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A menina que busca Esperança
Era uma vez a terra de Aridália, onde o chão é rachado e as folhas são secas. Lá, vive Maria com as filhas Luzia, de dez anos, e Lídia, de um ano. O pai, João, partiu há mais de um ano para a cidade Esperança procurar trabalho e não voltou. Nem viu a caçula nascer. Luzia é pequena e magra, pele escura e cabelos crespos, com olhos vibrantes cheios de vigor.
Nimbia, a deusa que mandava água para o povo dessas terras, se irritou com os humanos. Os rios secaram. A chuva parou de cair. Sem água, Maria perdeu as vacas, sustento da família. Maria e as filhas passaram fome e sede.
Luzia então sonha com Nimbia chamando por ela. Sabia que tinha de partir, e deixou uma carta para a mãe:
“Mamãe, Nimbia me chamou no sonho. Ela vai me dar a água.”
Com uma pequena trouxa e o boneco de madeira que o pai talhou – que lembra um menino vestido de vaqueiro – a menina iniciou sua jornada, sem imaginar os perigos que vai encontrar.
Luzia já não sabia quanto tempo se passou desde que saiu de casa. A água era pouca, mas ela sempre achava pequenas fontes pelo caminho, só o suficiente para acabar com a sede. Ela chega em uma placa, que tem a palavra “Esperança” nela, em frente a uma bifurcação com dois caminhos.
Um sabiá pousou em cima da placa. Penas de ouro e olhos feitos de água. Seu canto virou palavras:
- O caminho conhecido guarda a luz segura, mas o colorido brilha para esconder o escuro.
O sabiá sumiu no céu. A menina vê, ao longe, uma cidade com construções cinzentas e uma fonte enorme jorrando água. Sabia que era para lá que deveria ir. Mas não sabe que caminho tomar, já que ambos levavam até essa cidade. O caminho da direita é triste como a terra de onde ela partiu. O da esquerda tem árvores e brilhos coloridos. Encantada com as cores, a menina escolheu a esquerda.
Luzia andava no caminho, até perceber um desvio que levava até uma casa feita de galhos belos e folhas muito verdes. Uma moça jovem, de pele macia e bem tratada, com cabelos verdes e olhos rosas a recebeu. Havia crianças brincando no jardim e muita comida na mesa do jardim. A moça ofereceu comida e água e pediu que ela ficasse.
A menina quase ficou, chegou a sentar à mesa para comer. Até ver seu boneco mexer o dedo como se dizendo “não”. Assustada, Luzia caiu da cadeira. A moça tentou tocar a menina, mas o boneco ganhou vida e tentou protegê-la. A moça disse:
- Una-se a mim e terá tudo do bom e do melhor!
Depois, revelou sua forma real: uma bruxa feita de galhos velhos, olhos vermelhos e cabelos de folhas secas, conhecida como Verduína.
A casa murchou e as crianças viraram raízes que sustentavam o corpo da bruxa. O boneco puxou Luzia para fora. Verduína os perseguiu, mas ao cruzarem o portão, a bruxa e a casa voltaram ao normal.
Luzia correu chorando. Se acalmou e conversou com o boneco. Ele sabia o que os aguardava na jornada, e disse que aquilo foi só o começo. Por conta da bravura do boneco, Luzia o chamou de Valentinho.
Luzia e seu novo amigo seguiam o caminho cantando, admirando tantas flores coloridas. Logo avistaram uma cidade com muitas cores vibrantes. Entraram na cidade e viram pessoas andando sem parar. As casas e os carros eram coloridos também. Luzia ficou encantada com tudo aquilo, mas Valentinho não. A menina tentava conversar com as pessoas na rua, mas todas a ignoravam. Todos na cidade tinham placas na roupa que deviam conter o nome deles, mas estavam em branco.
No centro da cidade, havia um homem discursando: o prefeito Benevoldo. Sendo a única pessoa na cidade que fala e que tem o nome na placa da roupa, Luzia foi na direção dele e perguntou por que ninguém falava com ela. Ele disse:
- Em Plenacor, a felicidade começa quando o nome acaba. Desista do seu nome e eu falo por você.
