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Com Espírito de Luiz Gama
Com o Espírito de Luiz Gama
Não é típico chegar muito adiantado a um compromisso, a menos que haja uma
excitação incomum. Na verdade, o oposto — estar em atraso — pode ser fatal, e a
história mostra bem o desprezo pelos dilatórios, procrastinadores ou
simplesmente retardatários. A vida deve ser vivida no seu tempo; negar isso é
morrer um pouco antes da hora.
Os atrasos podem estar associados a um hábito ruim de assumir compromissos
ao acaso, sem planejamento. Há também aqueles que ignoram a inevitabilidade
dos imprevistos, ou que se deixam seduzir por uma conversa a mais, pelo segundo
copo de café, ou pelo refino inútil de uma obra que já está pronta.
Contudo, existe algo mais sutil e quase imperceptível, escamoteado na falta de
pontualidade. À primeira vista, ela parece simples incompetência, mas muitas
vezes trata-se de uma armadilha social engenhosamente colocada por quem não
quer você no seu próprio tempo. Portanto, não se relaciona apenas a
circunstâncias, mas a alguém: a quem interessa que você esteja lá, esperando.
Nesses casos, vale seguir os conselhos dos ancestrais, com extrema prudência:
chegar antes, ocupar o território e ser dono do próprio tempo.
Adiantado, sentei-me num banco de praça enquanto meu compromisso não
chegava. Dediquei-me a apreciar o lugar. Era um espaço limpo, vigiado por um
olhar frio de quem cumpre ordens para manter a ordem.
Na avenida, telões luminosos alertavam sobre os perigos da vadiagem, exaltavam
o consumo e lembravam, com insistência, que não pode haver tempo perdido.
Não tardou para que meu acompanhante chegasse e se sentasse ao meu lado.
Estávamos adiantados, mas parecia não haver tempo; dois homens parados
numa praça chamam atenção demais. Levantamos e seguimos direto para o local
marcado.
Caminhamos alguns metros até onde a grama bem cuidada terminava e a terra
batida começava. Entre prédios elegantes, luminosos e silenciosos, surgia um
amontoado de casas simples, com reboco carcomido e pinturas desbotadas.
Crianças brincavam com bonecas quebradas, como se a imaginação fosse o
único brinquedo inteiro.
Penetramos num labirinto de becos, espremido entre o luxo e a poeira. A cara do
Brasil: uma fronteira invisível onde dois mundos coexistem sem jamais se tocar,
sem se reconhecer, enquanto um teme o outro.
Andamos pelas ruelas estreitas em direção ao destino. Meu amigo, já conhecido
por alguns moradores, era cumprimentado com naturalidade; ele pertencia
àquele pedaço de mundo.
O contraste era brutal: de um lado, a riqueza vigiada, protegida por câmeras,
seguranças e protocolos; do outro, a vida nas sombras dos prédios, sobrevivendo
entre paredes descascadas e becos improvisados. Mundos separados não apenas
por muros, mas por uma memória que não se compra, por uma resistência que
persiste mesmo quando tudo ao redor tenta apagá-la. Ali, entre o luxo blindado e a
simplicidade resistente, o Brasil mostrava sua face cruel e verdadeira.
O terreno tinha dez por cem metros, mas no passado eram quinze mil. Aquele
chão, antes sem dono registrado, foi ocupado por escravizados e seus
descendentes. O que um dia foi mato, refúgio e território de gente preta, hoje é
uma área vigiada, cercada por olhos eletrônicos e pela lógica do controle.
Quando a especulação imobiliária chegou, muitos perderam suas terras ou foram
pressionados a vender, não por falta de direito, mas pela imposição da
ascendência branca que se estruturou. Uma mentalidade que, infelizmente, ainda
persiste, tratando herdeiros de escravizados como se carregassem estigmas
antigos, como se a história ainda lhes negasse legitimidade. Ali, entre a terra
batida e os prédios elegantes, o passado não estava enterrado: estava apenas
sendo empurrado para as margens, como sempre.
