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Heron de Alexandria
Heron de Alexandria
O sol ardia na cúpula da maior igreja da cidade de São Salomão. Aquela cidade que sempre foi conhecida como o centro religioso de toda região. A igreja era gigantesca, mármores brancos uniam-se à luz do sol, criam um espelho de luz de várias cores, iniciando com o nascer, chegando o topo da cúpula ao meio-dia e encerrando com um laranja lindo ao seu por.
Sentado ao centro daquela gigantesca catedral, de vários quartos, cômodos, segredos e histórias estava o líder da fé da cidade. Um homem com muitos anos de vida em que, por mais da metade deles, não conseguia mais ver a luz refletida no mármore da grande igreja. Um líder em que seus olhos eram mais brancos que o refletir do meio-dia na catedral da cidade. Em sua frente, alguns dos aprendizes para o sermão anual.
- Estejamos atentos a todas as mudanças. Sejamos fortes, mas sem esquecer o que nos leva até o alto. - Falava, pausadamente, encarando com seus olhos brancos cada uma das dezenas de pessoas selecionadas para ouvir seu sermão.
Alguns dos ouvintes, mesmos cientes de seu privilégio por acompanhar aquele sermão, não estavam tão atentos ao que ele dizia.
- Entendo. É o som das novas eras que pensam que a tradição pode ser tomada de assalto. - Falava enquanto coçava o seu queixo.
- Sabiam que onde estou sentado foi o trono de um antigo rei? Rico, inteligente e moderno - Falava com os olhos ainda mais abertos, como se pudesse enxergar não os rostos, mas a alma de cada um.
- Rei? - Uma voz ao longe se assustou e todos se calaram.
O rei Antrópico I
- Heron de Alexandria! - Falava o rei enquanto lia alguns escritos traduzidos.
- Vejam, um teatro, portas automáticas, máquinas para tocar pianos, levantar objetos pesados! Acredito que poderemos cortar custos da coroa, diminuir processos tolos e melhorar a vida do povo! - Continuava o rei enquanto olhava para seus dois conselheiros: Gemínio e Cópilo.
- Bravo majestade! - Falava Gemínio, que foi quem presenteou o rei com aquele livro.
- Esplêndido! - Falava Cópilo que tinha em mãos alguns do projetos para implementar, mas precisava de recursos da coroa.
Os conselheiros tinham um plano muito interessante e, ao mesmo tempo, arriscado: Vender todos os benefícios a preços baixos e depois compensar assim que os decretos forem assinados. Para isso, focaram em vários projetos, sendo os primeiros focados em projetos do matemático grego Heron de Alexandria. Sendo a primeira exibição bancada 100% pelos próprios conselheiros: O teatro autômato para o rei.
O rei assistiu, entusiasmado, todo aquele show de 20 minutos. O teatro era formado por desenhos em madeira de luxo, perfeitamente recortada. Ao fundo o grande castelo real que sempre crescia em direção ao sol. Trabalhadores do campo colhiam lavanda que estava num tom roxo impossível de conseguir sem um alto investimento. As gramas balançavam, trabalhadores cultivavam e ao fundo um órgão tocava num aparelho movido à vapor. Tudo isso para o rei chegar ai final. O rei era um show à parte. Era formado por um boneco talhado manualmente e apresentava o rei numa proporção que o enquadrava em destaque com papel de ouro em suas vestes. E ao final uma mensagem:
"Rumo ao novo mundo: Bem vindos à Inteligência do rei Antrópico"
O rei aplaudia, mas sabendo que nada daquilo saiu tão barato quanto parecia questionou os conselheiros:
- Quando isso custou e quanto custa cada apresentação?
- São quantos os membros da corte responsáveis pela diversão e por tocar pianos, vossa majestade? - Questionou Cópilo que supervisionou toda construção e escolha de materiais.
- Trinta pelo que me lembro. - Falou o rei.
- Então nosso show custou quinze deles e esse é o custo construir um novo show e custam dois para repetir o show antigo - Falou Gemínio.
