E SE DOESSE MENOS?

E SE DOESSE MENOS?

Foi então que, alta madrugada, me vi vagando a esmo pelas ruas. Meio que sem motivação, mas também sem medo algum. Aliás, também não tinha um itinerário, um objetivo, o que me compelia eu ainda não tinha descoberto o nome. Caminhava. E só.

Ao derredor os cenários pareciam não fugir ao lugar-comum, mas havia algo ali que me inspirava a continuar. Uma expectativa, uma saudade a combater, um vazio a ser explicado, uma mágoa, um remorso…

Uma das poucas certezas naquele início de caminhada era de que eu precisava estar ali. Querer, acho que não queria, mas precisava. Desconfiava, também, que não haveria um ponto de chegada, mas estava convicto de que encontraria alguém.
E não demorou o encontro, e não foi sem emoção que a abracei. Sabia que era ela, apesar do sorriso nada usual, mais alta, outro rosto, um cabelo diferente, mas a essência não deixava dúvida: era ela, minha mãe!

Ao nos posicionarmos lado a lado a caminhada pareceu ter adquirido ritmo mais lento, a conversa fluiu como nunca, eu era um poço de perguntas e ela apenas sorria a boa parte delas. Falou de sua ausência e de como ela mesma lidou com isso, eu tentei lhe contar como venho me sentindo ultimamente, mas um olhar foi suficiente para me mostrar que tudo já era sabido. Não foi um olhar angelical, mas de cobrança, como a dizer algo como ‘eu avisei tantas vezes!’

A postura de minha mãe mantinha certa coerência, já que nunca foi dada a grandes demonstrações explícitas – ou físicas – de afeto, mas por ser aquele encontro algo tão excepcional foi realmente sofrida a decepção que me corroía. Eu queria lhe pedir perdão, dizer que me enganei, que poderia ter prestado mais atenção, que deveria ter ouvido suas queixas com mais respeito.

O toque de sua mão sobre a minha foi a senha para que eu entendesse que, se as causas dessa angústia estavam todas em mim, não há por que imaginar que a solução também não esteja. De repente ela se fez mais baixa até a estatura que tinha em vida, me olhou, tocou meu peito, disse algo sobre buscar ajuda, sorriu e começou a se afastar. Não disse nada, mas se despedia.

Minha mãe parecia, finalmente, feliz e em paz.

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Inspiração

Simples superposição de emoções e reminiscências, algo catártico mas verdadeiro que de alguma forma me levou ao encontro de minha mãe.

Sobre a obra

Este texto fluiu de maneira essencialmente anímica, tendo estranhamente adquirido alguma coerência ou lógica temporal. Pode ter sido o relato de um sonho. Técnica? Creio que nenhuma, aliás admito sérias dificuldades para definir se há um enquadramento literário a lhe atribuir.

Sobre o autor

Fui bancário profissional por pouco mais de três décadas, mas meu lado empírico e amador é o que mais aprecio. Músico amador, escriba amador, obtenho na vida familiar, nas artes e viagens minhas melhores definições de tempero da vida.

Autor(a): ROGERIO VELOSO DA SILVA (ROGÉRIO VELOSO)

APCEF/GO