No fim de um corredor, entramos num galpão com mesas, cadeiras, cozinha e
churrasqueira. O lugar, limpo, ainda guardava aquele cheiro de brasa recente,
como se o fogo tivesse sido apagado há pouco. Sentei onde meu amigo indicou.
Logo uma mulher entrou, acompanhada por dois jovens. Ela tinha uma postura
que carregava a força inteira de uma história. Não precisava pedir licença; o
silêncio dizia tudo.
Quem eram eles? Meu amigo explicou: descendentes de quem ocupava aquelas
terras muito antes de tudo virar papel, carimbo e escritura. Gente que viveu ali
quando o direito ainda não os reconhecia, parte de uma linhagem que o Brasil
sempre tentou empurrar para fora da própria narrativa.
Ali, com o cheiro de churrasco no ar, a presença deles deixava claro: a posse
verdadeira não está no cartório; está na terra e na memória de quem chegou
antes, de quem nela se assenhorou com o tempo que lhe foi dado. As lágrimas
despencaram incontroláveis pelas minhas pálpebras.
A especulação imobiliária avança, centímetro por centímetro, dia após dia. E
ninguém sabe até quando a comunidade aguenta. A pressão é constante:
vigilância ostensiva, invasões, incêndios suspeitos, vandalismo calculado para
desgastar a resistência. A qualquer momento, tudo pode ser perdido.
Mas seguimos aqui. Com o que temos. Vencendo cada dia. Com o espírito de Luiz
Gama.
Desabafaram meus anfitriões, um de cada vez, como um jogral, começando pela
mulher, depois meu amigo e por fim os dois jovens.
E o meu papel nisso? Garantir que essa luta não desapareça no silêncio. Registrar
tudo o que acontece: cada gesto, cada ameaça, cada vitória pequena. Não
permitir que matem essa memória.
A memória é a última trincheira. Quando ela cai, cai junto a legitimidade de quem
resistiu.
Por isso escrevo, observo, documento. Porque, se o poder insiste em transformar
vidas em números e terras em mercadoria, alguém precisa transformar tudo isso
em narrativa, em testemunho, em verdade. Luiz Gama presente.
Luiz Gonzaga Pinto da Gama viveu cinquenta e dois anos. Por cerca de três
décadas, dedicou-se a romper correntes, as suas e as de muitos outros. Lutou
pelo direito num Brasil escravocrata. Nasceu em Salvador, filho de Luísa Mahin,
africana que participou de revoltas abolicionistas. Luísa foi deportada e separada
do filho, que ficou com o pai. Ele, viciado em jogo, vendeu Luiz Gama, o próprio
filho, como escravo para pagar dívidas.
Ainda assim, Luiz Gama tornou-se advogado autodidata, defensor incansável da
libertação de pessoas escravizadas. Libertou centenas. Sua luta pressionou a
política, abriu brechas legais, desmontou estruturas. Contribuiu para a abolição,
embora não tenha vivido para vê-la.
Sua morte foi silenciosa: 24 de agosto de 1882, vítima de complicações da
diabetes. Sem diploma, sem fortuna, sem homenagens oficiais. A imprensa
noticiou sua partida com notas curtas, burocráticas, como se o maior libertador
jurídico do século XIX fosse apenas mais um corpo a ser enterrado. Não houve
luto público, discursos ou reconhecimento.
E assim, o Brasil tentou matar Luiz Gama pela segunda vez: não no corpo, mas na
memória. Mas o espírito resiste, a memória resiste, e com ele seguiremos.
Inspiração
A vida e obra de Luiz Gama e o Drama do Quilombo urbana Cadie, Em Porto Alegre
Sobre a obra
é um conto com um personagem ideterminado para não ofuscar o drama das pessoas e da inspiraçãp
Sobre o autor
sou dramaturgo
Autor(a): PAULO ROBERTO DOS SANTOS CAETANO (Paulo Caetano)
APCEF/RS
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