Círculo Vicioso

Círculo Vicioso

Ele nasceu sem asas. Não poderia ser comparado a uma mosca, também não sairia galopando como um cavalo alguns minutos depois de nascer.
Não lhe foi dado o direito de escolher e se lhe fosse dado esse direito, nunca saberemos. Mas o fato é que nasceu um ser humano, limitado a apenas observar, aprender e imitar.
Logo soube quem era sua mãe. O pai...conheceu algum tempo depois, pois estava ocupado demais para acompanhar sua esposa até o hospital.
Uma das primeiras lições que aprendeu, era a de ter um pai ausente em boa parte do tempo, e quando aparecia, tentava compensar sua “insignificância” com brinquedos e distrações que nem de longe substituíam sua presença.
O tempo passou, e por aguçar sua curiosidade de criança ou por um movimento interno não compreendido, o amor por aquele pai se mostrava presente na imaginação daquele garoto. Achava que era forte e craque de bola como o pai dele. Não que tivesse visto o pai jogar, mas pelo simples motivo de uma promessa de aparecer qualquer dia para jogar bola com ele.
Ganhou uma bola da mãe e jogava com os amigos, e perdoava o pai por achar que ele não aparecia porque era um herói muito ocupado.
A roda do tempo movimentou mais um pouco e encontrou o garoto na adolescência apaixonado por poesia, escrevendo poemas para um pai idealizado, que continuava a existir apenas na sua fantasia cada vez mais desgastada. Nunca mostrou suas poesias, por não conseguir tempo suficiente para uma conversa mais longa e profunda. Ou por se sentir tão insuficiente em meio a tantas orientações sobre responsabilidades na vida, as quais ele mesmo não observava no pai. Mas isso era parte constante no seu discurso, nas escassas vezes em que este aparecia para vê-lo.
Como era de se esperar, a virada de chave aconteceu. Então aquele amor contido transformou-se em mágoa disfarçada de ódio e palavras ásperas, gritos de liberdade e a promessa de ser diferente do que era seu pai.
Avançando no tempo, aquele garoto que ia mudar o mundo, teve que se adaptar para sobreviver. Escolher um caminho entre tantos, era perder coisas por um lado para ganhar do outro. E assim, deixando a veia poética, sufocou o que poderia ter sido, para se transformar naquilo que parecia viável ao conforto do ter.
Convenceu-se de que “poesia não enchia barriga”, como seu pai sempre dizia, nem garantia os bens que aprendeu a almejar. Especializou-se numa profissão de boa renda. Aperfeiçoou-se, tornou-se bom e reconhecido, valorizado como uma boa peça na engrenagem, logo se tornando referência. E foi engolido como na letra de Caetano ”pela força da grana que ergue e destrói coisas belas...”
Embora não percebesse, seu pai ainda permeava tudo, como uma cicatriz que não dói mais, mas que fica como uma lembrança.
Logo conheceu uma garota pela qual se apaixonou. Porém o ritmo que imprimia à sua vida, não lhe permitia viver uma relação debaixo de um mesmo teto. Até tentou, mas durou poucos meses e se separaram. Nesse breve tempo de convivência, sua paixão ficou grávida, mas eles só ficaram sabendo depois da separação.
A gravidez não o fez mudar de opinião. Mesmo apaixonado, ele preferiu continuar por outros caminhos , sem deixar de dar toda assistência para ela e para o feto que se desenvolvia.
Em meio a todos esses acontecimentos, viu no celular, uma mensagem de seu pai pedindo para visitá-lo, pois queria lhe falar algo importante. Mas não deu tempo de saber o que era. Quando chegou à casa de seu pai, encontrou a porta da sala entreaberta e seu corpo no chão da sala, morto por um infarto fulminante. Sentiu-se culpado por não ter chegado mais cedo a tempo de socorrê-lo, mas como seu pai mesmo falava, “na vida a gente tem que ser prático”. Cuidou te tudo para que seu pai tivesse um enterro decente e concentrou-se no que estaria por vir: seus negócios e o nascimento de seu filho.
