Talentos Fenae/Apcef

A carta que chegou tarde demais

Naquela casa, tudo parecia estar no lugar.

Havia comida sobre a mesa, roupas bonitas nos armários, dinheiro, conforto e uma família que se orgulhava de ser chamada de próspera.

— Somos felizes, somos unidos, somos prósperos! — diziam, como se repetissem uma verdade que jamais poderia ser questionada.

A mãe, matriarca da família, olhava para os filhos com orgulho.

Tinha criado todos com amor. Pelo menos era isso que acreditava.

Lá fora, porém, o mundo era diferente.

Uma grande tempestade avançava pelas cidades. Pessoas perdiam suas casas, suas famílias e, para muitos, até a esperança.

Mas, dentro daquela casa, ninguém parecia se importar.

— Temos trabalho demais com a nossa própria família — dizia a mãe. — Não podemos resolver os problemas do mundo.

Foi então que alguém bateu à porta.

Toc, toc, toc.

Todos se entreolharam.

— Quem é?

— Sou um mensageiro!

— Não abram! — disseram quase ao mesmo tempo.

E as batidas cessaram.

Mas, dia após dia, o mensageiro voltava.

Toc, toc, toc.

Talvez fosse alguém pedindo comida.

Talvez alguém precisando de dinheiro.

E naquela casa havia comida.

Havia dinheiro.

Havia roupas.

Havia tudo.

Só não havia disposição para repartir.

Por alguns dias, as batidas cessaram.

Até que, numa tarde, voltaram a ecoar.

Mas, dessa vez, não se ouviu:

— Abram! Sou um mensageiro!

Depois de muita insistência, finalmente abriram a porta.

Era um homem faminto.

— Por favor… um pedaço de pão.

A família olhou para ele.

E respondeu:

— Não temos nada.

O homem insistiu:

— Então, pelo menos, um copo de água.

Havia apenas uma caneca.

E, mesmo fingindo que também estavam passando necessidade, decidiram entregar aquela água.

O homem bebeu.

Agradeceu.

E foi embora.

Quando a porta se fechou, a família voltou para a mesa farta.

Pouco depois, por baixo do vão da porta, começaram a chegar algumas cartas.

Contas. Dívidas. Cobranças.

Papéis que falavam de coisas que precisavam ser resolvidas.

E, entre tantos papéis, havia uma carta diferente.

Uma carta que ninguém abriu.

Enquanto isso, a tempestade se aproximava.

A família esteve tão ocupada escondendo-se dos mensageiros, fechando as portas para quem precisava e fartando-se de tudo o que suas posses lhes proporcionavam que não percebeu o perigo que se aproximava.

Até que, de repente, ele chegou àquela casa.

A tempestade invadiu tudo.

A família correu, desesperada.

Pegaram o que puderam e fugiram.

Na pressa, deixaram para trás quase tudo.

A casa, antes tão organizada, estava revirada.

Tudo estava fora do lugar.

E, no meio da sala, rolando pelo chão, havia um pedaço de pão.

Foi então que aquele mesmo homem faminto voltou.

Ao encontrar o pão no chão, seus olhos se encheram de alegria.

Ele se abaixou e começou a comer como quem havia encontrado um tesouro.

Naquele momento, o mensageiro entrou.

Olhou para a casa vazia.

— Onde está a família?

Ninguém respondeu.

Então seus olhos encontraram o homem sentado no chão, comendo aquele pedaço de pão.

— Você gostaria de ouvir uma mensagem?

O homem levantou os olhos.

— Quero.

O mensageiro abriu a carta.

E começou a ler:

“A todos que cantam sobre bênçãos, mas se esquecem de repartir.

A todos que dizem amar o próximo, mas fecham a porta quando ele bate.

A todos que possuem uma mesa cheia, mas um coração vazio.

Eu lhes dei pão para que vocês alimentassem.
Eu lhes dei recursos para que vocês repartissem.
Eu lhes dei bênçãos para que elas alcançassem outras vidas.

Mas vocês transformaram a bênção em posse.
O que deveria transbordar ficou preso dentro de casa.

E enquanto vocês diziam: ‘Somos prósperos’, havia pessoas do lado de fora precisando apenas de um pedaço de pão.

Enquanto vocês diziam: ‘Somos felizes’, havia alguém do outro lado da porta chorando.

Enquanto vocês agradeciam pelo que tinham recebido, esqueceram-se de perguntar para que haviam recebido.”

O homem faminto ficou em silêncio.

O mensageiro continuou:

“Não se esqueçam de fazer o bem e de repartir com os outros, pois com tais sacrifícios Deus se agrada.”

Hebreus 13:16

O homem olhou para o pedaço de pão em suas mãos.

E então perguntou:

— Essa carta era para aquela família?

O mensageiro respondeu:

— Era.

— E eles não a leram?

— Não.

O homem abaixou a cabeça.

— Então chegaram tarde demais.

O mensageiro olhou para ele e respondeu:

— Para eles, talvez.

Mas não para você.

E entregou a carta em suas mãos.

O homem a recebeu.

Dessa vez, alguém tinha decidido abrir.

E talvez essa seja a parte mais difícil de uma carta:

não é apenas recebê-la.

É descobrir que ela fala conosco.

Porque algumas mensagens não chegam apenas para informar.

Chegam para transformar.

Talvez aquela família tenha perdido a oportunidade de entender.

Talvez tenha chegado tarde demais para eles.

Mas aquela carta ainda poderia chegar a tempo para alguém que estivesse disposto a ouvir.

Porque Deus não nos abençoa apenas para que tenhamos.

Ele nos abençoa para que transbordemos.

A pergunta, então, não é apenas:

“O que Deus colocou na minha mesa?”

Mas:

“Quem Deus colocou à minha porta?”

Porque pode haver um mensageiro batendo.

Pode haver alguém precisando de pão.

Pode haver alguém precisando de água.

Pode haver alguém precisando apenas de um pouco daquilo que, para nós, parece tão pouco.

E talvez a maior prova de que uma casa é realmente próspera não seja a quantidade de coisas que existem dentro dela, mas seja o quanto existe de amor capaz de sair por aquela porta.

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Inspiração

“A carta que chegou tarde de mais” fala sobre o egoísmo humano diante da realidade do outro. De como fechados nos nossos mundo ficamos cegos com o que acontece ao nosso redor.

Sobre a obra

A carta foi inscrita para uma apresentação de teatro cristão para um retiro do ministério de teatro que integrava na nossa igreja

Sobre o autor

Bancária, mãe, adoradora. Escrever abre oportunidades de viver a realidade e outras realidades através das palavras .

Autor(a): CAMILA DA COSTA BANDEIRA DE BRITO (Camila Bandeira )

APCEF/PA


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