O boneco percebeu que algo estava errado e tentou puxar Luzia para irem embora, mas ela estava presa por fios de marionete, assim como todo o povo. Os fios vinham dos dedos do prefeito, que se revelou um monstro parecendo uma lesma, com apenas um olho e braços espalhados por todo o corpo, chamado de Marionarca. Os fios estavam sugando a pele das pessoas presas e logo as transformaram em pó, enquanto o monstro crescia.
Valentinho conseguiu libertar apenas Luzia, cortando os fios. O Marionarca seguiu a dupla por um longo caminho, mas parou de repente um pouco à frente de uma cidade totalmente branca. Assim que a dupla entrou na cidade, o monstro voltou para Plenacor.
Ao entrar na cidade, Luzia e Valentinho perceberam que as pessoas, as casas, as ruas e tudo mais na cidade eram brancos. No meio da cidade, as letras com o nome: “Claralva”. O povo da cidade correu para suas casas assim que percebeu a dupla. Uma mulher apareceu na janela e tentou jogar pó em Luzia, mas Valentinho a protegeu. Logo, várias janelas se abriram e o povo foi jogando o pó branco na dupla. Todos gritavam ao mesmo tempo:
- Branco é perfeição! Toda cor deve sumir!
Os portões da cidade se fecharam e o chão se abriu. Um monstro de gesso branco emergiu do buraco: o Gessomante. Tinha um formato humanoide, mas sem rosto, apenas um boneco de 3 metros sem expressão. Ele avançou na direção da menina, mas o boneco se jogou na frente dele e os dois caíram no buraco. O monstro se despedaçou e o pó dele caiu em cima do boneco, que ficou branco e imóvel.
O povo continuava gritando a mesma frase e o monstro ia juntando seus pedaços. Luzia chorou muito, pensou em desistir, até lembrar da mãe e da irmã. Então ela pula no buraco, agarra o boneco e usa os pedaços do monstro quebrado para escalar o buraco e conseguir sair da cidade. Sem uma perna e um braço, o Gessomante volta a perseguir ela, mas Luzia não tinha mais medo. O portão estava se fechando enquanto o monstro juntava seus pedaços, mas ela foi mais rápida e saiu, sem perceber que suas pernas começavam a ficar brancas depois do contato com o Gessomante.
Luzia encostou Valentinho, sem vida, em uma pedra. Chorou muito ao ver que estava ficando branca como o povo de Claralva. Acabou dormindo de tristeza e sonhou com a família reunida. Ela acordou com o boneco chamando por ela, agora cheio de vida. Ele disse que, quando ele voltou ao normal, a menina brilhava e o branco nela havia sumido, assim como o dele. O sonho que ela teve a deu força e a fez se lembrar do motivo de ter começado essa jornada. Renovados, seguiram para seu último destino: a terra das torres cinzentas.
Caminharam por horas. Não encontravam mais água no caminho. As cores sumiram também. Tudo começava a ficar em tons neutros, assim como as torres cinzentas que cresciam no horizonte cada vez que se aproximavam. Exausta, Luzia chegou às portas de ferro da cidade, junto com seu amigo. Ao lado, um guarda em uma guarita fala através de muitas máquinas. Ela pediu água, mas ele só fez perguntas sem lógica. Mas quando ela monstrou a foto da família, ele passou a foto em uma máquina que brilhou e abriu o portão. Valentinho ficou desconfiado com a atitude do guarda, mas seguiu junto com Luzia entrando na cidade.
Na cidade grande e cinzenta de Esperança, Luzia e Valentinho ficaram espantados com tantas máquinas de todo lado e tanta gente passando. A menina, com muita sede, correu até a fonte, que jorrava água mais de cinco metros para cima. Mas deu de cara com criaturas que pareciam gente, mas tinham o corpo feito de ferro, parafusos e engrenagens. A expressão de seus rostos era triste e todos estavam acorrentados ao chão. Em conjunto, eles disseram:
- Aqui não passará, água só se pagar.
Eles avançaram e Valentinho percebeu que o motivo do guarda ter liberado a entrada da menina foi para ela ser acorrentada assim como eles. Ele fala a Luzia que eles não são mais humanos, são apenas máquinas que servem à cidade para mantê-la viva.
Na cidade, todos carregavam garrafas de água, mas não bebiam, apenas trocavam por outros objetos. Eles eram construtos de ferro igual os guardas, acorrentados ao chão. As correntes e o chão se moviam juntos, como se tudo estivesse vivo. Desesperada, Luzia pediu água a uma moça, que disse:
- Para água tomar, o boneco precisa me dar.
