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A vida por entre fios
A vida por entre fios
E lá estavam eles, dia sim e dia também, aqueles cabelos naquele bendito ralo. Eu não costumo tomar incômodos para meus dias, em especial por coisas que me parecem inevitáveis; contudo, o passar do tempo foi me trazendo novas percepções e pensamentos. Como podem se desprender tantos fios e, ainda assim, aqueles cabelos seguirem tão perfeitamente volumosos? Essa pergunta passou a me intrigar no silêncio de meus pensamentos, tanto que me lembrei de um amigo que, certa vez, ao ser indagado sobre por que estava indo cortar os cabelos no horário de trabalho, respondeu prontamente: porque os meus cabelos crescem enquanto trabalho, ora! E, com a frase ecoando em minha cabeça, segui na caminhada de volta para casa. Cheguei, beijei a família e me guiei para o banho que lava a alma depois de um dia de trabalho, sem pressa... O dia foi de muito bem-fazer. Sim, estavam lá cabelos e pelos a cobrir o ralo novamente e, como Sísifo com sua pedra, juntei-os e os rolei para o cesto.
Chegaram as férias das crianças e a casa ficou enorme, pois naquelas férias eu me deixei para trás. O dever me chamava, melhor acreditar assim. E finalmente eu teria a visão do ralo sem o tecido que o enleava, sem a manta que se formava nos dias e que, sem dó, eu destecia. Foi assim nos primeiros três dias; o número perfeito me sorria. Já no banheiro do quarto, no quarto dia, a cena jamais esperada me surpreendeu... Lá estava o ralo novamente encoberto, mas como isso podia acontecer? Somente eu a me fazer companhia e, sem muito pensar, cheguei à única conclusão que cabia: os cabelos e pelos também eram meus!
Inspiração
A inspiração surgiu de uma cena simples e recorrente: os cabelos acumulados no ralo do banheiro. A repetição despertou em mim curiosidade e certo humor. Ao observar o cotidiano com mais atenção, percebi que aquele pequeno incômodo poderia revelar algo sobre o tempo, a rotina e sobre mim mesmo. Foi revelador perceber que eu tinha “culpa”.
Sobre a obra
Escrevi a crônica a partir de uma implicância com algo do meu cotidiano. Utilizei narrativa em primeira pessoa, humor e a repetição como recurso. Trouxe para Sísifo para reforçar a ideia de uma tarefa interminável. Conduzi o texto como um pequeno mistério, deixando a revelação para o final, quando o narrador se vê também como dono dos fios.
Sobre o autor
Sou alguém que gosta de ler e apreciar os talentos alheios. A literatura me causa encanto e me apresenta as coisas belas da vida.
Autor(a): JERRY FIUSA DOS SANTOS (Jerry Fiusa)
APCEF/RO
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