Talentos Fenae/Apcef

NOVE DEGRAUS

NOVE DEGRAUS

Na véspera do meu aniversário de 50 anos, uma dor lancinante atravessou meu corpo.

Acho que parir um filho dói menos. Havia meses eu reclamava de uma dor na lombar que descia pela perna direita. Como praticava musculação, intensifiquei os exercícios — e o problema só piorou. Aconselharam-me a fazer hidroginástica. Não adiantou. A hérnia de disco estourou, e durante muito tempo eu não conseguia sequer subir uma escada.

Convivendo com a dor, percebi o quanto Teresina era uma cidade sem acessibilidade. Parecia que, aonde quer que eu fosse, havia uma escada — ou pelo menos alguns degraus — no caminho.

Para completar, eu estava construindo uma casa de dois andares, realizando o antigo sonho de ter um quarto com varanda no piso superior. De repente, esse sonho parecia inviável. Mas a obra mal começara, e ainda teríamos alguns meses até a conclusão.

Um dia, conversando sobre o assunto com o arquiteto, ele me disse que estava seguindo todas as normas da construção civil, com cada um dos dois patamares da escada contendo apenas nove degraus, que é o permitido. Pensei positivamente e toquei a obra.

Foi então que começou uma história que me acompanha até hoje: passei a contar degraus. Mentalmente, claro.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove! Conto muitas vezes por dia, subindo e descendo as escadas de casa. Tudo certo. Certo mesmo?

Acontece que passei a contar os degraus de todos os lugares por onde ando. Conto na subida, conto na descida e ainda faço inferências sobre o projeto, principalmente em prédios modernos.

Muitas vezes, deixo o elevador de lado só para subir pela escada e conferir quantos degraus há de um patamar ao outro.

Nas viagens a cidades históricas, conto os degraus intermináveis das escadarias e dos prédios, de um patamar ao outro. E posso garantir: quase nunca são apenas nove!

Já tentei parar, mas a contagem é involuntária. Quinze anos se passaram, e continuo contando os degraus por onde ando. Talvez cada número seja uma pequena mensagem ao meu corpo: um, dois, três... você vai conseguir!

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Inspiração

Comecei a escrever crônicas há alguns anos para participar do Talentos Fenae, tendo sido reconhecida no âmbito estadual em algumas edições. Continuo a escrever, tentando melhorar a cada nova edição do certame e já estou preparando um livro de crônicas e poesias.

Sobre a obra

Escrevo crônicas sobre fatos da minha vida, geralmente pitorescos, e observações do cotidiano. São narrativas e escritas em primeira pessoa.

Sobre o autor

Sou uma mulher de 65 anos que tem a mente inquieta. Depois da aposentadoria tenho me arriscado a escrever, bordar, pintar em vidros, aquarelas e até costurar roupas! A fotografia já é uma atividade mais longeva, foi a minha introdução no mundo das artes.

Autor(a): EDILENE MARIA MOURA FACUNDES (EDILENE FACUNDES)

APCEF/PI