Valentinho não ligou de fazer o que a moça queria, desde que Luzia pudesse beber água. Mas a menina lembrou da jornada e desistiu do acordo, escolhendo o boneco. A moça começou a gritar igual uma sirene, com a boca totalmente aberta em pânico. Os guardas vieram e ela apontou o dedo para a dupla, que mesmo correndo, não conseguiram fugir. Foram capturados e jogados em uma caixa de ferro com pernas de aranha, onde não enxergavam mais nada, apenas ouvir os passos da caixa.
Quando a estranha caixa se abriu, Luzia e Valentinho perceberam que estavam em uma sala enorme, reluzente, banhada a ouro. No centro tinha uma mesa retangular gigante de ouro maciço, com vinte e uma pessoas vestindo roupas e usando máscaras, todos dourados. Na parte da boca, tinha um pequeno megafone de cada lado da máscara. As cadeiras altas, de dourado reluzente.
Luzia estava assustada e abraçou Valentinho, que se preparava para protegê-la. O mascarado sentado na cadeira do centro, a mais alta, se levantou e apontou para uma pilastra no meio da sala. Dela saíam as correntes que prendiam todos da cidade no chão. Com uma voz tão alta que fez Luzia tampar os ouvidos, anunciou:
- Atenção aos que estão aqui sentados, pelo Conselho Dourado a menina e o boneco serão julgados.
A menina olhou para trás e viu que havia um corredor quase infinito, cheio de cadeiras de concreto, onde todo o povo da cidade se sentava para assistir ao julgamento. Cada palavra que o mascarado falava, sua voz estrondosa machucava os ouvidos de Luzia. Ele acusou a dupla de conspirar contra a cidade, porque Luzia desistiu de uma transação já feita. A menina chorava, tentava argumentar, mas era ignorada. Depois de ouvir tanto a voz do mascarado, lembrou que já tinha ouvido aquela voz antes.
O mascarado finalmente anunciou a sentença. Luzia seria presa em uma caixa de ferro junto com as outras crianças, até ter 18 anos com idade para servir à cidade. E Valentinho seria destruído. A menina parou de chorar. Ela demonstrou alegria e gritou:
- Papai!
As correntes tremeram como se a cidade inteira tivesse sentido o impacto. O mascarado que julgava teve sua máscara rachada na testa. Ele se levantou furioso e gritou que, por falar uma palavra proibida, Luzia receberia a mesma punição que o boneco. Ela então gritou de novo:
- Eu senti tanta saudade!
A máscara dele agora se partiu abaixo dos olhos. Os guardas seguraram a menina e Valentinho lutava para não ser jogado dentro de uma sacola. A menina gritou novamente:
- Mamãe todos os dias chora na janela te esperando.
Então, mais uma rachadura aparece, na parte do nariz. O boneco parou de se debater assim que olhou para Luzia. Ela olhava fixamente para o mascarado. Algo estava diferente: lágrimas escorriam pelas rachaduras. Com a voz baixa e humana, ele disse:
- Minha filha...
Aí, a máscara se quebrou. E a estrutura do prédio começou a tremer.
João arrancou a roupa dourada, revelando suas roupas que usava na roça. Ao tentar alcançar Luzia, percebeu que ainda estava preso à corrente. Os outros mascarados o agarraram e o rosto de João começou a ser coberto por uma nova máscara. Luzia tentou correr até ele, mas Valentinho a impediu, segurando suas mãos. A luz que já havia aparecido antes toma conta dos dois, apagando todo o dourado da sala e revelando que tudo era de concreto cinzento. Quando a luz diminuiu, João estava livre e logo foi abraçar a filha e o boneco que ele fizera algum tempo atrás. Os construtos e os mascarados na sala caíram no chão, como se tivessem desmaiado, deixando o caminho livre.
Os três conseguiram fugir da cidade vazia, já que o todos que moravam nela estavam caídos no salão. Ao passar os portões da cidade, perceberam o terror que a cidade representava: as pessoas eram puxadas pelas correntes e se juntavam ao chão e às construções, formando um monstro gigante de concreto feito da própria cidade, o Concretor. As máscaras douradas dos outros mascarados apareceram no rosto do monstro. Ele ganhou pernas e começou a persegui-los.
