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O Velório do Meu Pai
O VELÓRIO DO MEU PAI
Meu pai sempre foi alegre. Daqueles que encontram uma oportunidade para fazer brincadeiras, mesmo em momentos inesperados. Nos velórios, por exemplo, gostava de tirar uma “casquinha”:
- Quem é o próximo?
E sempre completava com sua própria resposta:
-É algum dos vivos...
E não é que ele era o próximo?
E foi.
Mas antes de contar sobre o seu velório, volto à história três meses antes, no velório do tio Adolfo.
Meu pai achou engraçado porque na hora de sepultar tiveram que abrir duas gavetas: em uma estava o caixão, e na outra a tampa.
Riu da situação como sempre fazia, encontrando humor e descontraindo o ambiente.
Passados três meses fomos para o centro de Curitiba e na hora de ir embora, meu pai comentou que havia comido um pastel em uma pastelaria próxima à Praça Carlos Gomes, e que sentia muita azia.
Não quis voltar dirigindo. Foi no banco de trás.
No dia seguinte, continuava mal. No outro, também.
Foi ao farmacêutico e tomou muito sal de fruta, mas nada de melhorar. Procurou um médico, que fez uma lavagem no estômago. Ainda assim, a situação não se resolveu.
Foi em outro médico.
E então veio o diagnóstico: não era o pastel.
Meu pai estava enfartado há vários dias.
Foi internado. Precisava de cirurgia.
E, por fim…
Foi, sim, ver o Anjo Azul, entre bruma e véu, abrir o portão do céu…
Foi de fato e de direito.
Aos 60 anos, conforme desejado! (Ele sempre falava que 60 anos era uma idade bonita)
Tudo aconteceu muito rápido. E foi doloroso.
De repente, aquele coração que era alegre e bondoso… parou…
Simples assim: parou!
Doeu. Doeu muito.
Mas tristezas à parte, naquele dia de tristeza, nós, a família próxima, rimos muito.
Estávamos no necrotério do Hospital e quando chegou o rapaz da funerária para vestir e ajeitar o meu pai.
Ele era muito ágil, experiente e parecia saber exatamente o que fazer. Em determinado momento, aproximou-se do meu irmão e entregou-lhe um embrulho, pedindo que guardasse os pertences.
Meu pai era bom, corajoso, honesto, e "prá-frentex". Dava bons conselhos e ajudava a todos com palavras.
Ele era bom com palavras.
E, no velório dele, tivemos uma prova disso.
Chegou um Senhor, de idade avançada, aparência sofrida. Procurava pelo filho do falecido.
Sem saber que já estava diante dele, perguntou ao meu irmão:
- Escute moço, este velório é do Seu Tadeu? Estou procurando o filho dele, o Silvio.
Meu irmão respondeu:
- É… infelizmente, é sim, o velório dele, e você está falando com o Silvio.
O homem abraçou meu irmão e explicou por que estava ali.
Morava na cidade vizinha e, por acaso, havia ouvido no rádio a Nota de Falecimento com o nome do meu pai. Não conseguiu deixar de vir ao velório para agradecer.
Depois perguntou:
- E você, Silvio, lembra de mim?
Meu irmão, com toda sinceridade, respondeu que não.
O homem então declarou:
- Faz uns quinze anos, você era menino e estava doente, internado na enfermaria do hospital. Eu era seu companheiro de quarto.
E continuou:
- Eu estava desenganado pelos médicos. Se sobrevivesse não poderia mais andar. Minha família não tinha condições de vir me visitar no hospital. Você recebia a visita do teu pai todos os dias. E seu pai dava bastante atenção para mim.
Aquele senhor se lembrava das palavras do meu pai:
- Você vai sair dessa! Você vai andar! Tenha fé!
E então meu pai contava a própria história:
- Eu me acidentei há dez anos e estava pior que você. Veja minha perna…
Ele mostrava a perna mecânica, pois havia perdido a perna no acidente.
- Veja os pontos...
E mostrava o peito, as costas e a cabeça com muitas cicatrizes.
