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A mulher que corria para casa
A mulher que corria para casa
Dizem que toda mulher tem uma casa.
Algumas nascem dentro dela.
Outras passam a vida procurando.
Ela passou muito tempo construindo.
Não sabia exatamente o que estava construindo. Só sabia que precisava ser forte o suficiente para não desabar.
Primeiro vieram as paredes invisíveis.
O trabalho.
As responsabilidades.
As pessoas que precisavam dela.
As coisas que ninguém mais sabia resolver.
Ela aprendeu cedo que, quando alguma coisa quebrava, era melhor descobrir como consertar do que esperar alguém aparecer.
E assim foi ficando boa nisso.
Boa demais.
Tão boa que, com o tempo, as pessoas começaram a acreditar que ela não precisava de ninguém.
Ela também começou a acreditar.
Todas as manhãs, antes que a cidade acordasse completamente, ela colocava o tênis.
Ainda estava escuro.
Havia dias em que o corpo reclamava.
Havia dias em que o joelho lembrava que o tempo passava.
Havia dias em que a perna pesava.
Havia dias em que o coração pesava mais.
Mesmo assim, ela saía.
Corria.
Não sabia explicar exatamente por quê.
Talvez porque, durante alguns quilômetros, ninguém lhe pedisse nada.
Não havia telefone.
Não havia reunião.
Não havia problema para resolver.
Não havia expectativa.
Só havia o som da própria respiração e o movimento dos pés contra o chão.
Ela gostava daquela sensação.
A cidade ainda dormindo.
O céu começando a clarear.
E aquela pequena certeza de que, enquanto corria, pertencia inteiramente a si mesma.
Certa manhã, depois de uma corrida particularmente difícil, ela parou.
Ficou olhando para o relógio.
A distância estava ali.
Um número.
Depois outro.
Ela sorriu.
Não porque tivesse sido fácil.
Justamente porque não tinha sido.
Guardou o relógio no bolso e continuou caminhando.
Foi então que percebeu uma coisa estranha.
Ela havia passado anos tentando chegar a algum lugar.
Um determinado peso.
Um determinado cargo.
Uma determinada casa.
Uma determinada versão de si mesma.
E, ainda assim, nunca se sentia chegada.
Como se houvesse sempre uma próxima montanha.
Uma próxima prova.
Uma próxima coisa a conquistar antes de finalmente poder descansar.
Naquela manhã, pela primeira vez, ela se perguntou:
— E se eu já tiver chegado?
A pergunta ficou com ela o resto do dia.
Ela tinha uma casa nova.
Ainda cheirava a tinta.
Havia caixas pelos cômodos e coisas que ainda não tinham encontrado lugar.
Ela gostava de imaginar onde ficaria cada objeto.
A madeira.
O espelho.
As plantas.
A mesa.
A luz quente.
Queria que a casa tivesse uma coisa difícil de comprar:
paz.
Não precisava ser enorme.
Não precisava impressionar ninguém.
Precisava apenas parecer com ela.
No fim da tarde, sentou-se sozinha na varanda.
Os cachorros estavam por perto.
A cidade seguia fazendo barulho lá fora.
Ela olhou para dentro.
Pensou em tudo que tinha levado para chegar até ali.
E percebeu que havia algo que não estava em nenhuma caixa.
Não estava nos móveis.
Não estava nas paredes.
Não estava nas chaves que segurava na mão.
Era a sensação de finalmente ter um lugar que não precisava dividir com uma versão antiga de si mesma.
A casa ainda estava vazia.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não estava.
Ela também havia amado.
Talvez ainda amasse algumas lembranças.
Porque o coração é inconveniente.
Ele não entende contratos.
Não respeita assinaturas.
Não sabe que uma história terminou porque alguém decidiu que terminou.
Durante algum tempo, ela confundiu ficar com ser escolhida.
E ser necessária com ser amada.
Então tentou compreender onde tinha errado.
Procurou defeitos em si mesma.
Repassou conversas.
Relembrou silêncios.
Perguntou se poderia ter sido mais leve.
Mais bonita.
Mais paciente.
Menos exigente.
Mais alguma coisa.
Até que um dia cansou.
Não de amar.
Cansou de negociar a própria existência para que alguém permanecesse.
E foi embora.
Não saiu batendo portas.
Não fez grandes discursos.
Apenas pegou o que era seu e começou a reconstruir os cômodos internos que haviam ficado vazios.
Foi difícil.
Mas descobriu uma coisa:
algumas ausências não precisam ser preenchidas.
Precisam apenas deixar de doer.
No trabalho, ela continuava sendo aquela mulher que entrava numa sala e perguntava:
— Qual é o problema?