- Então, se eu tenho trinta e custou quinze para fazer e dois para repetir. Se eu cortar vinte e cinco, o resto é lucro para a coroa! - Falou o rei.
- Mas esse show é livre para vossa majestade, não haverá custos para que o rei esteja satisfeito. - Falou Gemínio.
- Queremos apenas um decreto para conduzir mais testes e o rei em pessoa - Falou Cópilo.
Naquele dia o rei assinou os primeiros decretos de estudo, automação e redução de custos do seu reinado.
O que era apenas um teatro autômato e um órgão que tocava por alguns minutos usando vapor, se transformou num projeto robusto que estava praticamente sem financiamento da coroa e bancado em quase sua totalidade pelos conselheiros.
Cada nova mudança, o rei, louco pela economia que isso causaria, tratava logo de aplicar e cortar os custos, seja de água, pessoas, alimentos e moedas. Mas, certo dia, tudo mudou quando os conselheiros apresentaram uma invenção revolucionária: O Grande Preenchedor de Tratados.
- E distópico e criado para a nossa majestade! - Falava Gemínio
- Por uma pequena quantidade de moedas, nós colocamos os pesos de um lado com base em cada opção, análise e dados do reino que quer realizar o tratado conosco e o mecanismo gira a partir da força da água, alguns pesos são ajustados, as polias entram em movimento e, ao final, um carimbo com os valores, a aceitação e até o carimbo real são aplicados no decreto. - Falava Cópilo.
- Cada peso colocado e cada peso que a máquina processa, valerão apenas frações de moedas da coroa. O reino apenas cede o uso de sua água para a máquina permanecer ativa. - Falou Gemínio, enquanto entregava um papel com os valores.
- Então, querem me dizer que aqueles tratados chatos de reino para reino eu posso entregar para essa máquina e eu apenas reviso? - Falava o rei.
- Sim, majestade. Temos um exemplo, esse é um pedido do prefeito de Santa Ana, produtora de fumo da região. Vou apenas ajustar os pesos lá atrás e verá que, com base nos ajustes, será praticamente uma resposta muito próxima do que vossa majestade escreveria. - Cópilo
- Certamente eu cederia, uma boa quantidade de moedas de ouro e 30% de nossa produção de trigo em troca do fumo de Santa Anna, é de extrema qualidade e muito apreciado pela corte. - Falava o rei enquanto entortava os seus bigodes.
- Então vamos ver. - Gemínio enfiou o papel na máquina e demorou alguns minutos até que a proposta foi incluída no papel real:
- 150 moedas de ouro e 10% da produção de trigo.É isso que a máquina gerou. - Falava Gemínio com um sorriso no rosto.
Cópilo retornou, bastante suado enquanto olhava o papel e falou:
- Bem, vossa majestade. Isso custou apenas meia moeda e imagine a economia.
- Vamos mandar a proposta, caso aceitem, valerá muito, pois além do dinheiro economizado, eu deixarei de ler e entender esses tratados horrendos. - Falou o rei.
Dias depois, o tratado foi aceito e com a economia, o rei reformou o quarto real e construiu algumas estradas. O investimento em novos projetos foi além do gerador de tratados, o rei se tornou um entusiasta da inovação, tudo que era visto como desperdício ele solicitou aos seus conselheiros que resolvessem de forma autômata.
O Grande Preenchedor de Tratados também teve suas evoluções, assim, decretos reais, canções para festivais e até listas de reis a serem convidados para as festas, a máquina conseguia processar. Claro que isso com o custo, não mais irrisório, mas ainda baixo, da coroa e ao uso, cada vez mais alto, da água do reinado. Os conselheiros, porém, foram hábeis, pois, parte da economia proporcionada, foi usada para aquisição de terras e nascentes.
Os últimos projetos foram: Pandora, a grande conselheira real e sua Cela Hermética. Pandora era constantemente atualizada com os pesos dos conselheiros reais e o rei, desta forma, conversava diariamente com ela, pedia conselhos. Cópilo chegou a criar um rosto, parecido com a mãe do rei (só que num formato mais jovem) para que o rei se sentisse mais à vontade ao conversar. Os conselheiros até achavam que o rei nutria sentimentos verdadeiros pela Pandora.
