Processo S2

Processo S2
— Detento número 378.554, Luiz. Coloque as mãos entre as grades para ser algemado. Temos uma intimação em seu nome.
Após serem postas as algemas, o senhor, agora calvo e bem magro, se afasta, aguardando novas ordens.
Obedientemente, ele dá três passos para trás, ficando encostado no fundo da solitária.
Resignado, aguarda os guardas abrirem a porta e anda lentamente entre os homens e mulheres armados naquele lugar.
Dirigem-se ao banheiro, onde assistem indiferentes à sua higienização.
Banho, barba e escovação de dentes.
Ele veste o uniforme de saída, coloca os grilhões nos pés e troca as algemas. Diante do refeitório vazio, come uma ração diária conforme as recomendações médicas.
Já não é o homem de 30 anos que entrou ali.
Ele é conduzido até a zona de embarque, acompanhado por seu advogado.
"Bem, a palavra é 'levado'." Ele pensa com um sorriso de desilusão.
Levado para tomar sol.
Levado para o médico.
Levado para audiências, para as sessões de quimioterapia e para... Um dia, será levado pela última vez. Para então descansar novamente, dessa vez definitivamente.
Ele entra no transporte, com o suporte dos guardas. Sente o balançar do carro, mas já não reconhece a cidade. Onde antes havia praças, agora só há os malditos estacionamentos e arranha-céus.
No entanto, o paço municipal permanece o mesmo, como se também estivesse condenado como ele a ser congelado no tempo. Não era nada imponente. Não era nada moderno. Era apenas um caixote enfiado entre prédios de uma arquitetura que ele já não reconhecia.
Ele foi retirado do carro e levado (novamente) para dentro do tribunal.
Não era uma audiência de apelação, nem uma tentativa vã de reduzir sua pena perpétua. Era um novo processo, movido por sua ex-esposa e sua filha.
Indiferente, ele ouviu o advogado. Desiludido, assinou a intimação. Ele, tão obsoleto quanto aquela caneta e tão esquecido pelo mundo quanto a tampinha que a acompanhou desde a fábrica até... Sim, ele não passava de uma tampinha de caneta.
Enquanto andava pelo tribunal, via as pessoas usando novas tecnologias, via funcionários de cabelos coloridos e até mesmo muitos que não pareciam ter idade suficiente para comprar cerveja, quem diria protocolar processos e passar em concursos.
Foi levado à sala de guarda, enquanto seu advogado cumprimentava outros doutores. Foi deixado ali, sob os olhares de dois guardas do tribunal.
— Posso coçar o nariz?
Tantos anos se passaram que se tornou automático pedir.
— Pode.
Ele coça o nariz e começa a refletir sobre os barulhos do tribunal. Saltos sobre o concreto queimado, grampeadores, computadores e conversas.
Ele pensa em quanto sofreu durante sua reclusão. Quanto sofreu nas mãos de homens cruéis, com ou sem uniforme. Mas a maior de todas as violências ocorreu naquele ambiente asséptico. Com o mesmo cheiro de pinho misturado com perfumes caros.
Uma acusação, um julgamento e uma prisão. Surra perpétua, agressão contínua, violência imortal.
E agora, depois de tantos anos (quantos, mesmo ele não sabia), depois de ser levado tantas vezes para a solitária, para o hospital... levado muito além do desespero, surge um novo processo.
Uma luz se acende, os guardas se levantam e ordenam que ele se levante. A guardete abre a porta, pela qual ele passa e avista a sala de audiência.
Vazia, como era de se esperar. Devido às muitas implicações de seu caso, ele nunca era visto. Devido à comoção pública, ele deixou de ser notícia. Devido a... Ele evita pensar naquilo. Revoltar-se sempre foi cansativo.
Ele já estava sem esperança, além do vale do desespero. Era uma queda livre em um poço sem fundo, uma falta de sensação. Seria assim que os mergulhadores e astronautas se sentiam? Oprimidos e desesperançados, ainda com ar, mas sabendo que nunca alcançariam a atmosfera?
Ele escuta e responde aos chamados da juíza. Senta onde lhe é ordenado. Tenta olhar nos olhos dos presentes: sua ex-esposa, sua ex-filha, seu futuro ex-advogado.
— Senhor Luiz? — Chama o advogado.
— Desculpe! Pode repetir, por favor?
— Ficou registrado que o senhor esteve preso nos últimos anos, correto?
— Sim, nos últimos vinte e cinco anos.
— E consta que durante esse período, devido à sua periculosidade, o senhor não pôde receber visitas.
— Correto.
— Sendo assim, podemos afirmar que o senhor esteve ausente de suas responsabilidades familiares desde que sua filha tinha quantos anos?
