Adolescer

Outro dia, eu ainda segurava a sua mão pequena e firme para atravessar a rua. Ajustava o passo ao dele, cuidando para que nenhuma calçada esburacada ou carro afoito cruzasse o nosso caminho. Hoje, preciso aceitar a ideia de que ele prefere andar alguns metros à minha frente. Caminha com passos longos, ombros um pouco curvados pela pressa de chegar a algum lugar que eu ainda não consigo enxergar — ou seria apenas a sutil e inevitável vergonha de ser visto na companhia da mãe? Ontem, eu o levava pela mão para apresentar o mundo; hoje, ele quer desbravá-lo sozinho, sem plateia e sem os pais ou os avós.
— Mãe, eu já posso voltar da escola sozinho? Na minha idade, você já ia e voltava andando.
— Mas, filho, na minha época era diferente. O trânsito não era essa loucura, o caminho não era tão deserto, e todo mundo se conhecia no bairro...
Assim começou. Mesmo diante das minhas explicações cheias de zelo e de medos antigos, ele quer provar a si mesmo que pode, que é capaz, que a independência não é um privilégio dos adultos, mas uma conquista da qual ele já se sente merecedor. E ele insiste, com a teimosia serena de quem sente o futuro chamando. Combinamos um meio-termo: vou buscá-lo de carro, mas já o encontro no meio do trajeto, cumprindo a pé pelo menos metade do caminho.
Um dia, eu o avisto de longe. Paro o carro na margem da rua e fico observando sem que ele note de imediato. Ele vem caminhando com a postura de quem domina o próprio território, sem hesitação nos passos, feliz por ter quase alcançado o destino por conta própria. Quando finalmente me vê no banco do motorista, a carcaça de menino grande se desfaz por um segundo e ele abre aquele mesmo sorriso da infância, com o rosto iluminado pela vitória simples da tarde.
— Viu, mãe? Eu quase consegui voltar tudo sozinho!
Eu me encho de um orgulho bonito, daqueles que fazem o peito esquentar, mas o coração de mãe parece relutar em aceitar o óbvio. Tempo, vai mais devagar, penso em silêncio enquanto ajeito o espelho retrovisor. A minha vontade mais primordial era a de guardá-lo numa caixinha de veludo, protegida do vento, das frustrações e das dores da vida, mantendo-o comigo para sempre naquele tamanho em que um abraço apertado resolvia qualquer tristeza.
Mas essa caixinha imaginária ficou pequena demais para este adolescente que já me ultrapassou em altura, que ostenta mãos grandes e uma curiosidade imensa sobre tudo o que existe do lado de fora. O mundo inteiro agora é a sua caixa, e ele tem pressa de abrir a tampa, de experimentar os próprios erros, de testar a força das suas asas.
Aos poucos, as pequenas concessões vão se somando. Hoje é o direito de voltar a pé da escola; amanhã, o encontro com os amigos no shopping no fim de semana; depois, os passeios em que a minha presença já não é apenas desnecessária, mas um ruído no seu processo de afirmação. Ele vai conquistando o seu espaço no mapa com uma coragem que me fascina e me assusta na mesma proporção.
Olho para dentro de casa e vejo os vestígios dessa metamorfose. O quarto, que antes transbordava de brinquedos espalhados pelo chão e desenhos coloridos colados na parede, hoje guarda um silêncio diferente. Os bonecos deram lugar aos fones de ouvido; as conversas intermináveis e ingênuas sobre histórias inventadas foram substituídas por respostas curtas, monossílabos tímidos e portas semifechadas que pedem privacidade. A mochila escolar, antes leve e estampada, agora é pesada, discreta, cheia de cadernos densos e de responsabilidades que começam a desenhar o contorno da sua vida adulta.
Percebo, então, que talvez a parte mais difícil de ser mãe de um adolescente não seja encarar as mudanças bruscas que acontecem no corpo e no humor dele — o estirão repentino, a voz que oscila, o desejo repentino de isolamento. O verdadeiro desafio é encarar as transformações que acontecem silenciosamente dentro de mim.
Enquanto ele tenta descobrir quem é, tateando entre a infância que ficou para trás e a juventude que se aproxima, eu preciso aprender, dia após dia, como ser mãe de alguém que não cabe mais no meu colo. Já não sou mais o centro do seu universo, a resposta para todas as suas dúvidas ou o refúgio para todos os seus medos. Tornei-me um porto — e o papel do porto não é reter o barco, mas garantir que haja um lugar seguro para onde retornar quando o mar aberto ficar agitado demais.
O maior e mais nobre desafio da maternidade nessa fase é exatamente este: aprender a arte de soltar as mãos. Soltar os dedos aos poucos, engolindo a ansiedade de querer guiar cada passo, sem jamais deixar de estar por perto. Estar a uma distância justa, pronta para oferecer o colo, a escuta e o amor incondicional sempre que ele precisar de uma pausa na sua caminhada rumo ao mundo.

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Inspiração

Minha inspiração veio da convivência com seu filho, Giovanni, aos 13 anos. A crônica nasce de gestos simples do dia a dia, como o pedido dele para voltar sozinho da escola. Esse movimento de independência despertou em você o contraste entre a infância e o adolescer, revelando o desafio maternal de soltar a mão sem deixar de estar por perto.

Sobre a obra

A crônica "Adolescer" usa o contraste entre a infância e o presente para tratar do amadurecimento. Partindo de um fato simples — o pedido do filho para voltar só da escola —, a narrativa expande a cena para o quarto e os novos hábitos, revelando a virada do texto: o desafio da mãe em soltar a mão e redefinir seu papel como um porto seguro.

Sobre o autor

Você é Jaqueline Santana, carioca, mãe dedicada do Giovanni. Aos 48 anos, equilibro a vida em família, os estudos e a paixão pelo Bahia com um olhar sensível para a escrita e a maternidade. Em nova fase, une afetos, arte e projetos pessoais com a vontade constante de aprender, criar e conquistar o seu espaço.

Autor(a): JAQUELINE FERREIRA BOMFIM COSTA SANTANA (Jaque)

APCEF/BA