Acidente Vascular Crônico

Dizem que, nos dias de hoje, é raríssimo um homem maduro suar frio na frente do espelho enquanto se ajeita ansioso para um reencontro amoroso. Pior é perceber, incrédulo, que a bomba cardíaca que julgava seca ainda palpita aquela dor aguda do desamparo, prova da vulnerabilidade da vida diante da contingência do amor.
O sábado anterior prometia ser daqueles banais, dignos da sucursal do inferno que se torna a cidade nos tórridos meses de agosto e setembro, período que anuncia a floração dos flamboyants. Enquanto os edifícios ainda adormeciam, dirigia sem pressa e um tanto abestalhado, resultado da quentura nos meus miolos, cumprindo aquele rotineiro ziguezague cambaleante do percurso da Avenida Cora Coralina até chegar à Praça Pedro Ludovico Teixeira.
Um minuto de descuido, culpa de um olhar sonolento no último contorno do trajeto, bem naquela curva perigosa dos 45 - e o tranco da batida inesperada em outro carro. Que dor ao perceber, no primeiro olhar, que a causadora daquele tosco balé acidentado era a Mulher que não via há 20 anos.
Nosso humor não envelheceu, se comparado ao dia em que nos esbarramos pela primeira vez no laboratório de fotojornalismo da universidade. Na ocasião, ela foi a única a demonstrar uma misericordiosa paciência ao me ensinar a revelar com perfeição um filme fotográfico.
Monitora dedicada, aprendi ali todo o processo que parecia uma alquimia: desde a abertura do filme na câmera escura (onde roubei nosso último beijo), à aplicação dos produtos químicos para começar a visualizar a imagem, depois a fixação, a lavagem, a secagem, até resultar na cena dos nossos corpos emaranhados.
- Ainda bem que foi só um encostão no meu carro, mas parece que seu jeito meio desorientado não mudou nada – ela provocou, com um olhar malicioso.
- Verdade! Continuo errando meus trajetos e sempre deslizo nas mesmas curvas – retruquei.
- Agora preciso ir, não posso perder o horário no cartório para resolver outro acidente. Meu telefone ainda é o mesmo caso você queira acertar essa pendência, se achar que é preciso.
Sorrimos, e algo silencioso e antigo reverberou. Uma leveza que disfarçava o peso das décadas e das escolhas com o casamento daquela mulher que resultou no definitivo Não para mim. Convidei-a para um café naquela mesma noite, próximo ao seu apartamento.
Ficou de pensar, e o que sobrou do dia arrastou-se com a lentidão das horas que desafiavam a lógica do tempo, até o sim. Diante do espelho, o reflexo do homem que me encarava transpirava indeciso entre o passado e o presente, entre a esperança e o medo.
Ao encontrá-la naquela noite, sob uma luz suave que se misturava à fragrância do café, depois do vinho, a conversa fluiu como um riacho que encontra seu curso após um longo desvio – e assim nos despedimos.
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No retorno solitário para casa, a notificação do celular na tela, a freada abrupta e o retorno pela contramão:
- Você disse que ainda é capaz de revelar um filme e eu me esqueci de lhe convidar para conhecer meu laboratório fotográfico analógico, o único que sobrou na cidade.
Lua morta, rua torta, tua porta.
E ali, na meia penumbra do quarto, entre espelhos, filmes, rolos, câmeras, poses, mais vinho, luz, ação, entre sussurros e toques, nossos corpos se entrelaçaram até a alvorada, onde desabrocham avermelhados os flamboyants.

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Inspiração

Minha inspiração foi um episódio amoroso de um amigo na cidade de Goiânia. Depois de vários anos ele conseguiu, enfim, ir ao encontro da amada.

Sobre a obra

A obra tem uma ideia de ser uma crônica cotidiana para falar das questões do amor, da passagem do tempo. E bastante rápida, como tem que ser uma crônica mesmo, para ser publicada em jornal. Utiliza a ideia do acidente vascular cerebral ou do coração e o nome "crônico" para remeter à esse gênero literário.

Sobre o autor

Sempre gostei de escrever. Até mesmo antes de entrar na Caixa Econômica Federal, participei com alguma regularidade de concursos, prêmios e oficinas literárias. Este hobby ficou um pouco adormecido por um bom tempo e agora estou retornando com muita vontade de produzir nesta parte da minha vida daqui em diante.

Autor(a): CARLOS FELIPE LACERDA RAMALHO (Carlos Ramalho)

APCEF/DF