavam descobrir primeiro onde colocar as mãos.
Ela tinha sido uma dessas.
No rádio, o telefone tocou. Era uma mulher que disse ser carência e frescura, porque ninguém se importa. Um homem opinou que o que lhe faltava era mulher.
Olívia desligou o aparelho horrorizada. Ficou alguns segundos olhando para ele, pensando em como as pessoas podiam ser cruéis quando não precisavam olhar para o rosto de quem julgavam.
No dia seguinte, lembrou do programa e ligou o rádio. O programa queria ouvir os “sócios”, como o locutor se referia aos ouvintes que ligavam para julgar quem precisava de ajuda, não de lição de moral. Dessa vez, uma moça trabalhava numa loja e se sentia inferior à colega, a quem se referia como mais bonita, mais rápida e mais segura. Santiago e ela conversaram e em seguida ele abriu as linhas. As opiniões vieram depressa, como sempre vinham quando o problema era de outra pessoa. Havia quem aconselhasse competição, quem falasse em inveja, quem dissesse que era preciso trabalhar mais.
Olívia esperou alguns minutos antes de ligar. Estava com vergonha e pensou em fazer anonimamente. Resolveu dizer que se chamava Helena, de Belo Horizonte, e preparou uma voz diferente, com sotaque mineiro.
— Cê já pensou que talvez ela nem precise aprender a vencer a colega? Pra que esse trem, né? O negócio é se espelhar nela e tentar fazer o seu melhor. Cada uma tem o seu potencial, uai. Trabalhar junto, nesse trem de colaboração, é muito melhor do que ficar competindo. Se essa moça te causa algum incômodo, fica amiga dela, pega dicas, mira em quem faz. Não sofre com isso não. Pega esse incômodo e se transforma no que você quer ser. Não sei se tô conseguindo explicar...
Houve uma pequena pausa.
— Está, sim. Interessante ponto de vista. Obrigada, Helena, pela sua valiosa participação.
Olívia desligou o telefone com uma sensação estranha, quase esquecida: a de ter sido ouvida. É filha de uma relação extraconjugal. Do pai não tem notícias. A mãe cumpriu o papel material, mas esqueceu do afeto. Era fria, indiferente. Foi uma criança hiper vigilante, porque quem devia ser fonte de segurança era imprevisível, não confiável. Ela duvidava de si mesma, sempre ansiosa, com expectativa de defesa do próximo perigo, porque teve que aprender a se defender do mundo sozinha. Dessa vez, alguém parou para ouvi-la.
No estúdio, Santiago ficou alguns segundos olhando para o telefone antes de chamar a próxima ligação. Acreditava ter sido a primeira ligação “doce”, acolhedora com a dor do ouvinte.
Nunca mais Helena telefonou para o programa. Curiosamente, outras mulheres apareceram. Nomes, vozes e sotaques diferentes. Mas Santiago percebeu alguma coisa em comum entre elas. Não julgavam, não desdenhavam da história.
Num programa, uma mulher contou que se sentia sozinha dentro da própria casa. Tinha marido, filhos, rotina, jantares e uma televisão sempre ligada, mas quase nunca alguém realmente perguntava como ela estava. Parecia que servia à família. Era uma criada sem salário. Sua ausência era sentida quando precisavam dela. E ela servia, pois era a única maneira de conseguir aceitação. Abria mão das próprias necessidades em função dos outros e ficava incomodada quando não reparavam no que ela fazia por eles. Olívia ouviu a história e respondeu que não valia a pena abdicar de si. Isso jamais será entendido como egoísmo. Esperar gratidão de onde não vem pode trazer ressentimento e desgaste, ou mesmo desenvolver dependência. Ela será mais útil ensinando como eles devem cuidar de si mesmos. Futuramente os filhos poderiam achar que eram manipulados, que a mãe um dia cobraria o preço e eles se sentiriam culpados.
Em outra tarde, uma moça comparava a própria vida às atrizes das fotografias das revistas. Olívia lembrou que revista era vitrine e que ninguém colocava na vitrine aquilo que queria esconder.
Depois veio o caso de um homem desempregado havia três anos. Havia quem o chamasse de acomodado, quem recomendasse que aceitasse qualquer trabalho, quem perguntasse por que não se esforçava mais. Olívia esperou a vez e disse apenas que, às vezes, a pessoa não estava acomodada. Estava cansada de fracassar.
Santiago encantado com as respostas e os conselhos de Olívia, continuava a fazer mais perguntas, não queria encerrar a ligação. No início, porque aquelas conversas eram boas para a audiência. Depois, porque queria ouvir as respostas. Na terceira semana, começou a esperar. Entendeu que havia um padrão nas ligações e eram a mesma pessoa.
