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Ainda assim, o Amor
Ainda Assim, o Amor
Apesar da vida corrida, quando a gente mora sozinho e distante de todos, acaba
sobrando tempo. E, às vezes, um tempo cruel, desses em que a gente simplesmente não sabe
o que fazer consigo mesmo. É nesses momentos que buscamos distrações que, digamos
assim, não são exatamente motivo de orgulho. Passar Reels no Instagram, por exemplo.
Não venha me criticar também, leitor. Eu sei muito bem que você faz isso. Todos nós,
uma hora ou outra, caímos nesse abismo em que prometemos assistir a um vídeo e, quando
percebemos, já se passou uma hora. Mas tudo bem. Isso distrai a cabeça, libera dopamina e,
entre uma receita que nunca faremos, uma viagem que talvez nunca façamos e a vida
perfeita de alguém que provavelmente nem é tão perfeita assim, aparecem algumas coisas
que nos fazem pensar. Às vezes, pensamentos bons; às vezes, nem tanto.
Foi numa dessas noites que encontrei um Reel que dizia mais ou menos assim: “Já fui
casada, já me divorciei, já fui namorada, já fui amante, já tive ficante, já tive conversante e,
de todos esses, o que eu recomendo é viajar.” Ri. Depois parei de rir. Talvez porque tenha
me reconhecido em mais daqueles papéis do que gostaria de admitir. Talvez porque, apesar
de tudo o que já vivi, eu não concordasse com a conclusão.
Sou virginiana, realista, pé no chão, dessas que gostam de acreditar que conseguem
enxergar a vida exatamente como ela é. Mas meu coração insiste em encontrar sentido nos
encontros, nas pessoas e na possibilidade de ser correspondido com a mesma intensidade
com que ama. Com o tempo, aprendi que não funciona exatamente assim. A gente oferece
aquilo que tem, e cada um dá o que consegue. Nem todo mundo sabe acolher o que recebe.
Tudo parece perfeito no namoro! Ah, os namoros da juventude… Naquela época,
bastava um rosto bonito, um sorriso interessante e algumas borboletas no estômago para a
gente acreditar que havia encontrado o amor da vida. A gente não perguntava sobre planos,
objetivos ou futuro, muito menos sobre caráter. Apaixonava-se pela superfície e acreditava
que os momentos bons seriam suficientes para sustentar uma vida inteira.
Só que não são. Com o tempo, outras coisas começam a importar, e então a gente
termina, recomeça, conhece outro alguém, termina novamente e segue nessa busca quase
ingênua pela pessoa perfeita. Que triste ilusão. Não existe pessoa perfeita, e o amor também
nunca será perfeito. Talvez sua beleza esteja justamente nisso: duas imperfeições tentando
aprender a caber uma na outra. Mas essas coisas a gente só entende quando a maturidade
chega.
Antes dela, veio o casamento. E casamento, aprendi, é outra coisa. É um acordo entre
duas pessoas que decidiram construir um lar e uma vida juntas e, como em qualquer
sociedade, é preciso haver objetivos minimamente comuns. Imagine dois remadores dentro
de um barco. Se os dois remam na mesma direção, o barco segue. Mas, quando um começa a
remar para um lado e o outro insiste em remar para o lado oposto, o barco gira, desgasta,
entra água, até que um dia afunda.
O meu afundou.
E, se o seu também afundou ou estiver afundando enquanto você lê isto, quero lhe
contar uma coisa: não se desespere. Você sabe nadar! Encontrará um jeito de continuar.
Talvez precise carregar uma filha, alguns sonhos quebrados e outros tantos que ainda precisa
construir. Vai cansar e, em alguns momentos, achará que não conseguirá chegar ao outro
lado. Mas chega. Eu cheguei. E, quando finalmente pude recomeçar, descobri que o sol
ainda nascia no horizonte.
Quando tudo acaba, a gente entristece. Claro que entristece. Não vou romantizar o fim e
lhe dizer que basta levantar a cabeça, colocar uma roupa bonita e seguir em frente. Existem
dias escuros, existem períodos em que a tristeza parece ocupar todos os cômodos da casa.
Mas ela passa, e você renasce. Mais do que isso: você se redescobre. Começa a olhar para
dentro e encontra forças que nem sabia que possuía.
Foi assim que voltei a procurar o amor. Não porque precisasse que alguém me salvasse,
mas porque queria encontrar alguém que reconhecesse aquilo que havia em mim e tivesse
algo igualmente verdadeiro para oferecer. Só havia um pequeno problema: enquanto eu
estava ocupada casando, tendo filha e construindo sonhos, aparentemente mudaram as regras
do amor.
Quando voltei, já não havia namoro. Havia “ficante”. Descobri também que as relações
agora são “fluidas”. Fluidas? Eu tenho outro nome, mas é melhor deixar para lá. O fato é que
esse parece ser o jogo e, se estamos aqui, em algum momento acabamos jogando.
Então entramos nessa selva de sentimentos em que ninguém pode demonstrar demais,
porque corre o risco de ser chamado de emocionado, mas também não pode demonstrar de
menos, porque parecerá desinteressado. Um verdadeiro tratado diplomático. Curtidas
substituíram aproximações, emojis de foguinho substituíram olhares e declarações de amor,
pelo visto, foram consideradas excessivamente comprometedoras. Não sei exatamente onde
perdemos o encantamento; só sei que antigamente parecia mais interessante.
