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A Carta Errada

A Carta Errada

Domingo, o primeiro de outubro, o dia promete sol. São 9 horas da manhã e ela acorda ao som do despertador. Não é um horário comum para ela acordar num domingo, o normal seria por volta das 11 horas, depois de uma longa e animada noite de sábado. Acordar no domingo, nesse horário, somente por uma boa causa ou por obrigação. Neste caso era por obrigação, em primeiro lugar, mas não se pode dizer que não fosse por uma boa causa, também. Era domingo de eleições, a dita festa da democracia. Gabriela, ainda sonolenta, liga a televisão na Globo, por costume, e está passando o clássico Globo Rural. Ela coloca a água pra esquentar, repetindo sua rotina matinal diária. Enquanto isso, pega o celular e começa a rolar o feed de sua rede social, acompanhando os posts. Uma verdadeira guerra digital, cada um apoiando o seu lado e atacando o outro. Gabriela, alinhada à esquerda, se enraivece com os posts, deixa o celular de lado e vai passar o café com a água já fervendo. O dia promete! Seu marido levanta da cama, com o perfume do café pronto, cumprimenta Gabriela com um beijo e um abraço reconfortante. E pergunta se ela quer ovos mexidos. Ela aceita. Após o café, ela vai tomar banho para irem votar. Durante o banho, com o banheiro cheio de vapor d´água, apesar do dia quente lá fora, ela reflete sobre as opiniões das pessoas de seu relacionamento. Como podem ser tão diferentes? A sobreposição das bolhas de algoritmos era um fato, de certa forma incômodo. As ideias tão diferentes: um lado que busca a democracia de fato, a melhoria da sociedade como um todo; do outro, pessoas que enxergam apenas seu próprio quinhão ou que simplesmente odeiam o outro lado, mesmo não sabendo o porquê. Ela sai do banho e seu companheiro entra no banho, quase sufocando com o vapor. Enquanto se seca, ela comenta com ele rapidamente sobre sua reflexão e sai do banheiro, enrolada na toalha. Ela pega novamente o celular e começa a excluir contas que expõem suas posições à direta, uma forma de aliviar sua decepção, pois entende que a direita disponível não é democrática, é odiosa. Seu companheiro termina o banho, com a água já quase fria, se seca rapidamente e se veste. Vai à cozinha e pega mais uma xícara de café, e eles retomam a conversa. Ele concorda com seu posicionamento, que sem uma sociedade democrática e boa para todos, tudo fica mais difícil. Eles terminam de se arrumar e saem para votar, a pé, já que o colégio em que votam não é muito distante. E percebem que, mesmo com a beligerância nas redes, nas ruas as pessoas mantêm uma certa civilidade, apesar de olhares que se cruzam desconfiados, dependendo da cor da roupa ou dos adesivos que usam. Chegam ao colégio e cada um vai à sua sala de votação. As filas estão razoavelmente grandes, mas não há conversas nas filas, somente das pessoas que já votaram e saem de suas salas. Após votarem, se encontram no pátio da escola e saem com a sensação de dever cumprido e com a ansiedade da decisão. Um dos dois lados, eles sabem, vai sair vencedor, neste domingo ou daqui três semanas, caso haja segundo turno. Ganhe quem ganhar, a vida das pessoas continuará, de um jeito ou de outro. Mas eles sabem que, apesar de o passar do tempo ser inevitável, o retrocesso eventual nos ganhos sociais das últimas décadas pode ser drástico demais, como um castelo de cartas que demora para ser construído e uma carta mal colocada pode arruinar tudo.

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Inspiração

Considerando o momento atual de eleições polarizadas. Achei interessante escrever sobre uma possível rotina de um casal antes de votar.

Sobre a obra

Preferi escrever um conto curto com linguagem acessível.

Sobre o autor

Meus hobbies favoritos são fotografar e mexer com plantas. A escrita é bem esporádica e normalmente sem um tema específico.

Autor(a): JOAO PAULO BARROSO DOS SANTOS (João Paulo Santos )

APCEF/SP


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