O Cravo e a Rosa

O Cravo e a Rosa

Eram 7 horas da manhã quando ele ouviu o telefone tocando: “Mas quem poderia ser uma hora dessas!”
Ao telefone uma senhora da voz trêmula e rouca falou:
- Alô é o Arnaldo?
- Não aqui é Petrúcio - ele respondeu.
- Ah sim, desculpe foi engano, estava procurando o Arnaldo, meu marido. Ele saiu ontem à noite e não voltou - falou a senhora.
- Sinto muito senhora, mas acho que não posso lhe ajudar, por que a senhora não liga para o celular dele?
- Porque não gosto dessas tecnologias, aliás seu nome é estranho! - retrucou a senhora
- Não estou lhe entendendo! Como liga para alguém 7 horas da manhã de um domingo, para um telefone fixo ainda por cima, procurando seu marido que não está em casa e quer achá-lo em um telefone fixo? E ainda tem a audácia de dizer que meu nome é estranho! - ele se exaltou e reclamou.
- Veja bem, desculpe não quis ofender, sempre fui sincera. Você pode passar pro Arnaldo, sei que ele está aí! Ela me falou!
- Não entendi senhora! Ela quem? - ele respondeu espantado.
- A Gertrudes, minha vizinha! Ela disse que esse telefone era da casa da amante dele! A Juvência!
- Senhora, eu não sei o seu nome, mas vou desligar, isso está incômodo e estranho, não sei do seu marido, não sei quem é Arnaldo, nem Gertrudes e muito menos Juvência!
- Espere não desligue! Ou vou mandar a polícia aí! Eu já sei de tudo, e que ele me trai há 35 anos! A casa caiu! Tenho 71 anos e essa é a maior vergonha que passei na minha vida, não vou deixar passar! Chame ele logo Sr. Pedro!
- É Petrúcio! - exclamou aborrecido.
- Do Cravo e a Rosa? - indagou ela.
- A senhora está me tirando a paciência, o que tem a ver o Cravo e a Rosa?
- Tem a ver sim! Vai me dizer que você não sabe quem era Catarina e Petrúcio?
- Não senhora, não sei, não assisto novelas.
- Mas sua mãe devia assistir, pergunte pra ela! Ou então novamente você está mentindo! - ela exclamou exaltada.
- Minha paciência acabou, minha mãe me deu esse nome em homenagem ao meu avô, vou desligar!
- Então sua avó deve ter assistido a novela!
- Passar bem senhora!
- Espere! Vou mandar a polícia aí! - ela gritou.
- E por acaso a senhora sabe meu endereço?
- Sei sim! Alameda das Ruas Gordas número 1563 apartamento 101, de frente com a padaria Bocão Guloso!
- A senhora agora ganhou minha atenção! Como sabe meu endereço? Qual seu nome? - ele falou espantado.
- Me chamo Romicilda! E sim já sei de tudo como lhe disse! Não queira acobertar meu marido!
- Romi o que?? kkkkkkk - o homem caiu na gargalhada.
- Romicilda ora mais! Ainda é desaforado de ficar rindo, meu nome é lindo!
- Lindo sou eu! Depois fala do meu nome!
- Cansei de conversar besteira, eu mesma vou aí! - e a senhora desligou repentinamente

Logo em seguida o interfone toca:
- Alô seu Petrúcio, aqui é o Romário Messi o porteiro, chegou visita pro senhor. A Romicilda.
- Pode deixar subir!

Assim que a campainha toca Petrúcio abre a porta:
- Bom dia mãe como a senhora está?
- Mãe? Não sou sua mãe, cadê o Arnaldo?
- Oi pai tudo bem como o senhor está? - perguntou Petrúcio, olhando para Arnaldo, que acompanhava a esposa.
- Estou bem meu filho, passamos na padaria e trouxemos pão fresquinho, é o bom de morar no prédio da frente que tem uma padaria na esquina.
- Vamos cadê o Arnaldo? - exclamou Romicilda.
- Está do seu lado, mãe - falou Petrúcio.
- Ele é meu mordomo!
Petrúcio ficou em silêncio por alguns segundos.
Arnaldo, seu pai, apenas sorriu.
Romicilda tinha Alzheimer havia três anos e já não reconhecia mais o marido, o filho ou as pessoas ao seu redor. Para ela, Arnaldo havia se transformado em Armando, seu antigo mordomo, morto havia anos.
Ainda assim, todos os domingos ela se lembrava do telefone e do endereço do filho.
Ligava para Petrúcio procurando pelo marido e acusando-o de uma suposta traição com Juvência, sua irmã, também falecida.
Segundo ela, quem havia contado tudo era Gertrudes, sua mãe.
Gertrudes também já havia morrido.
Petrúcio respirou fundo.
A casa havia caído.
Só não da maneira que Romicilda imaginava.

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Inspiração

Uma maneira diferente de falar sobre a trágica doença de Alzheimer.

Sobre a obra

Romicilda procura por Arnaldo todos os domingos de manhã na casa de Petrúcio, pois tem certeza que ele a traiu com Juvência, e quem contou foi Gertrudes. Tudo não passa de uma grande ilusão.

Sobre o autor

Sou um ser humano incompleto em busca de aperfeiçoamento e expressão através da arte.

Autor(a): DAVID SANTOS SALOMAO (David Salomão)

APCEF/DF


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