Talentos

O SENHOR DO TEMPO

O SENHOR DO TEMPO.


Era o início de tarde de um dia de primavera, eu perambulava pelo pomar que cultivo nos fundos de minha casa, um hábito adquirido que ajudava a desanuviar os pensamentos e buscar inspiração para encontrar soluções para os problemas cotidianos.
Melancolicamente recordei as palavras de meu avô, ditas há uns vinte anos, quando eu ainda era um meninote que começara a aprender o ofício da relojoaria.
Diante de minha insistência em saber qual peça do relógio era a mais importante, vovô respondeu:
- Todas as peças são igualmente importantes e necessárias, um relógio não funciona corretamente sem todas elas, por menor que seja. Não pode haver nenhuma peça avariada ou faltando. A vida também é assim.
Naquele tempo eu ainda não entendia a profundidade daquelas palavras, diante das 136 peças esparramadas sobre o tampo da mesa e com o desafio de montar o relógio de pulso em duas horas o meu coração galopava e eu transpirava em bicas.
Muitas peças eram minúsculas, como poderiam ter a mesma importância da caixa, do calibre, do cristal, da coroa, dos ponteiros, do mostrador, do bisel, dos botões que permitem ajustar as horas e o calendário? Óbvio que não consegui montar o relógio, foi quase um milagre não ter perdido nenhuma peça, enfim, a lição a ser aprendida era: Cuidar das grandes e pequenas coisas e ser atento aos detalhes.
Comecei a executar tarefas simples na relojoaria que pertencia ao seu avô paterno durante as suas férias escolares e aprendia tudo muito rápido, assim, aos poucos ele foi incorporado à rotina laboral familiar, a contragosto de sua mãe, que sonhava que ele se tornasse um doutor ou um advogado.
Durante alguns anos trabalhei com relativo sucesso na profissão de relojoeiro e, cumprindo o pacto familiar, continuei os estudos e apaziguei aflição materna.
Em um sábado, após o almoço, meu avô e meu pai estavam organizando a relojoaria. As portas estavam cerradas para o público, era um dia chuvoso, minhas tarefas escolares já estavam prontas, e sem poder brincar com os amigos na rua, observava atentamente a arrumação e ajudava naquilo que me pediam.
Aproveitando uma pausa feita para o café, perguntei:
- Vô, teve algum relógio que o senhor não conseguiu arrumar?
Meu avô era relojoeiro autodidata, tinha aprendido precocemente esse ofício, aguçado pela obsessão de consertar um relógio que ganhou quando tinha oito anos de idade, ele tinha o apelido de “O Senhor do tempo”, o mesmo nome dado à relojoaria que ele mantinha há mais de trinta anos.
- Sim, um relógio encantado. Já o desmontei e revisei todas as peças umas cem vezes, foi o único que não fui capaz de consertar. Todas as peças estão perfeitas, porém o mecanismo se nega a funcionar. Vem aqui que eu vou te mostrar.
Sentei-me ao lado de meu avô, ele destrancou a última gaveta de sua escrivaninha de imbuia, pegou uma pequena caixa feita de madeira de álamo negro, e de dentro dela retirou um relógio Cartier antigo, caixa quadrada de metal, presa com pulseira de couro, o mostrador com numerais romanos. Pela riqueza dos detalhes aparentava ter sido fabricado à mão.
Os ponteiros estavam travados no horário 10:10, a melhor posição para se exibir a marca que comumente é colocada abaixo das 12 horas.
Calmamente ele desmontou o relógio, meticulosamente espalhou as peças sobre o tampo da mesa encapado com feltro verde, e me falou:
- Aurinho, você tem duas horas para montar esse relógio.
Após o prazo estipulado, sem conseguir montar o relógio, com a galhardia de uma criança eu disse para o meu avô que algum dia seria capaz de arrumar todos os tipos de relógios do mundo.
Naquela época eu reparei que na caixa de madeira onde o relógio ficava guardado havia uma inscrição “Le temps revient” e ela ficou indelevelmente marcada em minha mente, e também notei o desenho de um coração entre as iniciais LC dentro de um losango. Perguntei ao meu avô o significado daquilo, e ele me respondeu que não se lembrava do significado da frase, e que as iniciais eram do joalheiro que produziu o relógio, um francês chamado Louis-François Cartier.
- Vô, como conseguiu esse relógio?
- O seu bisavô era um hábil artesão, ele trabalhou para a família Dumont em Petrópolis e passou alguns anos em Paris ajudando Alberto Santos Dumont, sabe quem foi ele?
- O inventor do avião?
- Sim, ele mesmo. Para pilotar o avião era preciso usar as duas mãos, era uma engenhoca bem complicada de manobrar, e naquela época todos os relógios eram de bolso o que impedia a consulta das horas durante o voo. Santos Dumont era amigo desse joalheiro e pediu para ele fazer um relógio de pulso para ele poder saber as horas enquanto voava.
Meu avô prosseguiu falando:
- Cartier fez protótipos de relógio para Santos Dumont, esse aqui é um deles. Foi um presente dado ao seu bisavô pelo pai da Aviação.
- Que legal vô. E esse relógio já estava estragado quando o senhor o ganhou?
- Desde que está comigo ele nunca funcionou. O seu bisavô me contou que era um relógio muito esquisito, que dava uma sensação incômoda de olhar para ele.
- Como assim?
- Os numerais tinham uma apresentação diferente, somente o XII e o VI estavam na posição normal. O número I estava à esquerda do XII, o número II à esquerda do I e assim ia até chegar ao VI. Depois o VII estava à direita do VI, o VIII à direita do VII, e assim ia até chegar ao XII.
- Nossa que coisa maluca vô, fizeram o quê? Esse relógio não é mais assim.
