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O portão onde a vida nasce
O portão onde a vida nasce
Como assim? Retrucou ela, sem entender nada do que tinha ouvido e, no fundo, achando que o marido já estava perdido em seus pensamentos.
Bom, deixa eu tentar ser mais claro. Ele deu uma pequena pausa, calibrando as palavras e continuou: imagina uma letra japonesa, dessas que tem um desenho que as vezes parece uma casa ou um chapéu em cima de uns traços, até aí tudo certo?
Claro que tá, isso aí tranquilo né! A mulher, na verdade, sabia que a coisa iria piorar, pois estava calejada com as digressões do outro sempre que terminavam de assistir um filme que ele tivesse gostado.
Agora vamos avançar um pouquinho e imaginar uma frase escrita nesse idioma; e mais ainda, uma página toda coberta dos caracteres japoneses, algo que para nós, brasileiros, pode até ser bonito de se ver, mas que é completamente sem sentido. A gente sabe que existe um significado para aquilo tudo, mas só de se deparar com aquela diferença abissal com o nosso alfabeto, a impressão que se tem é de que precisaríamos de uma vida inteira para decifrar aquele enigma. E foi assim que Nael reiniciou a tentativa de exprimir aquela ideia que tinha tido, de súbito, após a sessão que o casal sempre fazia no sábado à noite.
Joyce, mais para tentar ganhar tempo, do que para agregar no assunto, emendou: olha, tu falando isso, lembrei que na casa da minha mãe, não sei por que, tinha um livro jogado por lá, que era todo em japonês. Eu e a minha irmã, a gente ficava folheando ele todo e se perguntando: mas que diabos deve tá escrito aqui. Bom, então consigo visualizar bem esse teu exemplo aí.
Ótimo! Mas sabe mesmo o que é louco dessa questão? Por mais que a pergunta fosse retórica, ele ficou aguardando uma resposta dela.
Hum. Mesmo entendendo que a pergunta era retórica, ela se prontificou a um grunhido que satisfazia totalmente o objetivo daquele diálogo.
É que no Japão todo mundo, até as crianças alfabetizadas, sabe o que aquilo tudo, tão bizarro para nós, quer dizer. E Nael finalizou essa frase com tanto entusiasmo, que até se sentou na cama, para olhar melhor a esposa, talvez para ver a reação dela, após tamanha façanha transcendental.
Ahh Nael, assim também tu quer me sacanear né! Acaba o filme, tu aparece com uma explicação maluca que eu não sei nem por onde começa ou termina; e agora tenta reexplicar com essa bobagem que tá mais pra piada de tiozão do que outra coisa. Bora comer que é, que bateu foi uma fome depois dessa parada aí. E Joyce se levantou e foi saindo do quarto em direção a cozinha.
Mas Nael, não se dando por vencido, foi atrás dela e continuou sua tese. Calma aí, bora fazer alguma coisa mesmo, também tô na larica aqui, mas vamo conversando, preciso tentar te esclarecer meu pensamento sobre isso. A gente faz o que, come esse resto de pizza mesmo? É só esquentar, aí tem o doce ainda, pronto, já é!
Pode ser isso mesmo, tá de boa, mas acho que tu tá falando isso agora, só porque o filme era japonês e a gente até tinha comentado que era engraçado ver eles falando, porque parece que eles falam um montão de coisa e a legenda só aparece uma frasezinha de nada, é bem estranho mesmo. Joyce colocou duas fatias de uma pizza que estava pela metade, na geladeira, em um prato e, logo depois, o colocou no micro-ondas, deixando-as aquecendo por um minuto.
Não, não é bem isso. De fato, o letreiro japonês, aquele sob o pórtico da cidade, e que não foi traduzido no filme, me deixou curioso, mas o que tô tentando dizer não tem a ver diretamente com isso. A questão toda é que nós nunca vamos saber como um japonês vê o mundo subjetivamente e, quando digo japonês, podia dizer um chinês, um coreano, podia dizer alguém que fala uma língua ocidental também, mas acho melhor o exemplo de uma língua oriental, totalmente diferente da nossa. Assim que terminou de falar, Nael pegou um pano e abriu o micro-ondas. Tocou com o dedo na pizza para ver se estava na temperatura adequada e com o pano pegou o prato para levar à mesa, que ficava na sala.