Os ficantes vêm e vão. São rápidos, passageiros, superficiais. E não digo isso como
julgamento. Talvez funcione para muita gente. Para mim, porém, havia alguma coisa
faltando: intimidade. Vi certa vez uma frase que dizia que não se pode construir nada sólido
sobre uma base instável. Talvez seja isso. Eu já havia vivido o suficiente para não me
satisfazer com relações que mal começavam antes de terminar. A vida de ficante não me
completava.
Mas, se você pensa que essa é a parte complicada da história, está enganado. Existe coisa
pior: o amor proibido.
Ah, leitor… O amor proibido é terrível, avassalador. Talvez a própria impossibilidade
intensifique tudo: a atração, o sentimento e a saudade. Ah, como intensifica a saudade.
E triste de nós, os emocionados, que, mesmo depois de tantas decepções, ainda nos
permitimos sentir. Porque, quando a maturidade chega, já não nos encantamos tão
facilmente pela aparência. Beleza ainda chama atenção, é claro - não sejamos hipócritas -,
mas ela já não sustenta encantamento. A gente procura outras coisas: cuidado, gentileza,
admiração, presença e reciprocidade.
E, quando encontramos tudo isso em alguém, ah, meus amigos, é bom demais. Você
descobre que ainda consegue sentir aquela ansiedade adolescente, só que dentro de um
coração maduro. Consegue viver algo bonito, intenso, extraordinário, justamente quando já
imaginava ter aprendido tudo o que havia para aprender sobre o amor.
E talvez esse seja o perigo. Por algum tempo, você esquece que está sonhando, até
acordar. De repente, a realidade entra no quarto sem bater e acende todas as luzes. E você
percebe que aquilo que sentiu não era mentira. O amor era real, a reciprocidade era real, o
cuidado era real. O impossível era todo o resto.
Porque existem amores que encontram duas pessoas, mas não encontram um lugar no
mundo onde possam existir.
E então acaba. Ou, talvez, algumas histórias nem acabem de verdade; apenas deixam de
poder acontecer. Os motivos podem ser muitos: medo, escolhas, responsabilidades, outras
vidas envolvidas. O nome da causa pouco importa quando a consequência é sempre a
mesma: a separação.
E você passa a carregar um amor que não pode mostrar, tocar ou viver como gostaria.
Um sentimento que precisa sobreviver em pequenas mensagens, conselhos, gestos de
cuidado, incentivos e perguntas aparentemente banais que escondem tudo aquilo que não
pode ser dito. Talvez seja essa a forma mais estranha de amar alguém: querer cuidar sem
poder abraçar, sentir saudade sem poder simplesmente procurar a pessoa e não saber
exatamente onde colocar tudo o que ainda sente.
Mas há uma coisa que ninguém consegue fazer: proibir um coração de sentir aquilo que
já sente. Podem-se impedir encontros, evitar palavras, estabelecer limites e até decidir partir.
Mas ninguém assina um decreto ordenando ao coração: “A partir de amanhã, não ame
mais.” Se fosse assim, meu caro leitor, a vida seria muito mais simples. E talvez muito
menos bonita.
Pois é. Continuei passando Reels até que apareceu outro. Dizia: “Quanto ao amor, não
tive sorte, mas eu acho lindo.”
Mas não vou dizer que é simples. Nem foram bonitas todas as minhas histórias.
Algumas terminaram, outras me ensinaram a recomeçar, algumas foram breves demais para
deixar raízes, e houve aquela em que finalmente encontrei algo verdadeiro, mas descobri que
não podia vivê-lo por inteiro.
Ainda assim, se depois de tudo isso você me perguntar se vale a pena amar, minha
resposta continua sendo sim. Não porque o amor seja simples ou seguro, mas porque amar e
descobrir-se amado é uma das poucas experiências capazes de nos lembrar, com uma força
quase absurda, que estamos vivos.
Então viaje. Viaje muito, conheça lugares, veja o mundo. Passe Reels quando não tiver
nada melhor para fazer - eu prometo não julgar. Mas não transforme a decepção em
desistência. Continue se permitindo sentir, continue tentando, continue amando.
Porque talvez o amor não venha como você imaginou. Talvez não permaneça pelo
tempo que você gostaria. Talvez chegue tarde, cedo demais ou justamente quando não
deveria chegar. Mas, quando for verdadeiro, alguma coisa dele permanecerá: às vezes, uma
lembrança; às vezes, uma saudade; às vezes, alguém que já não participa da sua vida e, ainda
assim, continua presente em algum lugar do coração.
E, se quer mesmo saber o que eu recomendo depois de tudo o que vivi, viajar é
maravilhoso.
Mas amar? Ah, leitor… Amar ainda vale a viagem.
Inspiração
Um vida com amor!
Sobre a obra
Uma reflexão dos amores que tive!
Sobre o autor
Uma mulher que acredita no amor apesar de tanto desamor na vida!
Autor(a): JOSEANE SENE MACHADO (Joseane Sene)
APCEF/PI
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