Às duas da tarde, olhava para o relógio. Às duas e vinte, perguntava à produção se havia alguém na linha. Às duas e meia, fingia não estar interessado. Às três, quando a voz dela finalmente aparecia, sua atenção mudava de lugar.
Sempre havia outro nome. Outro sotaque. Outra voz.
Uma tarde, ela não ligou.
Santiago errou duas vezes durante o programa. Na primeira, chamou uma música pelo nome errado. Na segunda, esqueceu o nome de uma rua que conhecia havia anos.
Naquela noite, porém, quando chegou em casa, abriu a gaveta onde guardava as anotações do programa. Havia folhas demais: frases, perguntas, nomes, horários. Entre elas, encontrou uma página em que havia escrito, sem perceber: ELA.
Olívia também começara a esperar a hora do programa. Era ridículo, pensava. Esperava a voz de um homem que nunca tinha visto. Sabia o jeito como ele fazia uma pausa antes de discordar. Sabia quando estava cansado. Sabia quando alguma coisa o atingia. Começava a reconhecer mudanças pequenas demais para serem percebidas por quem apenas ouvia a voz de um locutor.
Santiago passou a reconhecer as ligações antes mesmo que ela dissesse o nome. Havia uma pausa muito pequena antes das palavras, como se ela desse ao pensamento a oportunidade de chegar primeiro. Enquanto isso, a vida de Santiago continuava existindo fora do rádio. Havia uma mulher em casa. Havia jantares, contas, domingos. Havia uma fotografia antiga sobre a estante, tirada numa viagem em que os dois sorriam diante de uma paisagem que nenhum deles comentava mais.
Não era uma relação infeliz.
Era uma relação que havia deixado de fazer perguntas.
Santiago percebeu isso graças a uma desconhecida.
Certa noite, sua mulher perguntou se havia alguma coisa que ele queria falar. Fazia algum tempo que notava uma mudança nele. Aquele homem falante havia se tornado mais contemplativo, às vezes distante, como se uma parte dele permanecesse em algum lugar onde ela não conseguia alcançá-lo. Ele não soube explicar.
Em vez disso, perguntou:
— Você ainda me ama?
Ela demorou tanto para responder que Santiago entendeu antes da resposta. Não insistiu.
Naquela noite, dormiram de costas um para o outro. Santiago permaneceu acordado, pensando numa voz que talvez nem existisse fora do rádio.
Um mês depois, aconteceu uma coisa que mudou tudo. A ligação entrou tarde. A voz estava diferente, mais baixa. Ela pediu licença para falar de uma coisa que não tinha nada a ver com o assunto do dia. Santiago permitiu.
— Eu acho que você está triste.
Ele ficou imóvel. No estúdio, ninguém falou. Santiago perguntou por que ela achava aquilo.
— Porque você anda fazendo perguntas que não faria antes.
Ele quis saber se aquilo era ruim.
— Não. Talvez esteja sendo difícil. Não sei se me fiz entender...
Ela desligou. Santiago ficou olhando para o telefone. “Não sei se me fiz entender.” Era sempre assim. Ela nunca dizia “obrigada pela oportunidade de falar” ou “obrigada por me deixar dar minha opinião”. Dizia “Não sei se me fiz entender”.
Naquela noite, escreveu a frase numa folha separada. Não sabia exatamente por que aquela frase o incomodava tanto. Talvez porque, depois de tantos anos falando no rádio, tivesse começado a perceber a diferença entre dar espaço para alguém falar e realmente ouvir o que essa pessoa estava dizendo. Ele ansiava por encontrá-la. Não por mera curiosidade. Essa era a mentira que contava para si mesmo. Queria encontrá-la porque precisava saber se a pessoa que existia fora do rádio seria capaz de existir também dentro dele. Não sabia se era bonita. Não sabia sua idade, onde morava, se era casada. Não sabia sequer seu nome verdadeiro. Mas sabia que, quando ela falava, ele respirava de outra maneira. Sabia que algumas frases permaneciam na cabeça por dias. Começara a contar coisas a ela sem que ela tivesse perguntado.