E meu pai ainda dizia:
- E não fique aí triste porque ninguém vem te visitar. As minhas visitas na época não entravam para me ver, pois eu estava desfigurado. Fique até feliz, que você pode ter um companheiro de quarto. Eu não tinha.
O homem continuou:
- Devo a volta à vida a este homem, ao seu pai.
Rezou e saiu.
Quando o Silvio nos contou tudo, dissemos:
- Hiii! Huuu! Não podemos ficar tristes!!!
Era impossível não reconhecer, naquele momento, a grandeza do homem que estávamos velando,
Meu pai havia partido, mas suas palavras continuavam vivas.
A essa altura, o velório “corria solto”.
Os dois genros e a nora do defunto foram “mostrar serviço”. Foram lavar a capela para o enterro do sogro.
Pegaram a chave e fizeram a LIMPA:
Jogaram as imagens velhas fora, até a caixinha de osso a nora lavou.
Foi sabão nas paredes, no chão… toalhinha nova…
Gaveta aberta!
Tudo impecável!
Ou quase.
Porque impecável mesmo seria “SE” eles tivessem lavado a capela certa!
O cortejo fúnebre, já no cemitério, chegando na “rua” da capela… começaram os comentários:
- Nossa, esta capela também aguarda um corpo!
Os três, então, se manifestaram:
- Ei! Vocês não vão enterrar???
Indignados, pois o cortejo prosseguiu rua adiante.
Até outra capela.
Suja.
Empoeirada.
Com a gaveta FECHADA!
E precisaram abrir a gaveta na hora.
Foi quando nós nos lembramos do meu pai rindo do Tio Adolfo, três meses antes, (lembram?) por causa das duas gavetas abertas.
E com ele aconteceu o mesmo.
Duas gavetas abertas!
A vida, às vezes, parece ter um jeito muito peculiar de repetir as histórias.
(Observação: Depois, foram devolvidos aos verdadeiros donos da capela “pelada” as imagens originais, as toalhinhas velhas, os ossos. A gaveta foi fechada, acompanhada das mais sinceras palavras de desculpas.)
Ahhh lembram do embrulho?
Aquele que o rapaz prestativo da funerária havia entregado ao meu irmão?
Pois é.
Meu irmão também lembrou.
Abriu o embrulho e disse:
- É a dentadura! Mandamos ela junto?
Minha mãe caiu na risada:
- Teu pai nunca usou dentadura!!!
Então veio a conclusão:
Algum defunto ficou desdentado!!!
A vida seguiu sem ele.
Muitos anos se passaram.
Outros vieram depois... Sua descendência cresceu e é muito bonita.
Mas suas palavras continuam ecoando em nossos corações.
Hoje, quando lembro do meu pai, quero dizer que respeito sua história e seu destino.
Honro aquele que, mesmo tendo enfrentado suas próprias dores, ofereceu esperança a quem precisava.
Tudo foi como tinha que ser.
Gratidão pela vida que me deu.
Gratidão pelos ensinamentos.
Gratidão pelas lembranças que ainda nos fazem rir, mesmo quando a saudade aperta.
Fique bem aí.
Que aqui está tudo bem.
Inspiração
A inspiração veio da minha experiência real e familiar, recheada de memória afetiva.
Sobre a obra
É uma reflexão sobre a vida, numa linguagem espontânea.
Trata-se de obra memorialística, com ele elemento de humor, emoção e com narrativa de memória.
Trás ainda um alerta sobre sintomas no estômago, no caso, a simples sensação de azia se tratava de infarto.
É uma obra realizada com muito amor envolvido.
Sobre o autor
Sou Silvana da Luz Pabis, amo a vida que me foi passada através do meu pai e da minha mãe.
Sou imensamente grata a todos os meu antepassados, reconheço suas lutas e desafios e em honra a tudo que passaram, busco viver minha vida plenamente.
Autor(a): SILVANA DA LUZ PABIS (Silvana da Luz Pabis)
APCEF/PR