Diferenças de caixa

Diferenças de caixa

Corria o ano de 1986 na bela cidade de Jussara, interior de Goiás. Naquela prazerosa tarde, funcionários da Caixa Econômica Federal e do Banco do Estado de Goiás se reuniram no Bar do Didi para jogar conversa fora e fazer uma boa resenha. As conversas fluíam alegres e mudavam de rumo num piscar de olhos: falava-se de futebol, política municipal, das moças bonitas e da primeira greve da categoria bancária no município.

Pra variar, o assunto desaguou na rotina bancária e no maior terror dos guichês: o fechamento de caixa. Naquela época, a bateria de atendimento contava com muitos funcionários, pois toda operação era manual. Não existiam cartões, salas de autoatendimento, internet banking ou PIX, facilidades modernas que hoje resolvem nossas contas num clique.

Foi quando o Carlão, colega do banco estatal, compartilhou uma história fantástica sobre um desfalque ocorrido em seu posto num "dia de pique". Era a data em que os fazendeiros de Jussara, Santa Fé, Itapirapuã e região recebiam os créditos de um laticínio local.

Ao fim do expediente, exausto após autenticar calhamaços de documentos e atender uma multidão, ele se deparou com um rombo no fechamento. Recontou as cédulas, conferiu os comprovantes de entrada e saída, verificou as autenticações novamente, revisou papéis e nada. Nessas horas de desespero, um par de olhos extra é sempre bem-vindo. Um companheiro solidário aproximou-se para ajudar e logo descobriu o erro: uma guia de retirada paga a maior para um cliente que morava em uma fazenda a 20 quilômetros dali.

Com o aval do gerente, o valor foi lançado provisoriamente em "Faltas de caixa". A expectativa era solucionar a pendência contábil assim que o produtor rural retornasse à agência. Contudo, os dias passavam e o homem não aparecia. Naquele tempo, sem celular ou telefone rural, o único canal de comunicação com os sítios era o leiteiro da região. Ele levou inúmeros recados do nosso apreensivo caixa executivo, mas o prazo dado pela gerência estourou e a cobrança tornou-se urgente.

A solução veio de forma inusitada numa sexta-feira à noite. Carlão conseguiu carona no carro da funerária local, que levaria um falecido para o sepultamento na mesma região onde morava o cliente devedor. O problema é que o trajeto era de terra batida e uma tempestade desabou, fazendo o veículo atolar no meio do nada. O motorista e o irmão do falecido saíram a pé em busca de socorro em uma propriedade vizinha, deixando o diligente bancário completamente sozinho com o defunto.

A chuva era torrencial. A noite, um breu só, cortada por raios e trovões estrondosos. Apavorado com a escuridão e com medo de assombração, Carlão acendia a lanterna de tempos em tempos e espiava o caixão. No meio daquele sufoco, jurava para si mesmo: "Carona em rabecão, nunca mais! Erro de caixa, nunca mais!"

Muitas horas depois, um trator finalmente resgatou o automóvel e a viagem prosseguiu ao amanhecer. No fim, a odisseia teve um desfecho positivo. O finado recebeu um sepultamento digno de sua família, o bancário resolveu a pendência financeira com o fazendeiro e todos retornaram em paz. Sobrou apenas aquela maravilhosa história que arrancou gargalhadas de toda a mesa no Bar do Didi na bela cidade de Jussara.

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Inspiração

A minha inspiração para escrever esta crônica "Diferenças de caixa" foi porque gosto de ouvir, ler, escrever e contar histórias bem-humoradas.

Sobre a obra

A minha crônica partiu de uma história contada por um amigo, há muitos anos, sobre uma diferença de caixa ocorrida em seu guichê num dia de muito movimentado na agência e que teve um desfecho muito engraçado.

Sobre o autor

Sou aposentado da CAIXA e sempre gostei de ler crônicas e, por isso, tenho procurado escrever algumas histórias bem-humoradas sobre as várias situações vivenciadas por mim ao longo de minha vida.

Autor(a): SAULO MACEDO FREITAS (Saulo Macedo Freitas)

APCEF/GO


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