Mulher é assim

Disseram que mulher é assim:
bonita, jovem, sexy, magra,
Maternal, guerreira,
Dócil, disponível.

Então apertamos a cintura,
calçamos o salto que machuca os pés.
Enfiamos a calcinha no rego
e seguimos o dia,
como se o incômodo fosse parte
da anatomia feminina.

Passamos creme para apagar o tempo,
maquiagem para esconder a face cansada,
Usamos roupas para desenhar o corpo.
E quando finalmente nos olhamos no espelho,
já não sabemos dizer o que é escolha
e o que foi ensinado.

Chamaram de cuidado
o que muitas vezes era cobrança.
Chamaram de vaidade
o que também era medo.

Medo de envelhecer.
Medo de engordar.
Medo de não agradar.
Medo de deixar de ser desejada.

E nós aprendemos!

Aprendemos tão bem
que passamos a ensinar umas às outras.
E assim, sem perceber,
uma mulher aperta a outra
com a mesma régua
que um dia apertou sua própria garganta.

Nos ensinaram que mulher
tem que performar.
Uma personagem perfeita!
E ai daquela que esquece o roteiro!
E o mais estranho
é que chamamos isso de normal.

Normal cortar a própria carne.
Normal deformar os próprios ossos.
Normal passar por cima dos próprios limites.
Normal diminuir a própria existência
para caber na expectativa dos outros.

Mas eu comecei a desconfiar
desse tal “normal”.
Talvez eu não precise
Representar os diversos papéis
Da mulher ideal.

Talvez eu só precise
ser eu.

Sem personagem. Sem manual.
Sem pedir licença para envelhecer.
Sem transformar sofrimento
em requisito de beleza.

Porque agora eu sei:
não é normal
viver desconfortável
para parecer aceitável.

E eu não quero mais
ser uma mulher perfeita.
Quero ser uma mulher inteira.

E, se isso incomodar,
talvez o desconforto
finalmente
não precise ser meu.

Compartilhe essa obra

Inspiração

Minha inspiração veio de situações que, como mulher, fui aprendendo a considerar normais. Comecei a perceber que muitas dessas situações envolviam desconforto, cobrança e a necessidade de corresponder a uma expectativa. Em que momento o que deveria ser uma escolha vira uma obrigação?

Sobre a obra

Procurei trazer para este poema elementos da poesia de protesto e, principalmente, provocar um certo desconforto no leitor.
O tema central é a "violência invisível contra a mulher", presente nos padrões e nas expectativas que a sociedade impõe sobre nossos corpos, nossa aparência e nosso comportamento.

Sobre o autor

Sou uma alma inquieta guiada pela curiosidade. Adoro aprender, por isto não consigo escolher uma caixinha só para morar. Escrevo para dar ordem ao caos de tudo o que me encanta no mundo.

Autor(a): GICELI DEMUNER DE SOUZA (Giceli)

APCEF/ES


Essa obra já recebeu votos de 0 pessoas

Essa obra já recebeu 0 votos (com peso)