Já a Cela Hermética, o rei criou em torno de sua cama, de lá poderia ouvir, de forma incessante, as músicas criadas pelo primeiro projeto, assistir peças com o teatro autônomo. O ar era constantemente filtrado e mecanicamente o local era aberto e fechado com polias para pegar o melhor ar: O orvalho da manhã.
Cada vez menos animado pela vida chata do reinado, deixou com os conselheiros e as máquinas a gestão do reino e pediu para ficar cada vez mais isolado, como numa bolha, da vida chata de um rei. Pouco revisava os decretos, recebia alimentos por uma rede de polias, criados arcaicamente pelos conselheiros, que foram instalados na sua Cela, a quantidade de comida e cardápio semanal era decidido pelo Claudio, o robô autômato da cozinha.
Os conselheiros, já com dívidas pelos altos empréstimos tomados pelo seu projeto e pelo uso indiscriminado do rei que até tinha uma máquina que o secava e limpava em cada uso do banheiro. Foram aumentando, paulatinamente os custos do peso de cada entrada e o peso de cada saída da máquina. Também, como o uso da água atingiu mais do que a capacidade do reinado, ele compraram água das cidades vizinhas a um alto custo, já que o transporte de água gerava muita perda, naquela época e construir um aqueduto mandaria uma mensagem de fracasso.
Cada vez que uma nova máquina era criada, os conselheiros ajustavam manualmente seus pesos, suas configurações, compravam todo material e ajustavam até o rei ficar satisfeito. O Claudio, praticamente causou a demissão de metade da cozinha real, porém a economia não era mais compatível com os custos e mesmo com o aumento dos pesos em relação ao valor da moeda era preciso mais.
Decididos a resolver o impasse, eles tiveram a ideia que mudaria toda a história do reinado: Um robô que controlasse outros robôs e ajustasse os pesos e medidas para usar o mínimo de peso e o mínimo de água.
- Sei um nome perfeito para ele. - Falou Cópilo.
Decerto, a ideia de um robô autômato que reajustasse os pesos e prioridades de outras máquinas, parecia estritamente útil. Decidiram, porém, não mexer em nada que envolvesse Pandora e a Cela do rei.
Mas e o povo?
Um sentimento de abandono crescia na população. Embora, alguns camponeses ainda conseguissem plantar, desde que aceitassem as cotas de uso de água. A liberdade e a proximidade com a família real gerou uma ruína. Era notável o afastamento tanto do povo ao rei quanto do rei ao povo, a única vez que ele foi visto foi por trás de uma cortina de seda. Porém, falam as más-línguas que era um mecanismo autômato criado pelos conselheiros do rei.
Ao mesmo tempo crescia na sociedade um sentimento de apoio a algo que foi chamado de Ordem Salomônica. Os seus membros eram pessoas que cobriam o rosto e usavam vestiam um tecido de cor grená que cobria todo o corpo. Ainda assim, eles ajudavam o povo por meio da distribuição de água que eles desviavam das fontes reais usavas para os mecanismos autômatos funcionarem.
O colapso da sociedade não era visto pelo rei, bem como, pelos conselheiros que estavam cada vez mais ocupados em ajustar os pesos, criar invenções, decidir assuntos que o rei não queria se envolver e decorar todos os dados suficientes para os robôs funcionarem corretamente. Logo, deram um poder diferente para o novo robô que geria os outros: O autoajuste próprio e o foco em diminuir mais o uso de recursos.
Assim, novos tratados eram assinados dois de cada vez, o que misturou os dados de nações completamente diferente e o custo a ser pago por tudo. O robô Claudio era desligado semanalmente para que não fosse necessário o uso de novos cardápios. Porém, o desvio de água pelos membros da Ordem e o dinheiro cada vez mais escasso da coroa levou ao fim daquela sociedade como era conhecida.