- Quando seu bisavô voltou ao Brasil, ele levou-o para o melhor relojoeiro de sua cidade e pediu para colocar os numerais na ordem correta no mostrador. O serviço foi feito, mas daí em diante o relógio nunca mais funcionou.
- Como assim? Insisti para saber mais detalhes.
- O relógio foi levado para muitos outros relojoeiros. Durante toda a sua vida, sempre que o seu bisavô ouvia falar de algum relojoeiro bom ele ia até lá, mas ninguém conseguiu quebrar o encantamento.
Os primeiros anos que trabalhei na relojoaria foram dourados, eu conseguia conciliar minha rotina de estudos, de lazer e trabalho de uma forma muita tranquila. Eu levava uma vida despreocupada e feliz até saber do problema de saúde de meu avô.
Sentados ao redor da mesma mesa onde minha mãe tempos atrás se rendeu aos argumentos de meu avô e permitiu que eu começasse a aprender o ofício de relojoeiro, observei o meu pai com o cenho franzido falar.
- O senhor vai adiar até quando essa cirurgia?
- No meu coração ninguém mexe.
- Vai morrer de teimosia?
- Talvez. Eu nasci com essa arritmia, sei que ela está piorando com a idade, mas o risco de operar é muito grande e não quero morrer sem antes cumprir uma promessa.
- Qual? Atrevidamente perguntei.
- Consertar o relógio que ganhei quando tinha oito anos. Eu jurei que algum dia ele voltaria a funcionar.
O tempo foi passando e a saúde de meu avô se alternava entre períodos bons e ruins e foram muitos os sobressaltos que deixavam a todos nós desassossegados. Nos últimos meses vimos aquele homem idoso, que sempre apresentou um vigor juvenil, definhar-se e abandonar a sua grande Paixão que era trabalhar.
Passei a última noite insone, fiquei de vigília no hospital, o quadro de saúde de meu avô era grave, mas ele continuava resoluto na sua decisão de não operar o coração, e ele havia expressado aos médicos e para toda a família que ninguém poderia autorizar a cirurgia.
Não conseguia concentrar-me no meu trabalho, não sentia fome e nem toquei no meu almoço, o meu avô estava partindo, e podia ser curado, a cirurgia tinha grandes chances de êxito, porém, o velho relógio continuava parado e a decisão dele não se alterava.
No início da tarde daquele dia de primavera fui ao pomar nos fundos de minha casa para desanuviar o pensamento, lembrei-me do dia em que meu avô me mostrou o relógio cartier antigo, a inscrição “Le temps revient” da caixa de madeira de álamo negro nitidamente se formou em minha mente, foi quando eu tive uma epifania e gritei.
- O tempo retorna, então é isso, o tempo retorna, o tempo retorna, é essa a chave.
Rapidamente fui à relojoaria, peguei as ferramentas preferidas de vovô, desmontei o velho relógio cartier, coloquei os números do mostrador na ordem originalmente idealizada pelo seu criador. O número I à esquerda do XII, o número II à esquerda do I e assim prossegui até chegar ao VI. Depois coloquei o VII à direita do VI, o VIII à direita do VII, e assim fui até chegar ao XII.
Remontei todo o mecanismo, em menos de duas horas o relógio passou a funcionar no sentido originalmente projetado, ou seja, com os ponteiros girando no sentido anti-horário.
Dirigi-me ao hospital, vovô estava acordado e lúcido, apesar de abatido estava com um semblante tranquilo, o olhar dele brilhou ao me ver.
Cumprimentei-o da maneira que ele fazia com todos os seus clientes.
- TIC.
Ele respondeu:
- TAC.
- Pronto para operar? Perguntei.
- Claro que não, você sabe o motivo.
Retirei de dentro da sacola que carregava a caixa feita de madeira de álamo negro, peguei o relógio cartier antigo que estava dentro dela e entreguei ao meu avô. Seus olhos cansados cravaram no mostrador do relógio e duas lágrimas correram no seu rosto ao notar o ponteiro que marca os segundos girava.
Com a voz embargada, ele falou:
- Você conseguiu! Quebrou o encantamento. Quero falar com o médico agora.
A operação ocorreu no dia seguinte, um outro paciente não pôde fazer a cirurgia agendada e o centro cirúrgico e a equipe médica ficaram disponíveis. Um sopro do destino a nosso favor.
Assim que deixou a Unidade de Terapia Intensiva vovô pediu para eu ir ao hospital e tive que recontar para ele várias vezes a história do conserto. Ele ria muito de si mesmo por não ter entendido o funcionamento inusitado do mecanismo durante todos aqueles anos.
Durante um bom tempo ele manteve os olhos vidrados no mostrador do relógio, maravilhado com o girar anti-horário dos ponteiros. Parecia uma criança que acabara de ganhar um presente há muito tempo desejado.
Depois que voltamos para casa descobrimos um fundo falso na caixa de madeira de álamo negro e encontramos um bilhetinho de Cartier para Santos Dumont que explicava o motivo de o relógio funcionar no sentido anti-horário.
Em tradução livre o bilhetinho dizia: “Para um homem que vive à frente de seu tempo, retorne ao presente para sincronizar com os demais viventes”.


FIM

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Inspiração

Em uma reunião de trabalho para compartilhamento de conhecimentos, um colega utilizou o funcionamento das peças que compõem um relógio para exemplificar como o equilíbrio familiar é importante para as atividades laborais. Uma bela apresentação que foi a centelha que me inspirou a escrever o conto.

Sobre a obra

Uma mescla de fatos reais e ficção.

Sobre o autor

Sou um pesquisador motivado e entusiasta em retratar histórias que poderiam ter ocorrido.

Autor(a): GILSOMAR CORREA DA CUNHA (AÊRROC AD ANHUC)

APCEF/PR