Sim, verdade, mas ainda não sei qual a ligação dessa situação aí com o que tu tinha falado antes sobre mim e a Jamyle. E Joyce começou a soprar um pedaço de pizza que estava espetado em seu garfo.
Pois é, vou já chegar nessa questão, mas antes ainda tem outra camada da coisa. Essa questão da língua é bem extrema no sentido de que são mundos totalmente diversos que só podem ser traduzidos para outra cultura para poder serem compreendidos; mas sempre vai ter algo intraduzível nesse processo, no que, no final das contas, o que resulta é sempre uma versão, uma outra coisa que somente tem correspondência com o original, mas nunca se equivale 100% a ele. Agora Nael estava orgulhoso porque sentia que tinha acertado o alvo do que queria, tanto que comeu seu pedaço com volúpia.
Eita menino, assim tu te engasga, pra que essa pressa toda, ainda tem mais dois pedaços na geladeira. Pior que tá uma delícia essa pizza mesmo, parece que apurou óh, por mim comia era tudo logo kkkkk. Mas continua essa tua estória aí, ficou interessante. E Joyce foi até a geladeira para esquentar os outros dois últimos pedaços.
Nael, que também tinha se levantado para acompanhar a mulher até a cozinha, tomou coragem para incorporar mais uma ideia a sua teoria artesanal. Pois bem, agora vamos imaginar pessoas que falam a mesma língua, porém tem vivências e pensamentos tão diferentes que jamais podem se comunicar de verdade e, no máximo, só podem viver de “traduções” (as aspas aqui foram feitas com os dedos). E quando falo isso, não tô aqui querendo me referir a esse papo de alguém que passou necessidades, morou no mato, sabe caçar, estudou uma ciência técnica ou qualquer coisa nesse sentido. Essas contingências geram diferenças de vida e, claro, de pensamentos; porém o importante dessa ideia é a diferença entre as mentes, naquilo que é bem específico da mente. O que quero dizer com isso, é que alguém que lê um livro sobre o Jung, por exemplo, como esse que tu tá lendo: “O homem e seus símbolos”, escuta um disco porrada dos Mutantes, tipo o “Tudo foi feito pelo sol” que tu ouviu hoje no carro ou assiste um filme igual esse que a gente viu agora, não tem como achar que os seus pensamentos são os mesmos de quem não teve essas experiências; e é impossível interagir, de verdade, no sentido de ter um entendimento efetivo com quem não fala essa “língua”; porque, por mais que a gente tente até “traduzir” essa outra visão de mundo, no fim fica um esforço insuficiente e caricato; e a comunicação, que já é normalmente precária entre as pessoas, assume um fracasso retumbante.
Joyce dessa vez ficou olhando para ele, sentido que, ao mesmo tempo que a ideia era um tanto quanto extravagante, fazia algum sentido legítimo, mas retrucou numa parte que parecia meio exagerada daquela tese. Ok, até aí continuo te acompanhado. Entendo que as leituras, a música e o cinema têm essa consequência mesmo, mas tem gente que gosta também dessas mesmas coisas, mas pensa de forma bem medíocre.
É verdade, mas aí esses casos entram na mesma conta daquelas situações em que uma pessoa estuda só para fazer uma prova ou vai para um show só pra beber, ou seja, se relaciona com as coisas de forma unicamente instrumental, não aproveitando o potencial que essas obras podem proporcionar, aí paciência né! Nael voltara para a mesa com o seu novo pedaço fumaçando e com o queijo meio derretido e meio endurecido no fundo do prato, no que tentava recolocar os seus pensamentos no lugar após a réplica de Joyce.
