Talentos Fenae/Apcef

VIZINHOS ESTRANHOS

Estava lá, um corpo estendido no chão. Este corpo é o meu. 48 anos. Recém-separado. Sem filhos. Tinha ativado o modo tigrão master plus +++ . Acreditava que uma moto potente e cabelos ao vento, iriam me trazer, tudo aquilo, que um novo solteiro na praça procura. O que encontrei ? Um guardrail a 160 km/h. Pedaços da motoca, por todo lugar. Espalhados por toda a estrada. Comigo formam, duas penas quebradas, um fémur, quadril, braço esquerdo quebrado, dedo mindinho direto trincado, esfoliações no pé, perna, costas, cabeça ……
A dor física? os remédios, resolveram a sua maneira. Mas o que mais me doeu, mais doeu, foi não receber nenhuma, nenhuma ligação da Júlia… 18 anos juntos. Nenhuma ligação, nem mensagem….
Oh Júlia ……
Neste momento, prefiro me iludir. Quem sabe ela não soube, né ? O que vocês acham ?
Após uma curta temporada no hospital, era hora de voltar para casa.
Com braços, pernas, dedo mindinho quebrados e escoriações por toda corpo. Ir para minha própria casa, não era uma opção viável.
Eles estavam eufóricos. Pai e Mãe. A casa em pouco tempo foi adaptada para receber o novo PCD . É o filho preferido que volta a casa (OBS: meus três irmãos não gostaram muito desta afirmação … hehehehhehe )
Os dias foram passando, e a rotina tomando conta. Não tinha muito o que eu pudesse fazer. Então o tédio se instalou.
Neste momento já tinha trocado o dia pela noite. Ficava na TV, até o sol raiar. Dormia até as 14:00h.
Esta situação incomodava muitos meus pais. Precisava mudar.
Mas piorou.
Com a chegada do verão, as noites em claro, começaram a ter a companhia de uma cerveja. Começou com um dia sim, outro não. Depois todos os dias. Depois todos os dias, com mais de uma cerveja. Agora eram todos os dias, com vários cervejas. O que antes era alegria, com a minha vinda, agora ela motivo de preocupação. Via isso nos olhos de meu Pai e Mãe .
Em uma quinta-feira, o barulho das garrafas me chamou a atenção. Escutei o barulho do meu quarto. Fui ver o que era. Era minha mãe colocando o saco de lixo para o caminhão levar. Passa por mim com olhar fixo no meu. Não disse nada. Não precisava, o olhar dizia tudo. Fui verificar no lixo. Não acreditei. Eram muitas garrafas de 300 ml. O acumulado de dois dias. Dava a impressão que a casa tinha feito uma festa na noite anterior .Esta situação não poderia continuar.
Daquele dia em diante, troquei a cerveja pelo chimarrão. A sala de TV, pela varanda da casa. Ficava lá, todas as tarde. E noites. Todos os dias. A vizinhança virou espetáculo. Eu, sentado na varanda, era plateia e juiz. Cada gesto parecia carregado de segredos. O bairro, que antes era só cenário, virou novela.
Agora o que tinha na mão, era uma cuia e meu chimarrão. Ficava ali horas, contemplando as mudanças do bairro e a vida dos inquilinos daquelas casas e apartamentos . Que gente estranha !!!
As ruas, já não eram tão calmas como outrora. Em frente de casa, contemplava o novo edifício, que se erguia, no antigo terreno da Dona Maria. Era a nossa vizinha mais antiga. Ela sabia da vida de todos do bairro. O prédio é magnífico. Um apartamento por andar. A varanda gourmet, maior que muitos apartamentos. Comprei um deles, na planta. Oitavo andar. Na época, 1.5 milhão, à vista. Hoje é comercializado por 4.5 milhões. Foi um bom negócio.
Sei o que você, que me lê, está pensando agora . Pois é, como se diz, venci na vida.
A varanda de nossa casa, era fechada por madeira. Pela fresta, eu podia ver sem ser visto. Em pouco tempo, já conhecia a rotina dos vizinhos. Seus costumes e manias. Dos mais variados, desde os mais comuns aos mais estranhos.
E alguns segredos, vou levar para o túmulo… Mesmo porque ninguém acreditaria no que filho do seu Alfredo faz todas as noites ….
Meia noite em ponto. Sempre em três. Todos de preto. Nunca usam a calçada. Caminham sempre, pela estrada. Em fila. Um ao lado do outro. Do menor para o maior. Esta ordem, nunca alterada. Nunca os vi conversar entre si.
No prédio, do outro lado da rua, uma mulher me chama a atenção. Já não era tão jovem, mas bonita, bem-cuidada, passeava com seu pequeno cachorro, todos os dias, puntualmente às 15:20 h. A observa . Com o tempo, percebi que era casada. Com médico.
Mas invariavelmente, as noites que ele saía, acredito para plantão, ela recebia a visita de outro homem. Já o esperava na recepção do prédio. Era nítida a felicidade em seu rosto. Recebia-o, sempre com um beijo no rosto, e subiam.