A fonte era a única parte intacta que não se juntou ao monstro. O trio correu até lá. João e Valentinho haviam perdido as esperanças, mas Luzia sorriu. Ela finalmente entendeu o que o sabiá dourado quis dizer quando o encontrou no início de sua jornada. Segurou a mão dos dois e começou a brilhar, passando a luz para eles. O Concretor gritava, com o barulho ensurdecedor das máscaras, mas a luz protegia o trio. Aos poucos, o monstro foi se enfraquecendo.
O sabiá dourado apareceu e pousou próximo a fonte, dizendo:
- O que se perdeu no escuro, voltou a brilhar. Agora, as águas voltam a tocar o céu.
A fonte se quebrou, revelando Nimbia. Uma mulher de grande beleza, feita de água, com cabelos escorrendo como rios e pele translúcida. Seus olhos dourados brilhavam com a mesma luz que Luzia carregava.
Ela toca Luzia e deixa a luz ainda mais intensa. O Concretor foi apagado, assim como todo o caminho por onde a dupla passou durante a jornada, revelando a terra seca igual Aridália. Perceberam que estavam novamente na placa com a palavra “Esperança” e enfim puderam revelar alegria por estarem juntos e terem encontrado Nimbia.
O sabiá dourado tomou forma humana, transformando-se em um cocheiro elegante vestindo dourado, com longos cabelos azuis e um chapéu que lembrava o bico de um sabiá. Nimbia sorriu para Luzia, dizendo:
- Luzia, eu me fechei porque o mundo me feriu. Mas você me mostrou que ainda existe luz nos humanos. Por isso, a água volta a viver.
Ela pediu que todos subissem na carruagem, que voou pelo céu e criava nuvem por onde passava, derramando água sobre as terras secas. O povo de Aridália comemorava a chuva tão esperada e a tristeza que dominava essas terras começou a desaparecer. Lá de cima, na carruagem, Luzia viu sua casa e sua mãe enchendo baldes com a água da chuva.
A carruagem pousou diante da casa. Maria largou os baldes e correu para abraçar a filha. Luzia correu até ela e a abraçou com força. João desceu da carruagem e Maria foi buscar a pequena Lídia, que João ainda não conhecia. A família se abraçou e Luzia puxou Valentinho para o abraço, pois já o considerava como parte da família. Eles ficaram ali por longos minutos se abraçando, sob a chuva que tanto pediram.
Então, a família foi se despedir de Nimbia, que deu a eles um equipamento capaz de gerar água e tornar a terra fértil novamente. Pediu que João criasse outras máquinas desse tipo e compartilhasse esse conhecimento com outras famílias, para que não mais sofressem com a sede.
Para Valentinho, Nimbia revela que ele ganhou o maior presente que poderia ter: a vida. A madeira usada para criá-lo foi banhada pelas lágrimas de Nimbia e era mágica, por isso ganhou vida.
Para Luzia, Nimbia deu um presente especial: um colar com uma semente de luz, que representas a coragem dela, para guiar quem precisa.
A família se despediu de Nimbia e do cocheiro, que partiu levando chuva às terras secas. Todos entraram em casa e passaram horas conversando sobre as aventuras da dupla.
Inspiração
Acredito que os contos de fadas permitem transmitir temas sérios de forma leve, usando críticas sociais disfarçadas em personagens infantis e monstros caricatos. A inspiração do conto foi o sertão nordestino e a seca que faz seu povo sofrer, mostrando a luta do povo para sobreviver e seguir em busca de uma vida melhor.
Sobre a obra
Criei um conto de fadas em uma terra árida que mistura fantasia e crítica social. Usei símbolos como luz, chuva e cidades coloridas para representar desafios reais. Trabalhei ritmo, emoção e imaginação na jornada de Luzia. As criaturas criei para materializar as críticas sociais que desejo transmitir, mantendo o tom de fábula.
Sobre o autor
Sou formado em Produção Multimídia e atuo em diversas expressões criativas. Trabalho com artesanato, desenho, escrita, cosplay e arte digital envolvendo games, animação e 3D. Crio personagens desde a ideia inicial até sua versão final, explorando diferentes mídias para dar vida às minhas histórias
Autor(a): ANTONIO MIGUEL MACEDO FIGUEIREDO (MMario Artes)
APCEF/BA