De quem é o morto?

De quem é o morto?
O apresentador, no centro do Bumbódromo, chamava a atenção do público para a Galera Vermelha, que na arquibancada, exibia uma performance, quando se percebeu a formação de um vazio, que foi aumentando, aumentando, de tal modo a deixar um personagem, em destaque solo, no epicentro. Visto de longe, a figura isolada parecia contracenar com seus colegas brincantes que se afastavam dela em correria. Em princípio, todos pensaram se tratar de evolução do espetáculo. Não era isso, não.
Os brincantes que performava próximos a Zé Ducará, os que iniciaram a debandada, relataram que veio da parte de Zé Ducará um fedor insuportável. Uns falavam em cheiro de amoníaco, outros de mandioca podre, e a maioria de um pitiú desconhecido. Alguns confessaram tontura e enjoo.
- Mano, tu tá ferrado! – Diziam os seguranças que conduziram Zé Ducará do Bumbódromo para o Curral.
Quando o Presidente chegou ao Curral, Zé Ducará já havia sido posto sentado ao centro. O Presidente foi logo gritando que ia ficar em pé que não tinha tempo para se sentar. Os presentes que silenciaram com a chegada do Presidente se posicionaram em um círculo para assistirem o massacre. Zé Ducará, sem esperar que o Presidente começasse, adiantou-se a se explicar:
- Presidente, com licença, o que aconteceu é que eu fui apertar o nariz para abafar um espirro e deu no que deu.
O Presidente, vermelho de raiva:
- Que espirro, porra nenhuma. Não me vem com essa história de peido para cima de mim, caralho. Fala logo quem mandou você jogar essa bomba. Dá o nome do desgraçado. Todo ano tem jogo sujo desses miseráveis, filhos da... Quem te mandou fazer isso?
Zé Ducará, pálido que nem vela:
- Não tem nenhuma bomba, Presidente. Ninguém mandou eu fazer nada, Presidente. Acredite em mim, por favor. Foi um espirro malsucedido, como lhe falei.
O Presidente:
- Foi por dinheiro? Quanto te pagaram? Logo você, indo na conversa do povo contrário, porra.
Alguém sugeriu lá dos fundos do galpão:
- Dá umas lambadas nas costas dele, Presidente, que esse imbecil abre o bico.
A indignação era geral e não era para menos. Todos sabiam que o boi seria prejudicado. O Presidente com um grito de “peraí, pessoal”, retomou a palavra:
- Pessoal, para evitar que eu mesmo cometa algum desatino, alguém chama o Delegado, por favor.
O Delegado, compareceu ao barracão, fez questão de dizer na frente de todo mundo, que o caso seria tratado sob regime de urgência. Após dar ordens de recolhimento ao acusado, saiu dali para abordagem externa: o local do crime e a casa do acusado, em busca de indícios, obter fotografias e outros elementos úteis ao inquérito.
Pela manhã, o delegado interpelou o acusado:
- Zé Ducará, que papelão! Que você tem a me dizer sobre o ocorrido? Não me esconda nada, que eu sei quando o caboco tá mentindo.
Zé se borrando todo:
- Dou...tor, com... com tooodo o respeito, o que tenho... tenho a dizer foi o que... que eu.. eu já disssse. Que eu fui reprimir um espirro e deu no que deu.
- Essa estória de peido, pra cima de mim? Tenha dó, né. Diga logo o nome do mentor, o cara que forneceu a bomba de efeito moral, o cara que lhe pagou pra você prejudicar um ano de trabalho do boi. É bem simples. Diga e eu te libero.
Bem que as lágrimas poderiam falar pelo Zé:
- Dou...tor, ninguém me mandou fazer nada. Pelo amor de Deus, doutor. Acredite.
A autoridade policial, utilizando meios brandos, jamais conseguiria arrancar alguma confissão que comprometesse o boi contrário. Decidiu manter Zé custodiado até que passasse o festival, em benefício da vida do ameaçado. Depois de alguns dias, acabou por liberá-lo por falta de indícios que justificassem gastos públicos com um inquérito e com alimentação do preso.
Passado o festival, quem foi que disse que esqueceram Zé Ducará? A situação dele piorou. O homem passou a ser vigiado pela nação vermelha por onde andasse. Xingado por onde passava. Ninguém ia esquecer o fracasso de um campeonato perdido, por causa de um abestado traíra. A comunidade vermelha fazia muito tê-lo deixado vivo. Ainda bem que não havia o crime de lesa-boi nos regulamentos. Mas o desprezo que recebeu fez dele um morto vivo, vagando sem alma.
Quando conseguia vender algum piracuí era para comprar cachaça que passou a ser sua única confidente, com quem trolava respeitosos benditos, divertindo-se em casa, já que lhe haviam tirado o direito em ir e vir.
“Bendita seja a terra
Onde nasceu essa cana
Bendito o Criador
Bendita a mão humana
Bendito o cálice bento
Bendita a taça profana.”.

