"Claude Poirot", ou "Sobre perdas e encontros"

"Claude Poirot"
ou
"Sobre perdas e encontros"

Claude Poirot, Visconde de Maritsauá, encontrava-se em seus aposentos numa bonita manhã, quando se deu conta que havia perdido a bengala.
Ora, não mais espantoso era o fato, mas o como conseguir tê-lo feito.
Como se perde uma bengala?
Seria como sair sem os óculos, olhos dos cegos que as bengalas são.
Surpreso, pois, achava-se então, em pé no meio da sala sem seu necessário apoio. Quando cintilando sonoramente, uma fada atravessou-lhe a frente do plexo nasal, fazendo-o recuar uns passos, ainda ofuscado pelo lumiar da nenufa.
- Dá licença, dá licença! Acordar cedo, só por Jorge, viu?!
- Ora se isso é capaz, eu lhe digo!
A ninfa, que já ia atarantada porque a pressa a consumia, distraiu-se do voo e chapuletou a cabeça coberta de pólen no cabo da muleta perdida, que havia se enfiado no vão do pichichê.
- Alvíssaras! Localizei meu apetrecho!
Ainda tonta pela colisão, a tágide espanou suas translúcidas asas, desamassou a antena e praguejou, bicuda:
- Pois eu desejaria que não houvesse de encontrar mais nada pelo dia todo!
Imediatamente tudo se perdeu.
Claude Poirot imediatamente se viu sem o desejo de fazer nada, pois tinha perdido a vontade.
Sentou-se numa cadeira e olhou através da vidraça. Pessoas iam e vinham em busca de seus afazeres.
- Perderam a vergonha?! – gritou de punho erguido Claude Poirot.
Todos estancaram. Que susto de cena, um magriço em cartolas bradando seminu pela manhã na janela!
- Xi! Esse perdeu o juízo! – penalizava a costureira sem erguer os olhos da agulha.
- Perdeu foi a educação! – ralhava a velha viúva da cadeira de balanço.
Alguns se atarantaram, outros galhofavam e faziam chiste, divertindo-se às pândegas!
Um grupo de moleques pôs-se a fazer arremedos na calçada, no que foram prontamente advertidas pelo oficial da guarda:
- Xô xô fora, petizada! Aqui não na nada que mereça que se perca tempo! Circulando, vam!
Logo, perdida a graça da novidade, os passantes perderam o interesse no fato e a vida retomou o trilho.
Na cozinha, Claude Poirot mirava um prato de biscoitos de aveia enquanto fervia a caneca, certo de que não ia comê-los. Perdera a fome.
Resolveu remendar suas meias rôtas rubras e roxas, mas perdera o fio da meada.
O frio do entardecer anunciava arrepios nos ossos, carregando a tarde pro fim.
Claude Poirot aciona o aquecedor, mas perdera o prazo de pagar a conta do gasogênio e o fornecimento fora interrompido, negando a calefação.
Perdendo as forças, Claude Poirot atravessa o cômodo para deixar-se abater sobre a bergére de gorgorão, quando tropeça na bengala e perde o equilíbrio.
Estatelado no tapete que já perdera a cor, Claude Poirot olha para a causa do tropeço.
Quebrando o encanto da fada, encontra sua bengala perdida, antes que o dia perca pra noite.
Tudo agora se acha!
As chaves acham as portas, os pés acham os caminhos, os rios acham o mar.
As suas acharam a fechadura. Estalados os grilhões, a luz do ocaso acha o assoalho da sala e um resto de sol aquece as achas de lenha.
Bengala em punho pra não perde o costume, ruma Claude Poirot ao crepúsculo, achando graça no griteiro dos pedestres boquiabertos, frente a um doido de ceroulas que agora se acha bonito ao desfilar no fim da tarde.
Depois de perder-se, Claude Poirot achou-se vivo, e Ele achou que isso era bom.
Perdeu o medo, e partiu estrada afora para perder bem seus dias, achando o mundo sem fim sem voltar nunca para trás.
Pois perdera o rumo de casa.

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Inspiração

A ideia surgiu quando eu mesmo, recém operado do joelho e me recuperando com uma bengala, me achei em pé no meio da sala de casa, sem me lembrar como chegara ali sem o bendito apoio. Sei lá se perdi a memória, mas encontrei a confiança para acelerar a recuperação! Uma perda achou um encontro, e assim nasceu esse conto.

Sobre a obra

Me veio a cena de uma personagem da aristocracia falida encarnando a situação que eu mesmo vivi. Apaixonado por literatura, juntei meu nome em francês com o do hercúleo detetive de Agatha Christie, e eis Claude Poirot perdido sem bengala! Meu gosto pela norma culta salpicou as palavras rebuscadas, que cedem a dureza a um final leve e liberto.

Sobre o autor

Trabalho com Desenvolvimento Humano na célula de Consultivo da GIPES CP.
Sou um apreciador da beleza e excelência da vida, e empenho todos os meus sentidos e emoções no aproveitamento da existência plena.
Se o que se apresenta é para o bem, faz brilhar os olhos e aquece o coração, ali invisto meu tempo e minha alma.

Autor(a): CLAUDIO JOSE JUNIOR (Claudio JJ)

APCEF/SP