O Que Não Se Vê nas Redes Sociais

O Que Não Se Vê nas Redes Sociais
Não faz muito tempo, alguém, em uma postagem, reclamava de um dos programas do governo que distribui renda para as pessoas menos favorecidas, acusando-o pelo fato de não se conseguirem mais trabalhadores para tarefas como carpir um quintal, trabalhar como empregada doméstica ou babá.
Há uma percepção dessas dificuldades, mas não creio que seja por conta de um programa social; talvez se deva às expectativas das pessoas de se instruírem mais, tentarem uma colocação melhor, trilharem novos caminhos.
É bem verdade que, ao longo dos anos na CAIXA, já vi situações estranhas: por exemplo, mães que tentaram sacar o seguro-desemprego do filho que, naquele momento, se encontrava trabalhando — e não podiam sacar o valor. Ou ainda os revoltados porque perderam o direito ao abono do PIS, pelo fato de terem assinado a carteira de trabalho e agora não se enquadrarem no programa, por ganharem mais.
Sobre o tal benefício social, sempre defendi a sua existência, mas com a ressalva de que talvez o cadastro não seja muito criterioso na seleção das famílias. Poderia listar algumas observações sobre esses cadastros e sobre alguns beneficiados que, numa breve análise, não deveriam receber; mas vou me ater ao fato e contar sobre um episódio ocorrido há alguns meses.
Próximo à minha cidade, no Sul do Espírito Santo, existe outra cidade menor, que dista cerca de 20 quilômetros — pouco mais de 30 minutos de carro. Pois uma senhora idosa tentou sacar seu benefício na sala de autoatendimento da agência e, por falta de habilidade ou conhecimento, o tempo expirou e o equipamento recolheu o numerário.
O desespero tomou conta daquela senhora. A situação me foi relatada, e eu disse ao caixa que me abordou, que existia um protocolo a ser seguido: teríamos de aguardar 48 horas para verificar se ocorreria o estorno automático, se o valor retornaria à conta e estaria disponível para ser sacado novamente em outro momento. O colega não havia detalhado a ocorrência; não tive contato com a cliente — apenas me relataram o fato — e dei a resposta padrão para situações similares.
Passados os dois dias do prazo, a senhora retornou à agência para sacar o valor. O caixa me abordou novamente; eu lhe disse que iria fazer as verificações e o eventual batimento do numerário, aos costumes, e que seria prudente avisar à senhora que o valor seria creditado e que ela não precisava aguardar. Ela preferiu aguardar e levar o dinheiro em mãos: algo em torno de seiscentos reais.
Procedi conforme o protocolo, conferi o numerário e, de fato, sobrou o valor. Orientei o caixa para que efetuasse o pagamento, recolhesse a assinatura e fizesse a identificação, tal como manda o regulamento. Ele assim fez.
Foi a partir daí que a história tomou um rumo diferente, que me deixou profundamente comovido e entristecido. O colega caixa, visivelmente abatido, me contou que a senhora havia saído de sua cidade ainda de madrugada, acompanhada da neta — que não devia ter mais do que uns três aninhos — e viera a pé, caminhando para evitar o sol, por mais de quatro horas e meia, só para receber o seu benefício.
Meus olhos se encheram de lágrimas quando o colega acrescentou que a senhora lhe agradeceu, dizendo que agora poderia pegar um ônibus de volta para casa. Não a vi pessoalmente, nem à menina, mas pude imaginar aquela cena e me indaguei: em que ponto perdemos a sensibilidade de enxergar as pessoas, suas angústias e suas reais necessidades? Se eu soubesse da sua situação, teria sido o primeiro a oferecer-lhe auxílio para que voltasse com tranquilidade e viesse buscar o dinheiro em outro dia. Sim, é de se supor que, se fez todo esse trajeto a pé, provavelmente também tenha voltado a pé dois dias antes.
Por isso, quando ouço alguém afirmar que o programa social tornou as pessoas acomodadas, com preguiça de trabalhar, é a essa lembrança que me reporto. Não se pode julgar o programa como ruim apenas porque alguns o usam de maneira indevida — e no meu entorno já ouvi frases como “peça ao seu irmão para me levar para sacar o dinheiro do benefício, senão não vai ter cerveja hoje”, nem porque se sabe que, em épocas passadas, esposas de vereadores foram cadastradas indevidamente. Não mesmo. Existem milhares de senhoras idosas que percorrem caminhos longos e difíceis para receber recursos tão modestos, mas que para elas representam dignidade e garantia de comida na mesa.
Me revolta o ponto em que chegamos. Existe a necessidade, existem os programas, e existem os críticos que, do conforto de suas casas e por meio das redes sociais, despejam comentários levianos e sem verificação, movidos apenas por questões ideológicas e partidárias que em nada contribuem. Lamento que tenhamos perdido a capacidade de nos importarmos de verdade, de enxergarmos além das aparências, de ler nas entrelinhas para atender bem a quem precisa — missão que nosso trabalho, na CAIXA, exige no trato com o público, no atendimento social, a verdadeira razão de existirmos como instituição.
Que possamos recuperar essa virtude esquecida: a de olhar o outro com atenção, de perceber que por trás de cada pedido existe uma história, um esforço, uma vida inteira. Que antes de apontarmos falhas e criticarmos o que não conhecemos, possamos nos colocar no lugar de quem caminha horas a pé com uma criança pela mão, só para garantir o sustento. Que o programa seja aperfeiçoado, sim — merece toda a crítica construtiva —, mas que não se confunda a imperfeição do sistema com a dignidade de quem dele depende. Que, ao final, sejamos menos juízes e mais empáticos e colaborativos. É justo e necessário.

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Inspiração

Um ocorrência na agência onde trabalho.

Sobre a obra

Um relato da longa caminhada a pé, de uma idosa e uma criança de uns 3 anos, por logas 4 horas e meia para receber um benefício social de pouco mais de seiscentos reais.

Sobre o autor

Empregado CAIXA há 37 anos, participo no Talentos desde 2019 e ouso escrever e compor. Longe de ser virtuoso ou um erudito, aproveito a oportunidade para observar a reação dos colegas.

Autor(a): ALEXANDRE GONCALVES PEREIRA (Alexandre Gope)

APCEF/ES


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