E, antes que alguém respondesse completamente, já estava pensando em como resolver.
Ela acreditava em regras.
Mas acreditava, sobretudo, que regras deveriam servir para fazer a coisa certa.
Às vezes isso a colocava em lugares desconfortáveis.
Ela não gostava de injustiça.
Não gostava de silêncio quando o silêncio parecia medo.
Não gostava de gente usando brincadeira para dizer coisas que não teria coragem de dizer seriamente.
Não gostava de ver pessoas se calando apenas porque tinham medo das consequências de falar.
E, mesmo sabendo que se posicionar podia custar caro, havia alguma coisa dentro dela que insistia:
Se você sabe que não está certo, não finja que não viu.
Ela nem sempre sabia exatamente o que fazer.
Mas sabia que não queria se tornar alguém que assistia de braços cruzados.
Certa noite, cansada, ela chegou em casa.
Tirou os sapatos.
Deixou a bolsa sobre uma cadeira.
Os cachorros vieram recebê-la como se ela tivesse voltado de uma viagem de seis meses.
Ela riu.
Sentou no chão.
Um deles encostou a cabeça em sua perna.
O outro se acomodou perto dela.
Por alguns minutos, não fez nada.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma decisão.
Nenhuma cobrança.
Só ficou ali.
E pensou que talvez a vida fosse feita dessas coisas pequenas que ninguém fotografa.
Um cachorro respirando perto.
Uma casa silenciosa.
Um café de manhã.
Uma corrida antes do sol.
Uma conversa honesta.
Uma mesa com pessoas queridas.
Um corpo que, apesar de tudo, ainda a levava para onde queria ir.
Ela fechou os olhos.
E, pela primeira vez, não sentiu necessidade de agradecer por ter sobrevivido.
Sentiu vontade de agradecer por estar viva.
Era diferente.
Meses depois, numa manhã qualquer, ela saiu para correr novamente.
O céu ainda estava escuro.
O mundo ainda não havia começado.
Ela ajeitou o relógio no pulso.
Respirou.
E começou.
Não corria mais para emagrecer.
Não corria para provar resistência.
Não corria para mostrar que conseguia.
Corria porque gostava.
Depois de alguns quilômetros, diminuiu o passo.
Olhou para o céu.
Havia uma faixa cor-de-rosa surgindo no horizonte.
Ela parou.
Ficou ali.
Sozinha.
Sem plateia.
Sem medalha.
Sem ninguém para dizer que aquilo era uma vitória.
E talvez fosse justamente por isso que fosse.
Ela percebeu que havia passado anos tentando chegar a uma versão de si mesma que finalmente fosse suficiente.
Mas aquela mulher não existia.
Existia outra.
Uma mulher cansada às vezes.
Forte às vezes.
Medrosa às vezes.
Brava.
Sensível.
Teimosa.
Generosa.
Imperfeita.
Viva.
Ela sorriu.
Então voltou a correr.
Não para fugir de alguma coisa.
Não para chegar a algum lugar.
Mas porque havia aprendido, finalmente, a diferença.
Naquele dia, ela não estava correndo para encontrar uma casa.
Estava correndo porque já tinha uma.
E a casa era ela.
Essência.
Movimento.
Fé.
E, pela primeira vez, as três palavras não pareciam um lema.
Pareciam uma vida.
A vida que ela ainda estava aprendendo a viver.
Sem pedir licença.
Sem precisar provar nada.
Inteira.
Do jeito dela.
E, enquanto o sol nascia sobre a cidade, ela continuou.
Porque algumas histórias não terminam quando a personagem encontra aquilo que procurava.
Algumas histórias começam ali.
Inspiração
Escrevi por cansaço de me diminuir para caber. Cresci pedindo desculpas por ser intensa e sensível. Um dia entendi: não preciso me desculpar por existir. O poema nasceu desse grito de liberdade, para lembrar a mim e a outras mulheres que ser inteira não é defeito.
Sobre a obra
Poesia livre em versos curtos, com anáfora e repetição de 'Não peço desculpas' para criar ritmo e força. Usei imagens do pós-chuva e arco-íris como metáfora de renascimento. Linguagem simples, direta e afetiva, sem rima fixa, para soar como manifesto.
Sobre o autor
Sou Edilene Macedo, de Aracaju-SE. Mulher que não pede desculpas por ser quem é. Meu talento é transformar sentimentos em palavras e fotos que acolhem. Escrevo e fotografo o que sinto, com alma, sem filtro. Sou.
Autor(a): EDILENE MACEDO MENEZES (Edilene Macedo)
APCEF/SE
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