Depois de um tempo calados, lá pelo meio da fatia, ele voltou a falar. Agora, com isso que falei até aqui, vou puxar aquele assunto que tava te intrigando quando a gente, lá no calçadão, esperava a pizza ficar pronta. O porquê de tu e tua irmã, sendo gêmeas univitelinas, e tendo praticamente o mesmo DNA, são tão diferentes, pelo menos em coisas essenciais, como o fato de tu ser mais desprendida e ela mais rígida, tu ser mais desconfiada e ela mais ingênua e, principalmente, o fato dela esperar tanto do mundo e tu só querer dormir um pouco mais.
Eita, espera aí, assim tu também tá forçando a barra, eu só disse que fiquei muito sensibilizada com o Joaquim ter ficado tanto tempo no hospital e só sair agora. Eu vi que o teu irmão tava angustiado com essa situação. Imagina, um bebê saiu da maternidade e o outro não. Agora que os dois tão bem é outra coisa. Me dava pena de ver o Miguel sozinho no berço, sabendo que eles passaram tanto tempo juntos na barriga da mãe. E foi por isso que pensei muito em mim e na minha irmã, porque o nosso caso foi parecido, ficamos 9 meses coladas uma na outra. E por mais que a gente seja gêmea, eu não ficava pensando nisso, mas quando vi os dois, parecidíssimos, um do lado do outro, pensei em nós duas, e nos motivos que hoje somos tão diferentes. Assim Joyce, que já tinha finalizado sua fatia, abrira uma pequena embalagem de plástico que continha um pedaço de torta de limão, da qual ambos compartilhavam com garfadas alternadas.
Cara, esse doce tá ótimo também, que fim de noite saboroso. Pois é, te digo que é justamente aí que quero chegar, porque o que eu acredito é que a diferença entre vocês duas não é dada pela biologia, pela história ou por uma alma. Não nego a importância de alguns fatores, mas não há qualquer essência do ser para encontrar dentro de nós. Dessa vez Nael sabia que tava caminhando por estradas sinuosas e corria o perigo de deixar aquele papo agridoce muito indigesto, por isso foi logo complementando: Mas só tô dizendo isso porque, pelo que entendi desse filme, uma mesma situação pode ser interpretada de várias formas, não por conta das pessoas simplesmente estarem mentindo e sim pelo fato de que é só como conseguem enxergar o mundo. Nesse caso, a gente vai moldando o mundo pela nossa visão, então quanto mais abrangente ou limitada é a nossa mente, da mesma forma, vamos “ler” (aqui os dedinhos de novo) a realidade e ao mesmo tempo criá-la.
Caraca mano, tu conseguiu pensar tudo isso vendo esse filme? Olha eu só vi um crime sendo contado de formas diferentes e tentava descobrir quem era o culpado e qual das versões era a verdadeira entre os personagens. Às vezes acho que tu viaja muito na maionese. Tá mas o que essa situação explica a diferença entre eu e a Jamyle ou a possível futura diferença entre o Miguel e o Joaquim? Os dois tinham finalizado a torta e estavam limpando as sujeiras que ficaram na mesa, lavando os talheres e jogando os restos no lixo. Nael procurava a melhor forma de concluir aquele raciocínio que já estava ficando pesado demais para ele domar.
Depois, voltando para o quarto, entraram no banheiro para escovar os dentes e, entre um movimento e outro da escova, com a boca cheia de pasta, Nael voltou a defender a sua grande visão profética da forma como podia, tendo o maior cuidado para não deixar aquela gosma cair no chão do banheiro, pois sabia que seria imediatamente repreendido. A questão é que cada um de nós, mas principalmente os pais dos bebês, vai “imprimir” (largou a escova na boca pra fazer as aspas) suas versões pessoais das crianças nelas próprias, cada um vai contar um recorte subjetivo da história a eles, criando uma espécie de filme com uma linguagem singular para cada um deles. Por exemplo, um vai ser o comilão que “roubava” o alimento do irmão na barriga da mãe, o outro vai ser o guerreiro que ficou sozinho na maternidade tentando ganhar peso para poder sair de lá, depois vem as histórias de como cada um sentia a presença do outro ou competia pelo colo da mãe. Mas são várias as versões dos mesmos fatos; porém, de alguma forma, uma delas será tomada por cada um deles e internalizada como um ponto de partida para a interpretação das outras estórias e, posteriormente, da própria história.