00:00h e lá vem o trio. Desta vez, embaixo de chuva. Não usam guarda-chuvas, mas o mau tempo não parece incomodar .
Três da manhã. É um relógio. Nunca atrasa, um minuto sequer. Faça frio, calor, chuva ou tempo bom. Não interessa. Meu vizinho do prédio da frente, do outro lado da esquina, sempre neste horário, sai para correr.
Parece um robô. O ritual é o mesmo. Horário: três da manhã e já parece no hall do prédio.
Fica uns 5 minutos, acho que em meditação. Logo em seguida, ajusta o relógio de pulso e sai.
Nunca vi a sua volta. Tem a partida, mas não tem à volta. De curioso, montei uma campana. Durante uma semana. Mas nada. So tenho o registro de sua saída.
Meia-noite. Lá vêm eles. Acompanho com os olhos. Soltei no quintal o Spaik, meu labrador. Fez barulho. Latiu. Ignoraram o som e a movimentação. Seguiram a caminhada, sem nada os abalar.
A casa era a mais bonita da rua. Pela imponência, já se sabe, quem mora ali, é uma pessoa de posses. Todos os dias, salvo quando chove, uma senhora aparece. Já nas casa dos seus 70/80 anos. Sempre com roupa casual, mas a aparência é de uma pessoa muito bem-cuidada. Posso reforçar: extremamente cuidada. Cabelos presos, sem um único fio fora do lugar. Maquiagem leve, e gestos coordenados. Por certo tem “pedigree” . Além desta senhora, nenhuma outra pessoa se vê na casa. Nenhum barulho, nenhum som. A discrição só era quebrada, com o entra e sai do automóvel particular dela, todas as tardes. Era uma movimentação frenética. Saía da casa, e voltava. Às vezes em questão de minutos, já estava de volta, e voltava a sair. Às vezes, saía e demorava horas para o retorno. O automóvel é preto, vidros pretos, não dava para ver quem estava dentro. Ao chegar ou sair, o portão já se abria. Ninguém desce. O automóvel entra rapidamente, e o portão fecha. Neste tempo todo que a monitorava, várias teorias vieram à minha cabeça. Claro quase todas sem pé nem cabeça. Nunca soube o que realmente acontecia ali.
Já nem preciso mais de relógio, Avistei o trio sombrio. Já sei que são 00:00h.
Coma minha mobilidade reduzida, espero que temporariamente, meus “passeios” se resumiam à ida ao mercadinho perto de casa.
Naquela tarde, entre os corredores do hortifrúti , avistei-a. A mulher do médico. Realmente era muito bonita. Arrumei a camiseta, conferi se estava com a bermuda nova, e com o ego nas alturas, pensei : quem sabe sai um “OI TUDO BEM” ?
Acompanhei-a, discretamente pelos corredores. Quando não mais a avistei, dirigi-me ao caixa para pagar as minhas compras. Naquele instante não tinha como não ouvir. Paulo, dono do mercado, falava com um outro cliente:
- Sabes se ela melhorou ?
- Me parece que não. O consultório dela, continua fechado. Ainda não se recuperou do assalto.
- Crise do pânico, né ?
-Quando o marido sai para o plantão, o irmão dela vem ficar a noite com ela. Ainda não consegue ficar sozinha
Naquele momento fiquei paralisado. Parecia em transe. com vergonha de mim. Como pude pensar aquelas coisas dela? A conversa continuava, mas eu já não ouvia nada. Meus pensamentos e julgamentos me consumiam. Só voltei a mim quando a Caixa, pelo segunda vez e num tom mais alto, me informou o valor das compras :
-R$159,00 senhor.
Paguei-a, e fui cabisbaixo e reflexivo, até em casa. Será que me tornei uma pessoa pior ?
Novo dia, e lá estava eu, novamente na varanda. O dia estava calmo. Nada me chamou a atenção . A noite, estava gelada . Resolvi entrar, foi quando percebi; o relógio marcava 23:50h. Mudei de ideia, em vez de entrar, saí de casa decidido. Fiquei à espreita do trio sombrio, que passava religiosamente à meia-noite. Iria segui-los, descobrir quem eram, onde moravam, talvez fazer algumas perguntas.
Não sei se encontrei respostas. Mas congelei por um instante. Estava imóvel. Pálido, gelado. Tinha percebido que já era parte do mistério. O vizinho que observa, espera, segue e julga, agora me tornará o que mais temia, O VIZINHO ESTRANHO !

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Inspiração

As mudanças que ocorreram no bairro onde moro, Os novos vizinhos, os antigos e seus comportamentos peculiares

Sobre a obra

Utilizei frase curtas, para dar uma dinâmica no texto. E conectei as ideias, por parágrafos.

Sobre o autor

Nunca tinha escrito nada, até uma colega da agência, me convidar e incentivar, a participar dos talentos /fenae . Já na primeira participação fiquei entre os 3 primeiros do meu estado, oque me motivou a participar desta etapa também .

Autor(a): ROBSON PAES ANSELMO (Robson)

APCEF/SC


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