Levantes populares reocuparam alguns nascentes. Soldados, com os salários atrasados, deserdaram e ofereceram seus serviços para outros locais. Os conselheiros, não querendo mexer em Pandora, nem na Cela do rei, analisaram as contas reais e tomaram a decisão: Levar o resto do ouro e fugir.
Antes disso, o robô autômato que cuidava de outros robôs, gerou a nova lista de pesos para os demais. Cópilo foi responsável pelo ajuste, não mexeu em Pandora, mas tinha que ajustar o uso de água dos outros itens da Cela real. No lugar o “limpador do rei”, mexeu sem querer na abertura que capturava o orvalho da manhã. O orvalho era o único ar puro que o rei se permitiu respirar.
Meses depois, quando o povo se rebelou e invadiu o palácio real, viram o rei numa redoma, uma Cela. Ele estava apenas coberto em um lençol de seda. Beijava uma escultura de madeira que piscava os olhos e olhava de um lado pro outro. Parecia se comunicar por meio de carimbos, polias, pesos e contrapesos.
Não era possível sentir o cheiro, mas ao abrirem a redoma, perceberam o rei morto, em um ambiente onde não havia ar. A única abertura onde o ar saía estava fechada. Todos os robôs e mecanismos criados estavam em colapso. Portas abriam e fechavam sem parar. Musicas tocavam desafinadas e sem compasso. O teatro do rei estava arranhado com tintas caras e pó de ouro inundando chão. Acharam também o autômato criado para substituir o rei no último festival.
Apenas um mecanismo permanecia funcionando sem parar: O robô criado para controlar os outros. Seu último ajuste priorizou a pouca água disponível e o pouco de ouro ainda restante (conforme sua última configuração), totalmente para ele. O robô pintava os olhos, parecia olhar a todos, não era como se tivesse consciência verdadeira. Mas o sistema que Gemínio e Cópilo criou para ele era o maior e mais complexo de sua época. Por isso, dentro todos os itens daquele castelo esse foi o único que não foi deixado levar.
De volta à São Salomão.
- Heron de Alexandria! - Falou aquele senhor.
- Foi o nome que estava escrito, pelo próprio robô no último contrapeso recebido. - Falou encarando os agora atentos ouvintes.
A plateia ficou estática com a história. De fato, todos sabiam que antes da Ordem Salomônica assumir o controle da cidade, a mesma tinha outro nome e era um reinado que durou alguns séculos. E tudo isso sento, aparentemente, destruído pelo novo, pela modernidade, pelo futuro, era algo que servia não apenas de reflexão. Aquela mensagem era o próprio sermão, dito de forma improvisada, é claro, pois o líder o culto percebeu o tédio na plateia.
- Bem, encerramos o sermão. Tive que mudar o protocolo, mas entendo que passei a mensagem. - Falava o senhor olhando com seus olhos brancos para cada um dos presentes, como se assim capturasse cada mudança em suas percepções.
- O robô Heron está funcionando no antigo quarto do rei. Falem com o Cardeal para visitar. Não sabemos consertá-lo, nem dar manutenção e ele está "vivo" com um pequeno filete de água que corre no antigo quarto do rei. - Falou enquanto se levantava e foi acompanhado aos seus aposentos.
Os mais curiosos se amontoaram para ver se aquilo era real. Uma fila foi feita e a porta foi aberta.
E lá ficou, Heron, encarando um a um, com sua pintura descascada, enquanto o filete de água era o único barulho, além das batidas assustadas do coração dos visitantes.
Inspiração
Reflexão de problemas cotidianos sob um novo olhar
Sobre a obra
Gosto de aproveitar o talentos para "me forçar" a escrever coisas novas. Então aproveitei um universo criado pro mim e incluí essa reflexão sobre nossa sociedade.
Sobre o autor
Escritor por insistência e autor de alguns livros.
Autor(a): THULIO PHELIPE ANDRADE DE SOUZA (Thulio)
APCEF/PB
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