Terminado aquele festival de intimidade de escovar os dentes e urinar um na frente do outro foram se deitar novamente. Nael desligou a luz do quarto, que ficou somente com a iluminação da TV, que tinha ficado esse tempo todo ligada, com a parte dos créditos do filme paralisada, com os dizeres “dirigido por Akira Kurosawa”. Joyce então respondeu: olha, não vou dizer que eu concordo com tudo isso aí que tu falou, mas confesso que é bem doida essa visão, porque, dessa forma, a coisa não tá dentro de nós e sim fora, como se fosse um portão que dá feita que a gente entra, “aceita aquela vida” (agora foi a vez de Joyce se apropriar daquele maneirismo já batido), como se fosse um verdadeiro nascimento.
Após se deitar ao lado da esposa, desligar a televisão e o quarto ficar um breu, Nael falou: sim, é justamente isso! De maneira geral tu pegou a questão central do que eu quis te dizer desde aquela primeira tentativa, que assumo, me enrolei mesmo, mas que depois deu pra retomar e me explicar sem o lacanês. Mesmo porque pra uma junguiana como tu é difícil assumir que o “espírito” (dessa vez nem cabia fazer os sinais, porque ninguém ia ver mesmo) é mais uma testemunha da realidade como qualquer outra personagem, é só mais uma visão de mundo como qualquer outra.
Ei, nem vem com essa de junguiana, só curti muito ler esse livro mesmo e tu sabe que eu gosto de mandalas e sonho bastante com portais e tal; e vi que o pensamento dele tem umas propostas muito interessantes pra isso tudo aí, mas não sou vinculada a nada, não sou igual tu que paga-pau pra esse tal de Lacan, como se fosse um guru. Só que isso que tu falou, de fato, é bem maluco, fico aqui pensando qual foi a hora das nossas vidas que eu entrei por uma porta e minha irmã entrou por outra, porque a gente passou toda a infância juntas, dormíamos na mesma cama, estudávamos na mesma sala, nossos vestidos eram iguais, só com cores diferentes, até apanhávamos, sem motivo, juntas kkkk. Joyce terminou sua fala, se chegando a Nael, embrulhados por um edredom bem macio, em um abraço aconchegante de que os dois tanto prezavam e não queriam saber mais de nada após aquilo.
Nael também se encostou o máximo que pôde em Joyce, passando os braços por baixo de sua cabeça e sentindo a respiração dela no seu pescoço, sendo que seu outro braço apertava ainda mais, pelas costas, o corpo dela contra o seu. Nada, tu sabe que não sou nenhum especialista nesses assuntos, só gosto de conhecer mais conceitualmente as coisas pra não ficar boiando muito com opiniões tão superficiais que não nos fazem ter pelo menos a consciência de que existem esses portões. Mas acredito que isso é um grande mistério pra todo mundo, a gente tem que avaliar os discursos que repetimos sem nos dar conta, as frases que falamos quase que automaticamente pra resolver tudo e pensar sobre a vida. Não temos como saber quando fomos deixados no portão para sermos levados por uma testemunha qualquer; e talvez isso nem seja tão importante, porque já deu pra perceber que a vida acontece, de verdade, fora da narrativa e além da parte destacada em negrito. O silêncio perdurou por algum tempo, no que Nael percebeu que Joyce já tinha dormido, como sempre, há pelo menos um bom tempo. Ele cheirou seus cabelos, a beijou na testa, sorriu e caiu no sono.
Inspiração
O nascimento de meus sobrinhos gêmeos
Sobre a obra
A obra é como se fosse um diálogo platônico invertido em que o objetivo não é chegar a uma ideia pura e sim, a partir dos conceitos, chegar às "impurezas" , àquilo que que diferencia o humano e não àquilo que nos classifica dentro de uma palavra, frase ou narrativa qualquer.
Sobre o autor
Um poeta que está se arriscando para além do reino das palavras, no arriscado e pantanoso caminho dos discursos.
Autor(a): LEANDRO RODRIGUES PINHEIRO (são leo)
APCEF/PA
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