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Dez Minutos para Carrocinha
Ligaram para buscá-lo pelas 15h45. E como quem tem arrancados os dentes ou as unhas, ainda cravados ou enraizados na nossa pele e músculo, o destino fez com que o automóvel dos sacrificados estivesse por perto do bairro e fosse prometido um tempo para a equipe chegar. Não havia outro jeito... Ele estivera adoentado, por fatores desconhecidos, adoeceu. Os olhos entristeceram-se, os pelos caíram e o rabo desfaleceu. Definiam como uma doença grave, a qual meus filhos podiam pegar. Ficara em exclusão, a alimentação era distanciada. Comida na boca eu não dava... Não lhe daria leite na mamadeira com bico de plástico resistente feito exclusivamente para o pequeno gigante da minha família...
Tinha tanto medo de perdê-lo... (tanto medo de perdê-lo!)... Não imaginei que seria assim. Apeguei-me a ele tanto, tanto! Mas agora está o presente empunhando uma foice e o passado dançando com lenços.... Pipoca espalhava barulho por toda casa! Levasse ele para casa da minha mãe ou da minha sogra, não tinha outra: quando quisesse ir embora, fazia barulho. Ao chegar ao lar, pipocava de alegria ao subir na cama, refestelando-se nas almofadas e posicionando-se como quem estava fingindo ler os livros esquecidos pela última leitura realizada na cama. Escutava meus desabafos, me olhava tão docemente e se fosse gente, me beijaria. Essa carrocinha que não chega, essa agonia que não passa, esse sofrimento que não cessa!!!
Pipoca tinha seus quatro anos. Apareceu em casa quando meu filho nasceu. Mal sabia que tivera outro filho naquele dia. Surgiu com um olhar doce... Flutuava pela casa e cuidava do meu bebê. Só quem já leu “Vidas Secas” sabe, quem já leu compara a Baleia. Baleia, a chefe de família, Baleia no sertão, Baleia no mar seco da vida possível. Porém, não era Baleia. Era mais que Baleia. Era Pipoca e vivia ali, de fato, ao meu lado, com cheiro e tato. Ele salvou o canarinho de cinco gatos que espreitavam numa madrugada na qual eu não estava em casa... Só vimos pelos de gatos, arranhões na parede e umas penas de desespero do pássaro belga.
Pipoca foi imprescindível quando perdi o emprego e acabou a quinta parcela do seguro desemprego. Ele deu-nos alimento fazendo graça na praça. Deu-me carinho quando eu era traída.... Andava pelos cantos, deitava-me no chão e onde quer que eu estivesse e por onde eu andasse, ele me era onipresente e onipotente. Mas ficara adoentado, inesperadamente adoeceu. Procurei algum jeito, jeito não apareceu! Envolvi meus familiares, todos unidos para que ele melhorasse. Mas todos diziam o mesmo. Todos em coro fadavam a minha desventura.
— Piorou! E continuará a piorar! O animal você terá de sacrificar!
As vizinhas me disseram: “Jeito feliz não há, só a carrocinha, vou ter de chamar!”. E procurei outro jeito, jeito não existia... “Há jeito para tudo na vida, menos para morte!”... Mas Pipoca estava vivo, então havia jeito! Jeito não havia... Como poderia estar morto quem ainda não morreu? (....). Fui à clínica veterinária, perguntei se tinha jeito. Disseram friamente: “Maneira não há, a solução é sacrificar!”.
Foi quando essas horas começaram a desfiar o fio da vida. Comuniquei ao marido, providencia ele tomou: “A carrocinha chega dentro de dez minutos!”. Estou eu novamente dentro dos dez minutos de dor... Dez minutos amargos e desbotados. “A carrocinha está dobrando a esquina. Chegou antes do tempo! Vá para o quarto, não assista!”. Estavam todos adiantados. Violentaram os meus instantes de lembranças quase póstumas. Invadiram minha casa os anjos da morte vestidos de branco. Traziam consigo focinheira e falavam ser um mal generalizado. Os homens torpes conversam sobre futebol. Meu marido puxa o assunto para o carnaval. Eu assistia da janela da cozinha os últimos milésimos do que ainda não tinha sido dez minutos compartilhados. E sentindo a tragédia, Pipoca encarou o meu olhar taciturno enquanto tentava não encarar o seu olhar dócil.
Não seriam dez minutos? Por que assim tão logo, tão adiantado... Aquele olhar falava algo que eu imaginava ler. Ainda não tenho mais o tempo? Ou já é o fim? O fim será agora? Não quero despedir-me agora. Um chuvisco pintou nossa cena, ele não moveu nenhuma parte do corpinho. Continuou parado, olhando um pedaço da minha vida no pedaço da vida dele... Isso se repete na minha cabeça... Meu tempo foi violentado como se alguém tivesse me lançado da idade adulta para a terceira idade.
E aquela voz, aquela voz naquele instante, naquele instante...
— Mulher, a carrocinha chegou!
Aquela voz, aquele instante, aquela voz naquele instante!
— A carrocinha chegou! A carrocinha... A carrocinha!
Pipoca pareceu escutar. Abaixou o olhar. Eu fui assinar o documento. Assinei chorando, chamavam-me de “besta”. Eu sabia o que estava perdendo. Um herói, um companheiro, um amigo. Um escudeiro, um psicólogo, um fiel e mais verdadeiro marido.
Invadiram o muro sem meu coração consentir. A razão me traiu. Fui para o quarto e sentei na beira da cama. Escutava o choro e o latido. Vai fiel amigo, vai sem demora. Você sempre estará comigo mesmo que esteja indo embora. Procurou por mim no caminho inteiro. Encontrou sua querida, eu, pela porta aberta do quarto. Seu rosto com focinho entortou um pouco. Me viu fugindo do seu olhar... Não conseguiria suportar a ideia de abandonar a mais fiel companhia, o maior fiel amor. Pilatos lavou a mão, mas delegou a responsabilidade ao povo. Eu estática delego a responsabilidade por tudo isso a mim e ao coro da desesperança.
Não tinham completado nem metade dos dez minutos, meu Deus! O amordaçamento gerou o estado de choque. O choque provocou uma falta de fluxo sanguíneo cerebral. Derrame. Uma metade, eu vivi; a outra, ainda vivo. Revivo todo carinho e todo respeito que eu teria por mais cinco minutos no meu lado triste. Busco minhas lágrimas não derramadas por completo, meu sofrimento não definhado. Arrancaram o meu grito e o meu desespero, e só meu lado que pode ser feliz ainda pode gritar, mas eu evito. O meu riso é dividido, minha face é dividida. Máscaras do teatro grego: um lado está minha boca aberta e espantada, do outro, um riso de boca aberta e fugidia. Não tinham completado nem metade dos dez minutos no meu rosto. E nunca mais se completará até quem sabe eu te encontrar de novo.
Inspiração
Não me lembro muito bem de detalhes da inspiração. Esse texto estava guardado há muitos anos, e era um poema antes. Nunca publiquei. Bom, mas o que sei, com muita propriedade, é que o título de um texto teatral muito me inspirou: "O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade". Nunca o li, mas o título me desperta algo assim como esse conto.
Sobre a obra
Não sei bem o que falar da obra em si. Não gostaria de incentivar a dissecação de um corpo vivo ainda que em dor.
Sobre o autor
Sou o Tandie Sogo, mais conhecido como Johnatan Diego. Multiartista anônimo CLT, com trabalhos em áreas do audiovisual, da música, da literatura e da fotografia.
Autor(a): JOHNATAN DIEGO DE SOUZA GOMES (Tandie Sogo)
APCEF/PE