No parto prematuro, não esteve presente, pois tinha viajado a trabalho. Continuou sendo um provedor exemplar, apenas no fator financeiro, pois não sobrava tempo para se dar ao luxo de ser um pai de maneira mais presente. Entre promessas de aparecer para jogar uma bola, passear de bicicleta, ou simplesmente estar presente, tudo se cumpria pela metade. Entre visitas interrompidas pelo toque de um celular e a urgência de algum negócio inadiável, não percebia que repetia uma fórmula que ele já tinha visto, mas de um outro ponto de vista.
Na adolescência do filho, procurou orientá-lo para o que achava que seria o correto, tentando demovê-lo do que pensava ser distrações. Com pouco jeito de aplicar o que não conhecia, não sabia ouvir o que o filho lhe falava, não perguntava sobre seus sonhos, e apenas tentava fazê-lo ver que, o que daria certo na vida era o que tinha dado certo para ele.
Paulatinamente, a relação com seu filho foi se deteriorando. Não conseguiam mais manter algum vínculo de comunicação, e o distanciamento seguiu um caminho quase natural.
Com alguns anos passados, pedia sempre notícias de seu filho, às vezes se falavam, mas não diziam o que realmente pensavam, não reclamavam, não mostravam suas feridas, não tiravam a casca que os protegiam da dor.
Depois de tanto reconhecimento no mercado, tendo escrito um livro de excelência sobre seus métodos profissionais para alcançar o sucesso financeiro, e não tendo mais uma motivação que o fizesse continuar, foi aos poucos, se desligando do mundo dos negócios. Acompanhava, com certa satisfação, que o filho seguia seu caminho, mesmo que, em princípio, não quisesse trilhar seus passos.
Durante o irremediável declínio físico que a idade reserva a todos os seres humanos, estava cada vez mais sozinho, porém com boas condições financeiras para uma assistência médica de qualidade. Procurava manter hábitos saudáveis, para tentar prolongar o que fosse possível de sua vida.
De vez em quando tinha esquecimentos triviais e outras vezes as lembranças do passado lhe vinham com força. A poesia, os sonhos simples de querer jogar bola, o desejo por um passeio de bicicleta, a falta da presença do pai.
Lembrava-se que sua mãe preenchia todos os espaços de amor e tentava suprir o vazio deixado pelo seu pai. Mas aquele vazio seria impossível de ser preenchido.
Em meio a pensamentos confusos, achou que talvez tivesse nascido com asas, mas nunca se permitiu voar. Talvez tivesse a capacidade de galopar livre feito um cavalo selvagem, mas também nunca se atreveu a fazê-lo.
De repente, percebeu que não tinha conseguido quebrar o círculo vicioso e desejou ardentemente, apenas estar com seu filho, dar-lhe um grande abraço e lhe pedir desculpas.
Com as mãos trêmulas conseguiu alcançar o celular, passou uma mensagem pedindo para o filho vir visitá-lo, pois queria lhe falar algo importante. Dirigiu-se até a porta, que naquele momento estava entreaberta, mas não deu tempo de dar dois passos. Foi acometido de um infarto fulminante.

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Inspiração

A ideia partiu de parte da experiência de ter um pai ausente e o quanto isso influencia em nossa vida toda, onde acabamos, mesmo sem querer, repetindo hábitos. Não vivi a vida da história que criei, mas usei minha experiência de vida como referência.

Sobre a obra

A narrativa em terceira pessoa me agrada, e procuro deixar o texto interessante fazendo esse jogo de amarração, procurando não deixar pontas soltas, para amarar também o leitor, numa narrativa que não entrega a história toda logo de cara.

Sobre o autor

Artista plástico por vocação e ator de teatro como bônus da vida. Minha vida toda, fui fascinado pelo desenho e acabei, inclusive, fazendo faculdade de artes aqui em Curitiba. O teatro surgiu com meus 46 anos, resgatando um prazer adormecido, pela escrita e contação de histórias, tão característico da literatura e das artes cênicas.

Autor(a): NELSON BONFIM DO PRADO (Nelson Bonfim do Prado)

APCEF/PR


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