— Minha prisão ocorreu em seu aniversário de sete anos.
— E desde então, o senhor não manteve contato com ela?
— Não pude.
— O senhor se recusou ou foi impedido?
— Está nos termos de minha sentença.
— Portanto, o senhor não tem conhecimento de que sua filha passou por uma cirurgia de apendicite aos dez anos?
— Não, senhor.
— Nem de que ela foi reprovada no sétimo ano em geografia?
— Também não.
— O senhor teria meios de saber que ela abandonou os estudos por conta de uma gravidez, trabalhou em uma lanchonete para se sustentar e, eventualmente, conseguiu se formar após prestar vestibular?
— Infelizmente, não.
— Então o senhor pode afirmar que não tinha conhecimento dos esforços diários que ela enfrentou para obter uma educação após se tornar mãe e, eventualmente, se formar com honras?
— Posso, sim.
— E por que o senhor não esteve presente durante todos esses anos?
— Porque eu estava cumprindo pena em regime de isolamento.
— O senhor recebeu alguma correspondência dela?
— Não, senhor. Não me foi permitido.
— Então o senhor também não sabe que ela sempre lhe escreveu, mesmo sabendo que suas cartas nunca seriam entregues?
Nesse momento, o advogado atravessa o pequeno espaço que os separa e coloca, diante de um Luiz atônito, um pacote de cartas devolvidas ao remetente.
— Eu...
— O senhor tem consciência de que dia é hoje?
Com os olhos marejados, Luiz tenta concentrar sua atenção, ora nas cartas, ora no advogado, e na mulher sentada ao lado da cadeira vazia.
— Senhor Luiz, você sabe que dia é hoje?
— Não, não sei.
— Meritíssima, minha cliente deseja que, diante do abandono que ela sofreu como filha, o senhor Luiz seja apresentado às provas e tome conhecimento delas.
Surpreendentemente, a juíza autoriza a abertura do primeiro envelope.
Olhar para o papel colorido, com as garatujas e as letras de uma criança em alfabetização dói mais que o câncer que o consome. Mais que os anos que escaparam por entre seus dedos.
"PAPAI! VOLTA LOGO! ESTOU COM SAUDADES! TE AMO PARA SEMPRE!"
Com a devida autorização, ele abre outro envelope, e outro... até que percebe que suas lágrimas estão borrando a tinta.
— Meritíssima, dada a situação financeira insuficiente do Senhor Luiz e a natureza sigilosa de seu processo e prisão, minha cliente solicita que a punição pelo abandono parental seja mitigada.
— Quais são os termos da proposta? — pergunta a juíza.
— Ela gostaria de fazer uma declaração, após o senhor Luiz responder apenas mais uma pergunta.
— Pode fazer a pergunta.
— Senhor Luiz, durante esses vinte e cinco anos, o senhor entrou com recursos e apelações, solicitou revisões e buscou apoio humanitário para sair da prisão, para receber visitas e para transferir sua pena para um regime menos rigoroso. No total, foram vinte e oito processos, todos negados integralmente. O senhor estava ciente de que sua ex-esposa e, após atingir a maioridade, sua filha entraram com um processo quase todos os meses para tentar visitá-lo?
Já em lágrimas, Luiz apenas balança a cabeça. Ele enxuga os olhos e olha para sua filha, que, com a autorização da juíza, flanqueada pelos guardas e sob os olhares dos advogados, pega um papel da mesa e começa a ler:
— Parabéns para você, nesta data querida...

Fim.

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Inspiração

Nosso modelo social usa conceitos de culpa e punição e isto sempre me incomodou. O modelo prisional punitivo não traz nenhum bem social, pessoal ou político e além disso, não afasta o mal pelo "medo imposto". Há alternativas para muitos casos, como a Justiça Restaurativa.
A quem interessa mantermos milhares de jovens negros presos?

Sobre a obra

O texto fala de um velho. Sim, o termo é este. Envelhecido, doente, gasto. Esperando em uma punição sem fim, não justificada no texto propositalmente.
A intenção do texto é levantar a pergunta: Que bem sairia de tanta violência? Que mal "justificaria" tanto sofrimento?

Sobre o autor

Sou autor de Ficção Científica pelo selo SAIFERS e tenho mais de uma dezena de livros e participações. Escrevo sobre o mundo à nossa volta, mas visto de uma perspectiva que é particular minha. Se você concorda, discorda ou não entendeu...

Isto daria papo pra um cafezinho, não acha?

Autor(a): PAULO ROQUE GOULART VALENTE (Roque Valente)

APCEF/SP