Deitava na maquira, fazendo cortes à amiga o dia inteiro:
“Cachaça, cunhã ligeira
Filha de índio flecheiro
Olha só nos meus olhos,
Mas num mexe meu ponteiro.”.

No decreto não-escrito de trairagem constava a expulsão do quadro de brincantes, a proibição de frequentar o barracão de ensaios, o curral, as dependências administrativas. De nada adiantaram seus pedidos de perdão e clemência. Chegou a fazer composições devocionais, cantando alto pelas ruas, tentando tocar o coração dos avermelhados.
“O meu boi é encantado
Ele muge e não berra
Pode chegar de onde for
Do Japão ou da Inglaterra
Se meter a cara aqui
Com certeza que se ferra”

Ainda bem que tinha um radinho para ouvir as toadas e a transmissão dos ensaios, era seu jeito de participar, ainda que de longe. Sabia que suas forças estavam esvaindo e chegaria ao ponto de não aguentar tanta indiferença.
Um dia, um vizinho vendo que Zé não abria a janela pelo terceiro dia, chamou a mulher e foram ver o que estava acontecendo. Bateram e ninguém respondeu. Rodearam a casa e fizeram a abordagem pelos fundos. Na cozinha aberta, viram Zé estava estirado na rede. Mas, ele não respondia. Alarmaram. Chamaram a ambulância. E Zé foi hospitalizado.
Ficou sob a assistência de enfermeiras azuis e vermelhas, que sabiam do episódio e tinham seus respectivos motivos para, de vez em quando, pilheriar com o doente: quem está te aguentando vivo, infeliz, é o álcool vermelho que tens no corpo. Por uma coisa ou outra, Zé jamais se recuperaria, vindo a falecer no dia da apuração em que o Vermelho foi sagrado vencedor. Soube-se de uma enfermeira que afirmou que Zé tinha avisado a ela que morreria depois do anúncio de campeão.
Ninguém apareceu para velar o corpo no necrotério do hospital. Metade da cidade ocupada em festejos. A outra metade com lamentações. Com a aproximação da noite, o hospital pediu providências à prefeitura que enviou um trator atrelado com uma carreta para levar o caixão ao cemitério. Ao passar pela frente da capela católica, o padre, que estava chegando, perguntou ao motorista se aquele caixão estava vazio. Ouvi a resposta: tem um morto, mas não sei quem é. Pediu ao motorista que esperasse um pouco. Entrou na igrejinha e saiu seguido de um grupo de filhas-de-maria de véus azuis que foram encarregadas de acompanhar o enterro. O pároco ficou olhando a retomada do cortejo e lançou da porta da capela, uma bênção em direção ao morto. Ainda que desconhecido, era um cristão.
O ecoar das ave-marias e o barulho fúnebre do trator compunham um estranho coro, dando dignidade ao morto. O itinerário foi cumprido sem importunar ninguém a não ser uns choramingos de cachorro. No portão do cemitério, o motorista chamou os coveiros para entregar o caixão. Cadê os parentes, os amigos? Não tinha. Zé foi enterrado sem choro nem vela e sem uma cruz de identificação.

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Inspiração

A polaridade ferrenha entre grupos sociais

Sobre a obra

A história de um brincante de boi-bumbá que foi acusado de trairagem e por isso alijado do convívio com seus pares vermelhos.

Sobre o autor

Entendo que a a prática da escrita literária é uma busca por competência como qualquer outra. Me exercito constantemente por saber que o texto nunca está pronto. Escrevo para criar um rascunho, uma memória sobre algo para revisar mais tarde, apontamentos que se transformam em fonte de contos, crônicas e poesias. .

Autor(a): ALIRIO VIEIRA MARQUES (Alirio Marques)

APCEF/AM