Santiago começava a desconfiar de que havia se apaixonado pelo modo como alguém pensava. O encontro aconteceu por acaso. Ou pelo tipo de acaso que, depois que acontece, parece ter sido preparado durante meses. A Rádio Horizonte participou de um evento na cidade, um show promovido pela Prefeitura de Novo Horizonte em comemoração à festa da Padroeira, Nossa Senhora Intercessora. Santiago foi escalado para trabalhar. Olívia foi assistir ao show e viu o estande da rádio. Nem imaginava que Santiago estaria entrevistando pessoas. Queria pegar de brinde o Café Sem Filtro, que estava sendo distribuído. Santiago entrevistava aleatoriamente pessoas e perguntou a ela:
— Está gostando do evento?
Ela sentiu o sangue se sair do corpo. Era ele! Reconheceu a voz imediatamente.
— Ouvi as pessoas falando que está ótima... Não que eu esteja achando ruim, mas não tive tempo de avaliar. Acabei de chegar... Não sei se estou conseguindo explicar...
Foi então.
Aquela frase. A mesma pausa. A mesma maneira delicada de deixar uma ideia inacabada antes de saber se o outro havia entendido.
Santiago sentiu o coração bater como se tivesse cometido uma imprudência. Estava ao vivo!
— Vamos para um rápido intervalo comercial!
— Meu Deus. É você! Todas elas?
— Todas.
— Você tem noção do quanto eu esperei por você?
Ela deu de ombros, quase divertida.
— Eu não sabia que estava sendo procurada.
Santiago olhou para ela.
Havia tantas coisas que queria perguntar que, pela primeira vez, não encontrou uma pergunta adequada.
Então disse:
— Eu acho que me apaixonei por você antes de saber seu nome.
Olívia arregalou os olhos.
— Isso é uma coisa muito estranha de dizer para uma mulher. E você nem me conhece.
— Conheço uma parte.
Ela sorriu.
— A pior parte?
— A parte que pensa.
Olívia baixou os olhos por um instante. Talvez fosse a primeira vez que alguém lhe dissesse aquilo sem querer corrigi-la, melhorá-la ou explicar o que ela deveria pensar. Santiago percebeu que era exatamente aquela voz que havia procurado. Pegou seu brinde, sorriu e saiu.
Na segunda-feira, o programa começou como sempre: a vinheta tocou, Santiago colocou os fones.
— Boa tarde, minha gente.
A voz parecia diferente.
— Alô, moçada! Eu sou Santiago Reis e está no ar o Opinião LTDA.
Fez uma pausa.
A produção o observou.
— E hoje eu gostaria de começar de uma maneira um pouco diferente.
Santiago olhou para o telefone antes de continuar.
— Antes de dar opinião sobre a vida de alguém, talvez seja bom lembrar que a gente nunca sabe o que é morar dentro da vida do outro.
O telefone tocou. Ele atendeu.
— Opinião LTDA. Com quem eu falo?
— Pode me chamar de Olívia.
Ele sorriu. Reconheceu a voz. Conhecia o rosto e agora sabia o nome.
— E o que você nos traz hoje, Olívia?
— É sobre se apaixonar pela voz de alguém sem conhecer a pessoa de perto. Ansiar por ouvi-lo todos os dias. Isso é arriscado ou vale o investimento?
Silêncio. Break.
A produção disse que ela deixou um telefone de contato. O programa continuou. As linhas acenderam. O mundo voltou a oferecer suas certezas. Mas, naquela tarde, entre uma opinião e outra, Santiago percebeu que havia coisas que não precisavam de opinião. Algumas precisavam apenas de tempo, de coragem. E de duas pessoas dispostas a permanecer na linha.
Inspiração
A história faz parte do livro O Diário de Olívia Cravo. Apesar de se passar em 1980, os dilemas da história continuam muito reconhecíveis hoje. O que mudou foi o lugar onde as pessoas dão opinião: Nas redes sociais. É a ironia do título: todo mundo tem capital para investir em dar opinião rasa, mas quase ninguém responde pelo prejuízo.
Sobre a obra
O programa de rádio Opinião LTDA pode funcionar como uma espécie de microcosmo da sociedade. Ouvintes trazem uma dor real, mas recebem de volta aquele desfile de opiniões prontas e julgamentos rasos. Até que uma mulher anônima começa a ligar diariamente para o programa, trazendo uma perspectiva mais humana, encantando o locutor.
Sobre o autor
Sou uma alma inquieta, vocacionada para artes plásticas e escrita. Tenho um livro publicado, Transformando o Medo em Emoções positivas e O Diário de Olívia Cravo está no forninho. Já escrevi crônicas para revistas físicas e eletrônicas no meu Estado. É a segunda vez que participo com crônica do Talentos FENAE.
Autor(a): CARLA BIANCA BARBOSA PRADO (Carla Prado)
APCEF/AL